Clarice é pop

Clarice Pop Arte
In: http://www.fotolog.com.br/cleoskull/62867569/

Em tempos de redes sociais, há um movimento de migração, voluntário ou não, do lugar usual e canonizado de artistas, músicos e autores. Leitores, intelectuais ou apenas “citadores” – como é corrente quanto se trata de Clarice Lispector – são os principais responsáveis por tal deslocamento.

Segundo pesquisa feita pelo youpix em junho de 2012, Clarice é a escritora mais citada no Twitter. São postadas diariamente no microblog mais de 3,5 mil frases de sua autoria – ou atribuídas a ela. Com o pequeno limite de 140 toques para cada publicação, não sobram caracteres para se incluir uma básica referência bibliográfica. Isso quando há intenção de quem posta as frases. E se quem conta um conto aumenta um ponto, quem cita uma frase aumenta pontos, vírgulas, palavras e enredos bastante equivocados.

Até no antigo Orkut, foram destinadas quase 300 comunidades a Clarice Lispector, a maior delas composta por 317.015 membros. No atual Facebook, há mais de vinte aplicativos; trinta páginas, que chegam a ter quase 600 mil likes, com títulos, no mínimo, curiosos, como “Clarice de tpm”, “Dose de Clarice Lispector” e “Conselhos de Clarice”. Algumas dessas páginas citam trechos de contos ou romances, enquanto outras unem frases de efeito (de Clarice ou não) a fotos da autora, que hoje podem ser facilmente encontradas no Google, sem a devida preocupação com os direitos autorais sejam dos herdeiros ou dos fotógrafos. E pra não dizer que não falei dos blogs, há centenas e centenas deles mergulhados no universo clariciano.

Esses números podem assustar e colocar em situação desconfortável quem preza pela dita “exclusividade acadêmica” em oposição – geralmente, pejorativa – àquilo que é de “massa”, ou que, pelo menos, é consagrado popularmente.

O que há de Clarice em números revela que seus textos não respeitam fronteiras geográficas, culturais ou espaço-temporais, mantendo-se muito vivos por meio de traduções e reedições, mesmo depois de 40 anos da morte da escritora.

Nesses tempos de intensa subjetividade, de laços sociais líquidos e de necessidade coletiva de realismo – ou de efeitos de real –, há quem cole de forma estreita a literatura à vida; como se na leitura houvesse uma projeção exagerada de si e, por meio dela, fosse possível a expurgação de fantasmas e neuroses pessoais. Quando, na realidade, “a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos retira o poder de dizer Eu” (Gilles Deleuze, Crítica e clínica).

E talvez seja esse movimento de leitura, o de colagem pessoal, e não a popularização das obras, aquilo que diminui a real potência e o permanente devir que há na escrita de Clarice Lispector, subvertendo sua obra em simplicíssimas doses de autoajuda, em indiretas de fundo moral ou em vaticínios instáveis de um guru qualquer.