Eu morri. Descobri isso quando, um dia, na calçada da Praça Maciel Pinheiro, ergui a cabeça, abri os olhos e avistei-me morto, ali, na calçada da praça, o sobrado do outro lado da rua. Meu coração despedaçado dentro do peito, o sobrado da rua do Aragão, 387, onde, no segundo andar, Clarice Lispector viveu uma infância feliz, aqui no Recife, apesar das dores do mundo e de viver e sentir, principalmente, as dores de uma doença implacável que um dia arrancaria Mania, a sua mãe, de perto de si. Descobri isso quando, estirado ali na calçada, sob o sol de um domingo abrasador, voltei a cabeça para minha direita, e avistei um homem ao meu lado, que também olhava o sobrado. Não sei se era um morto nem sei se vivo ele era. Vestia umas roupas esmolambadas. Aquela criatura fabulosa, ajoelhada ao meu lado, olhava o sobrado. Olhava o sobrado, onde morara Clarice na sua infância, e, sem sequer imaginar, via o sobrado de Clarice, via o sobrado que ele nunca tivera e onde ele jamais poderia habitar, ele só olhando o sobrado de Clarice e querendo-o para si, os olhos duas contas de lágrimas no seu rosto: no sobrado, ele via um naco de pão. Um naco de pão, o sobrado de Clarice ao menos é, para saciar a fome de um homem faminto. Um naco de pão, o sobrado de Clarice ao menos é, para saciar a fome de um povo faminto. Um povo cintilante. Como uma estrela. Um naco de pão, o sobrado de Clarice ao menos é, para recompor o meu despedaçado coração e fazê-lo voltar a pulsar com alegria dentro do peito. Eu preciso do meu coração! Quem não precisa de um coração? Até os que não têm coração precisam de um para viver! Eu quero o coração de Clarice de volta à vida, nem que precisem retirar o despedaçado sobrado da Praça Maciel Pinheiro da vala onde ele jaz a céu aberto. Não há dinheiro no mundo que pague essa pequena ressurreição, nem na terra onde a grande escritora pernambucana se fez Clarice Lispector, literalmente? A hoje Patrona da Literatura de Pernambuco? Há. Eu sei que há. Todo dinheiro do mundo é pouco para se pegar um prédio carcomido pelo descaso humano e juntar-lhes os pedaços todos, removê-lo das cinzas, e simplesmente entregá-lo ao povo do Recife, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de Alagoas, do Brasil e do mundo, devolvê-lo em forma de pão para saciar a fome de todos, sejam ricos ou pobres. Nenhum povo é suficientemente rico ou pobre para desprezar sua própria fome. “Nem só de pão viverá o homem”, é o ensinamento de Jesus. A própria Clarice mirou-se na leitura da “Imitação de Cristo”, livro milenar, atribuído a Tomás Kempis, para se construir ela própria Clarice e, assim, inteira, ser. Toda a fome é permanente e necessita ser saciada a cada momento. A conta-gotas e diariamente. E não precisamos que uma guerra da Ucrânia exploda no Recife, a hoje despedaçada Ucrânia, onde numa breve passagem da sua vida a escritora nasceu, e justo no centro da Maciel Pinheiro, para sabermos que essa tragédia não pode acontecer! Clarice está viva, a sua infância, intocada, e em 1976, exatamente nos dias 19 e 20 de maio, ela passeou com Olga Borelli e comigo, naquela mesma calçada da praça Maciel Pinheiro, para rever o sobrado da rua do Aragão e, em silêncio, sozinha, dentro de si mesma, como um milagre, subir a íngreme escada daquele sobrado para, na sua mais completa solidão, reabrir a porta de sua casa e entrar para, lá de dentro, só sair com “A hora da estrela” nas mãos para entregá-lo aos seus semelhantes. Em fins de setembro ou outubro de 1976, eu, então ansioso, por telefone, aqui do Recife, como costumava fazer, falei com Clarice e ela, de seu apartamento, no Leme, mastigando os erres lindíssimos de sua língua presa, entre sorrisos, me dera a notícia mais esperada que já pude ouvir: Augusto, acabo de escrever uma novela! Então a sua vinda ao Recife foi mesmo proveitosa, não foi? devolvi-lhe eu, sem poder me conter. E ela: Fooiiiii. O pretérito perfeito do indicativo do verbo ser nunca fora tão longo e feliz, saudoso dos erres, marcas indeléveis de sua língua presa. A amiga falara com a voz quase embargada, alegre, pois desde minhas constantes visitas à sua casa, no Leme, eu sabia da empreitada e dela participei. Na conversa que veio a seguir, Clarice me revelou, com rápidas pinceladas, a partir dos treze títulos da obra, um esboço de Macabéa e de sua hora, que ela a todos entregou, em 1977, pouco antes da sua própria hora: aos homens mulheres crianças jovens idosos aos famintos de pão e de saber, aos famintos, sem exceção. E ela humildemente escreve, em dado momento de sua criação: “Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência.” Doação é um dos nomes pelo qual Clarice atende. Desde o nosso primeiríssimo contato, por telefone, num distante janeiro de 1974. Quando uma estrela dentro de Clarice brotara madura para nunca mais apagar. Da humanidade da amiga eu soube já a partir do som de sua voz. Meu Deus, como Clarice é bela! Clarice Lispector é uma Casa! Um Centro de Cultura, no coração do Recife!
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