Celebrado na Argentina, Nova York e Paris, o Hora de Clarice 2016, organizado pelo Instituto Moreira Salles, dividiu-se no último ano entre o tema epistolar e o da tradução.
A obra de Clarice Lispector tem se consolidado por meio de recentes traduções para o francês, espanhol, grego, e, sobretudo, para o inglês. É bem verdade que a publicação de todos os contos na edição única The Complete Stories, incluída na lista de melhores livros do New York Times, provocou uma nova onda de leitores ou curiosos. A transposição árdua e, ao mesmo tempo, delicada das histórias claricianas em português para o inglês ficou sob responsabilidade de Katrina Dodson – cujo empenho foi reconhecido e vencedor do Pen Translation Prize.
Um pouco mais do trabalho de tradução pôde ser conhecido no dia 10 de dezembro de 2016, com um bate-papo entre Katrina Dodson e Paloma Vidal, poeta e professora brasileira que traduziu e prefaciou Un soplo de vida (Um sopro de vida) e La legión extranjera (A legião estrangeira), publicados pela editora argentina Corregidor em 2010 e 2011.
Na segunda parte da celebração, o Hora de Clarice se deteve no farto conjunto de afetuosas cartas enviadas por Clarice às irmãs, Tania Kaufman e Elisa Lispector, no período em que esteve fora do Brasil. A partir da seleção desse conjunto de mais de 150 itens, sob a guarda do IMS, dirigidas por Bruno Lara Resende, às 18h30, as atrizes Georgiana Góes, Gisele Fróes e Raquel Iantas fizeram uma leitura de cartas – estão ali temas como a dificuldade de publicação de seu segundo romance, O lustre, a dinâmica do casamento, o término da segunda guerra mundial e o nascimento dos dois filhos, Pedro e Paulo.
Ambos os eventos podem ser conferidos integralmente logo abaixo:
Palestras com as tradutoras Paloma Vidal e Katrina Dodson no IMS
Leitura de cartas de Clarice Lispector às irmãs, Tania e Elisa Lispector
The complete stories, volume de contos de Clarice Lispector organizado por Benjamin Moser, foi indicado na prestigiosa lista de 100 melhores livros de 2015
É final de 1943. Sai por uma editora de parca relevância cultural, A Noite, o inusitado Perto do coração selvagem, livro de uma autora de 22 anos incompletos, ex-funcionária da casa.
Escuridão é uma palavra oca e nunca se sabe bem o que cabe dentro dela. De tal forma suas dimensões são indeterminadas que talvez se possa dizer até mesmo que nela cabe tudo e não cabe nada, pois, sendo um imenso celeiro de paradoxos, ao vazio primordial que a caracteriza soma-se imediatamente a qualidade equívoca da desmedida. Atributos que, assim pactuados, ganham particular densidade quando lavrados pelas mãos da autora de A maçã no escuro.
[...] por toda a obra de Clarice se manifesta uma deslumbrada – quase primordial, inaugural, edênica – visão do gênero, da divisão homem-mulher. Nota-se um fascínio assustado de haver no mundo um homem-macho-animal, como lemos por exemplo no conto “O búfalo”, e também nesse outro conto sobre a masculinidade fantásmica e monstruosa que é “O jantar”.
O filme retrata o célebre Ulisses, cachorro de Clarice Lispector e personagem de destaque em sua vida e ficção. Ele está presente no romance póstumo Um sopro de vida, é o narrador do livro infantil Quase de verdade, foi citado em inúmeras crônicas e hoje está imortalizado, ao lado de sua dona, em uma estátua de bronze na amurada da praia do Leme, no Rio de Janeiro.
No Hora de Clarice 2025, celebraremos nas vozes e atuações das crianças, o livro infanto-juvenil A vida íntima de Laura, publicado por Clarice Lispector em 1974. Neste filme, seis crianças recontam, atuam, ilustram e co-dirigem a história da galinha Laura, de seu marido Luís e de seu filho Hermany no galinheiro de Dona Luísa.