De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Belém, 8 – julho – 1944

Minha querida

Tua carta não chegou fora de atmosfera. Eu bem precisava de algumas palavras como as suas. Já por duas vezes, quase de malas arrumadas, eu ia ao Rio. Um dia antes de receber a tua carta eu me preparava para viajar, já tinha combinado na NAB. À tarde do dia seguinte eu estava lassa e exausta e provavelmente não iria mais, veio a carta. Mas agora eu me pergunto se não convinha dar um pulo ao Rio e permanecer aí algum tempo. Você bem pode imaginar que não há nada de grave. Você dirá que isso sucede a todas; mas eu sou feita de tão pouca coisa e meu equilíbrio é tão frágil que eu preciso de um excesso de segurança para me sentir mais ou menos segura. Não houve nada senão a oportunidade de uma nova declaração de M. como aquela feita poucos dias antes de embarcarmos e que quase me fez ficar. Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre – sempre fui um pouco cínica -: a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele sente atração pelas mulheres; que a sensação é de deslumbramento e timidez; disse-me que não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele; perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas no gênero. Que certamente sempre ele se controlara. Em suma, é isso que você sabe. Naturalmente até agora nunca houve nada. Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar. Estou tão enojada de mim e dos outros. O pior é que estou me sentindo a mais miserável das mulheres… Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair em mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos. Estou ficando cínica e sem pudor. Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade, noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a ideia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa tão apática e miserável como uma mendiga. Você bem me conhece, toda a vida você procurou fazer de mim uma pessoa mais equilibrada e de bom senso, mas não conseguiu. Eu gosto de M. e poderia viver bem com ele se afinal eu soubesse da liberdade dele com cinismo e profunda falta de pudor e sentimento de ironia. Desejo mesmo chegar a esses estado de calcinação. E então eu procuraria me refugiar em outras ideias e outros sentimentos e o resto viveria bem. Não sei o que fazer. Só me ocorre ir para o Rio, passar aí um mês ou dois, dar a ele a liberdade de não se controlar, de ter uma vida como ele não teve tempo de ter porque se prendeu cedo demais, e depois voltar cicatrizada e serena. A ele mesmo isso não repugna, só dar a separação; mas ele nada responde a ter plena liberdade enquanto eu estiver fora. E a eu mesma tê-la, contanto que lhe conte depois. É evidente que ele preferiria que eu, enquanto isso ficasse sossegada, trabalhandinho. Mas ele me conhece bem e porque me conhece e tem medo de represálias é que ele se controla. Deus meu, eu sei que ele não tem culpa nenhuma. Mas eu também não tenho. Que é que você acha sinceramente de eu ir passar um tempo no Rio? A sensação de que ele nada fez porque eu estou presente é terrível e eu naturalmente me esgoto. Me faria bem passar um tempo aí, trabalhando na Noite ou não trabalhando, alugando um quarto num hotel bonzinho, dando um fim ao meu livro – que se sair de modo que me agrade um pouco será dedicado a você; me compreenda, eu lhe peço. Há pessoas que, quebradas no seu orgulho, nada mais têm. Tenho a impressão de que ficaria tão sossegada no Rio. Ele, ao mesmo tempo, saberia de si próprio, experimentaria uma vida para a qual ele se sente atraído, quem sabe se falsamente. Eu sou horrivelmente difícil de se viver com. Mas não é por culpa minha, acredite. Eu bem que me controlo, mas sou tão sensível. Eu me pareço com Elisa. Diga-me uma palavra, prometa-me que não me censurará quando eu estiver aí, que não tocará no assunto, e eu ficarei sossegada. A vida é longa, eu terei muito tempo para viver com ele. Mas acho que uma temporada longe dele me dará equilíbrio e sossego para eu me refazer e adquirir uma nova psicologia. A uns eu direi que fui tratar da 2a edição de meu pobre livro. Um pouco de solidão me fará bem. Nem posso escrever no diário, porque ele sempre arranja um jeito de lê-lo, de ler mesmo minhas pobres notas para um romance, escondido. Me escreva querida. Eu estou de um modo geral bem. E não me imagine aterrorizada ou especialmente aborrecida. Mas acho que preciso ir um tempo.

E quanto a M., o principal é que me dou bem com ele em todos os sentidos e que gosto dele. Tudo se arranja. Amo-te muito, querida.

Um abraço da tua Clarice.

Responda logo. Me fará muito bem você dizer que eu devo ir. Talvez mesmo sem você dizer, eu vá. Acho que é a minha solução.