Ao lançar em 2015, nos Estados Unidos, a reunião inédita em livro de todos os contos de Clarice Lispector, o pesquisador Benjamin Moser dava um novo passo em sua incansável tarefa de divulgar no exterior a obra da escritora brasileira, que mereceu dele uma bela e aclamada biografia. The Complete Stories (Editora New Directions) conquistou público e crítica, e foi eleito pelo jornal The New York Times como um dos cem melhores livros publicados naquele ano. Em 2016, a Rocco, casa editorial de Clarice, lançou, para alegria dos numerosos fãs, a edição brasileira da obra, intitulada Todos os Contos. Agora, neste 19 de outubro, a reunião de 85 textos – que começa no primeiro conto publicado por ela aos 19 anos – atravessa uma nova fronteira, chegando às livrarias da França sob o título Nouvelles – Édition Complete, publicado pela Des Femmes-Antoinette Fouque.
A edição – oito tradutores fizeram a versão francesa a partir dos textos brasileiros – ajuda a consolidar ainda mais a presença de Clarice na França, país que já tem muitos admiradores da obra da autora, divulgada principalmente pela ensaísta e crítica literária Hélène Cixous. Um atrativo para os leitores franceses é que dez destes contos ainda permaneciam inéditos por lá. E como mais uma prova de que a paixão só aumenta, a França promoverá este ano o Hora de Clarice, evento criado pelo Instituto Moreira Salles para celebrar o aniversário da escritora, em 10 de dezembro.
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Além de confirmar o valor do gênero biográfico como meio privilegiado de atender às reivindicações de um público curioso sobre o passado de personalidades famosas, Teresa Montero desafia as convenções do gênero, ao reconstituir a vida familiar, as experiências pessoais, as amizades e o processo de criação de Clarice Lispector, uma autora que, com todas as suas forças, fez existir a sua vocação para a literatura como fatalidade e salvação.
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A frequente alusão às empregadas domésticas no ambiente urbano de suas crônicas demonstra o que é uma realidade para várias famílias de classe média no país: incorporada ao ambiente íntimo da casa na condição de um “outro domesticado”, a empregada doméstica constitui a relação mais duradoura, e pessoal, que um membro da classe média se permite estabelecer com a pobreza.
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Tornou-se lugar comum dizer que a escrita de Clarice busca ultrapassar o limite da linguagem, que a autora nomeia como “it”, “núcleo”, “objeto”, “coisa”, “indizível”, “silêncio”