Fato, embuste, ficção

I

No centro do conto “A menor mulher do mundo” há a remissão a uma fotografia que teria sido publicada em reportagem sobre uma expedição de um explorador à África Equatorial em um “suplemento dominical”. 1  O dado poderia ser tomado como invenção ficcional, mas a existência de uma suposta reportagem é reforçada por “A explicação inútil”, texto publicado no “Fundo de gaveta” de A legião estrangeira, de 1964, sobre a gênese dos contos que compunham o volume anterior da autora, Laços de família, de 1960. 

“A menor mulher do mundo” me lembra domingo, primavera em Washington, criança adormecendo no colo no meio de um passeio, primeiros calores de maio – enquanto a menor mulher do mundo (uma notícia lida no jornal) intensificava tudo isso num lugar que me parece o nascedouro do mundo: África 

“Washington”, “primavera”, “domingo”, “notícia lida no jornal”, mais a especificação, dada pelo conto, de que a foto da Pequena Flor saíra em um “suplemento colorido dos jornais de domingo”: quatro ou cinco pistas que, embora em número diminuto, eram significativas e que, por isso, decidimos seguir. A “explicação inútil” fornecia uma baliza espaço-temporal, situando a leitura da notícia por Clarice em Washington, ou seja, conforme o que consta na biografia de Nádia Gotlib, entre 1952 e 1959. A correspondência com Fernando Sabino permitiu reduzir a janela temporal possível da publicação do suplemento para o intervalo entre março de 1955, quando o escritor confirma o recebimento de novos contos que Clarice lhe enviara, entre os quais não consta “A menor mulher do mundo”, e 12 de julho de 1956, quando ela já o menciona ao amigo. Quanto ao veículo da reportagem, fixadas data e cidade, nos parecia mais provável que a reportagem tivesse sido publicada em um dos dois maiores jornais da época: o Washington Evening Star ou o The Washington Post and Times-Herald (resultado da fusão entre o Times-Herald e o Post, em 1954); outro jornal de grande circulação da época, o The Washington Daily News, não circulava aos domingos. Restrita assim a busca, foi possível encontrar num “suplemento colorido dos jornais de domingo”, como diz o conto, o The American Weekly, encartado no The Washington Post and Times-Herald de 4 de setembro de 1955 (ou seja, não em um maio de primavera, como diz a “explicação”, mas no verão), o texto, acompanhado de foto, “Smallest Woman in the World”, assinado por Philip Drew.

Imagem 1. Philip Drew, “Smallest Woman in the World”, The American Weekly, 4 de setembro de 1955

De saída, a descoberta da reportagem do The American Weekly revelava que Marcel Prêtre, além de personagem do conto, era uma figura histórica, existente, que a expedição não era (apenas) uma criação ficcional de Clarice Lispector, como frequentemente se imaginou. A própria fotografia mencionada no conto, foto fictícia à qual as personagens dos apartamentos no meio do conto reagem, num dos momentos mais conhecidos da narrativa, encontrava o seu correspondente real, como se pode ver na reprodução facsimilar, que traz uma foto imensa da “menor mulher do mundo” (chamada de “Little Flower”) que se estendia por quase toda a altura do jornal (que media cerca de 50 cm) fazendo com que sua representação correspondesse à suposta altura real mencionada na reportagem, como se estivesse em tamanho natural, exatamente como afirmava o conto.

A descoberta da reportagem sobre a “menor mulher do mundo” já de início nos soava paradoxal. Por um lado, ela fornecia um fato para a discussão do conto, constituindo a prova de que a narrativa foi baseada numa matéria de jornal efetivamente existente. Dela vinham os personagens (a reportagem organiza-se em torno do encontro entre Marcel Prêtre e Little Flower, intermediado pela caracterização do povo dos “Likoualas”) e até o próprio título do conto, “Smallest Woman in the World”. Mais do que isso, ficava claro não apenas que Clarice fora impactada por uma notícia, como se poderia supor, mas que a redação do conto se deu a partir do manejo do jornal: fruto de um trabalho corpo-a-corpo com a reportagem, inclusive com trechos que são traduções praticamente literais dela, é certo que ela tenha guardado o suplemento dominical, e não simplesmente lido a matéria e “se inspirado”. Ou seja, a descoberta da reportagem oferecia um dado material para pesquisas, sendo possível ver ali, palpavelmente, a gênese da ficção clariciana na “realidade”: abria-se um campo de possibilidades de análise sobre o tipo de transformação, de refração, a que ela submetia essa reportagem real, concreta.

Por outro lado, essa matéria “real”, que teria originado o conto, ao mesmo tempo, nos parecia um embuste. Passagens que no conto antes soavam como uma caricatura exagerada do discurso jornalístico agora se mostravam traduções por vezes rentes ao texto. Tudo na reportagem —  a afirmação sobre o tamanho da pigmeia, seu tom, seu discurso exotizante — soava falso. Se o artigo era real, no sentido de que ele fora efetivamente publicado, e de que a “explicação inútil” de Clarice Lispector era verídica, aquilo que ele contava, no entanto, nos parecia inconsistente, pouco crível. De modo que a primeira pesquisa, sobre a origem do conto, se desdobrou numa segunda, sobre a origem dessa origem.

Uma informação, proveniente da tese de doutorado de Raquel Wandelli Loth (2014), a que chegamos quando buscávamos a notícia ou texto fonte do conto, iria nos auxiliar nessa segunda empreitada. Em uma nota, Loth levantava a hipótese de uma ligação entre o “explorador francês” do conto de Clarice Lispector, Marcel Prêtre, e o escritor suíço Marcel Georges Prêtre, autor de Calibre 475 Express, “livro de aventuras” publicado originalmente em 1954 e que conteria o relato de episódios ocorridos “entre os povos Pigmeus na África”. Num primeiro momento, o da pesquisa da reportagem, a indicação de que provavelmente o Marcel Prêtre do conto não era um nome inventado revelou-se essencial pois pudemos contar com mais uma palavra-chave para utilizar nas buscas nos acervos digitais. Mas agora, além disso, nesse segundo estágio, era o livro ele mesmo que se apresentava como uma fonte importante de pesquisa histórica sobre a origem da reportagem.

Como de certa forma já esperávamos, no livro de Marcel Prêtre encontramos o relato de uma expedição ao coração da floresta, em regiões “ainda inexploradas da África Equatorial”, onde teria se dado o encontro com povos pigmeus, entre os quais um de estatura especialmente pequena. A reportagem publicada no The American Weekly falava, assim, da mesma expedição relatada no livro, e a foto utilizada também provinha dele. 2 .

Imagem 2. Marcel Prêtre, Calibre 475 Express, Paris: Éditions de la Pensée Moderne, 1955, p. 32. 2

No entanto, terminada a leitura do livro, qual não foi a surpresa ao descobrir que não havia relato algum sobre “Pequena Flor” ou uma pigmeia grávida, que a foto, embora reproduzida no livro, não era desdobrada em nenhuma passagem narrativa, de sorte que o encontro entre esses dois personagens (o explorador e a pigmeia grávida, a menor mulher do mundo), que organizava toda a matéria americana, estava ausente das páginas assinadas por Prêtre. A essa altura, é claro, embora se apresentasse como um relato documental de uma viagem, respaldado por farto material fotográfico (a edição francesa do livro integrava a coleção “La Marche du monde”, série declaradamente não-ficcional), o livro, em seu rol de afirmações inaceitáveis (ao mesmo tempo patentemente falsas e ofensivas, racistas), 3 se oferecia de pronto à leitura como um embuste. Mas não era apenas essa espécie de ausência fantasmagórica de “Pequena Flor” que era estranha, imagem órfã de nome e história. Pois mesmo aquilo que a reportagem do The American Weekly e o livro tinham em comum — o relato sensacionalista da “descoberta”, por Marcel Prêtre, dos “menores pigmeus do mundo” — não era bem o mesmo: as descrições pretensamente etnográficas do suposto povo não coincidiam entre si, constituíam versões abertamente incompatíveis (para ficar em apenas um exemplo, os likoualas, ameaçadores canibais no livro, passam a ser vítimas caçadas e comidas pelos bantos, na reportagem). Era como se o “fato” que havíamos trazido à tona perdesse consistência quanto mais era investigado. 

E a descoberta de um novo documento tornava ainda menos firme essa origem factual da narrativa clariciana: antes mesmo de publicar o livro, Prêtre já anunciara seu “achado científico”, com grande alarde, numa reportagem ao jornal suíço L’Impartial, de 19 de julho de 1954. 4

Imagem 3. L’Impartial, de 19 de julho de 1954.

E, mais uma vez, acrescentar uma nova peça à cadeia de textos que desembocariam no conto (a mais antiga das variantes que localizamos) só fazia abrir novas fissuras entre as versões. A primeira contradição, flagrante, era espacial: a expedição, que a notícia do jornal suíço localizava “nos confins da Guiné Espanhola”, migrava no livro para a fronteira da Guiné Portuguesa, duas “Guinés” em pontos distintos, particularmente distantes entre si, no mapa desenhado pelos impérios coloniais europeus. O que poderia ser tomado apenas como um lapso, a confusão entre os nomes, deixava de parecer casual diante de outra alteração, uma diferença pontual na versão, que indicava uma reescrita deliberada: na reportagem suíça, Prêtre narra o encontro com pigmeus de 45 cm; no livro, contudo, esse mesmo parágrafo —  que conta a primeira vez em que avista o povo — é reaproveitado quase à letra, o mesmo texto-matriz, agora apenas editado para elevar a estatura a 75 cm, como a tornar o achado mais crível.

E, como se as contradições entre os documentos dessa cadeia já não fossem o bastante, elas apareciam mesmo dentro de um único elo. É que a própria obra Calibre 475 Express, quando examinada mais detidamente, voltava-se contra si mesma. Havia, por exemplo, inconsistências entre as edições do livro: na francesa, a que tivemos acesso inicialmente, a legenda da foto da pigmeia grávida informava, como vimos, que ela media 48 centímetros; na edição suíça, seu país de origem, por seu turno, a mesma imagem retornava com legenda praticamente idêntica, mas com uma alteração significativa: a pigmeia grávida teria agora “mais ou menos 80 cm de altura”. É tentador supor que, longe de casa, Prêtre se permitisse afirmações que, diante dos próprios conterrâneos, ele se visse obrigado a atenuar, como se uma eventual recepção cética da reportagem, anunciada com estardalhaço no L’Impartial, já o tivesse levado a moderar suas bravatas em seu próprio país. A tudo isso vem se somar ainda outra complicação. A rigor, falar aqui em “Prêtre”, como temos feito, não é tão simples: Calibre 475 Express, embora assinado por Marcel Prêtre, não foi escrito por ele, mas por um ghostwriter, Frédéric Dard. Como se descobre na biografia de Dard, de autoria de François Rivière, o então jovem escritor francês recebeu de Prêtre uma encomenda “que consistia em reescrever uma coletânea de memórias de caça na África”. “O romancista se dedicou à tarefa da melhor maneira possível, às vezes levado por sua imaginação transbordante”. Em mais uma das voltas dessa história, Dard, esse jovem em começo de carreira que recebera de Prêtre as anotações e a incumbência de convertê-las num livro, iria se tornar depois um dos escritores franceses mais bem-sucedidos comercialmente e prolíficos do século XX, enorme fenômeno editorial. Nada parecia se sustentar, nem mesmo a assinatura do livro podia ser confiada.

Restaria talvez a fotografia, em sua indexicalidade. O caso é que, repetindo um mesmo roteiro, uma nova peça encontrada iria mostrar que nem mesmo a foto estava fora do alcance das falsificações que se acumulavam em torno desse episódio: uma imagem, depositada no Fonds Marcel Prêtre, arquivo pessoal doado à Université de Fribourg, comprometia aquela que era apresentada como a sua única “prova material”.

Imagem 4. Arquivo pessoal de Marcel Prêtre conservado na Biblioteca cantonal e universitária de Friburgo.

Como se vê, a imagem que Marcel Prêtre usava de lastro às sucessivas versões do episódio era o recorte de uma fotografia mais ampla. Se o recorte presente em Calibre 475 Express e que ele faria circular pela imprensa trazia um plano fechado, orientando nossa atenção para as duas figuras e reduzindo o fundo a uma sugestão vaga de mata, indefinida; a fotografia original da qual ele saíra, por seu turno, resgata um contexto que havia sido convenientemente suprimido, pois incompatível com a narrativa no coração da floresta. 5 A faixa clara à esquerda, que no recorte passava despercebida em sua ilegibilidade, se deixa reconhecer como uma construção de concreto, a vaga mata do fundo, antes achatada pela supressão da linha de fuga, passa a se mostrar, com o ganho de profundidade, como uma vegetação de beira de estrada, na qual vemos um cachorro à frente e, mais recuado, um grupo de pessoas caminhando: o plano aberto descortina um mundo completamente diverso daquele fabricado pelo relato. E não houve apenas esse reenquadramento da fotografia original. Um detalhe menor, mas revelador, indica que se teve o cuidado de retocar a imagem de modo a ajustá-la à ideia de um “explorador em missão”: se na foto recortada, reproduzida em Calibre 475 Express, ele aparecia calçando um sapato fechado e escuro, sóbrio, um sapato de trabalho, de expedição, a fotografia original mostra um calçado leve, mais claro e despojado, de corte moderno, o que denuncia que a imagem fora pacientemente pintada à mão e que, com efeito, nem mesmo sua condição de índice permanecia de pé.

II

Com certa razão, se poderia dizer que todo esse percurso em que fomos empilhando desmentido sobre desmentido pode parecer um pouco redundante; já era possível entrever o embuste de saída e, lembrando a resposta de um físico conhecido, diante do falso bastaria um desmentido, a centésima refutação deve soar excessiva. A questão, contudo, não é simplesmente reiterar à exaustão que a fraude era fraudulenta, mas também investigar sua forma, o que permite compreender melhor o tipo de operação que a ficção clariciana realiza sobre essa série de imagens e discursos coloniais. Uma das coisas que esse percurso permite entrever, embora não seja possível desenvolvê-lo mais extensamente aqui, é que a matéria que chegou às mãos da Clarice, a partir da qual ela construiu seu conto, se revelou como não apenas inventada, mas como construção estratificada, como se ela tivesse sido elaborada por diferentes camadas de fabricação, de arranjo e rearranjo narrativo. “A menor mulher do mundo”, o conto de Lispector, é, em parte, a reelaboração da reportagem de Philip Drew, que já era uma reconfiguração do livro Calibre 475 Express que, por sua vez, era a reescrita, por um romancista profissional, Frédéric Dard, que se tornaria célebre, de anotações alheias, de Marcel Prêtre. 6 

Note-se, ainda, que não se trata de dizer que em toda essa intriga mentirosa não haja nenhuma verdade em jogo, mas de deslocar a questão. Esses enunciados mentem, por certo, enquanto notícia de um suposto povo pigmeu, inexistente, ou de uma certa África, imaginária, mas eles não mentem de qualquer maneira, há um repertório de formas reconhecíveis, regras, uma gramática em jogo, de modo que eles não deixam de dar notícia de algo, de um certo regime de representação, um pano de fundo que torna esses discursos possíveis (publicáveis, críveis). A referência ao trabalho de V. Y. Mudimbe é aqui incontornável, no sentido de que essa cadeia de textos que vão desembocar no conto poderiam, quase exemplarmente, ocupar as estantes do que o filósofo vai chamar de “biblioteca colonial”, “um corpo de conhecimento que generaliza regras conceituais, certos paradigmas históricos e um projeto político”. Outra maneira de formulá-lo é que diante de uma “fabulação” interessa menos interrogar sobre a verdade de seus objetos (que sabemos serem falsos), mas da fantasia que a produziu.

Vale acrescentar que esse factoide, a história fabricada do suposto povo pigmeu likouala, teria ainda uma sobrevida, a mesma foto e relato voltariam a ressoar na década de 1980 no livro de Bernard Heuvelmans, fundador da pseudociência da criptozoologia, num texto cético quanto às alegações de Calibre 475 Express, mas que não deixava de analisá-las munido da maquinaria conceitual do “racialismo científico”, e, por fim, num retorno ainda mais tardio, numa edição recente, de 2007, de uma enciclopédia francesa, em que a fotografia reaparece a certificar de maneira sensacionalista a suposta “descoberta” (como um “documento exclusivo”), numa reaparição cuja credulidade absurda espantaria Dasen e Minder, autores de um breve artigo sobre Calibre 475 Express e que acompanharam parte da circulação descontrolada dessa fotografia e dessa história, como se o embuste inicial continuasse, muito depois, a produzir novos volumes para a “biblioteca colonial”.

Imagem 5. Reaparição tardia da fotografia. Monnestier, Les Monstres. Histoire encyclopédique des phénomènes humains (2007).

Revelada essa série proliferante a que o conto está ligado, um caminho seria recensear as semelhanças de fundo que o conceito de Mudimbe busca apreender e perguntar em que medida “A menor mulher do mundo” pode também ser tomado como mais um volume dessa biblioteca, perguntar pelo “colonialismo” da narrativa. A questão dos pressupostos colonialistas da narrativa — que foi de certa forma colocada por Daphne Patai, num importante ensaio sobre o conto 7 — é pertinente e delicada, mas tão difícil quanto simplesmente negá-lo, seria a alternativa de tratar a narrativa clariciana como um elemento indiferenciado nessa série, como se fosse igualmente difícil não reconhecer que há também algo de outra natureza e voltagem ocorrendo no conto, ligado em parte à sua condição ficcional, especificidade que também seria preciso investigar. 

III

Privilegiamos até aqui a apresentação desse material em torno do conto, na medida em que ele pode servir de ponto de partida para investigações variadas. No que resta desse ensaio, porém, vamos tentar, ainda que de maneira esboçada, pensar a singularidade do texto clariciano nessa série.

A peça que Clarice teve efetivamente diante de si foi a reportagem do The American Weekly. A imagem que a ilustra é a edição de uma foto já ela própria editada, que vai radicalizar a descontextualização da primeira intervenção, o fundo é eliminado, as figuras separadas e seus tamanhos relativos invertidos. Se a “pigmeia” aparece como enorme, escusado dizer, é como um procedimento de exotização, justamente para ser “totalmente contida” pelo jornal, ela estaria em suposto tamanho natural. A decisão do jornal é de colocar algo como uma duplicata do seu corpo inteiro, expô-lo para o olhar exotizante do leitor. Marcel Prêtre, por seu turno, numa imagem reduzida, tem representado apenas sua “parte superior”, da barriga para cima. A foto simboliza apenas a ideia do explorador, a reportagem não está interessada em seu corpo, em expô-lo, apenas em seu testemunho, ele é o fiador da reportagem. A cisão da fotografia em duas imagens separadas salienta o seu funcionamento distinto. Há duas modalidades de representação relativas a cada personagem, uma de captura e espetacularização do corpo da mulher (que aparece inteiramente exposto, como objeto para o consumo visual) e outra de indexação autoral do explorador (que aparece em meia-figura e minimizado; só vemos sua parte “superior”, pois ele está ali como o sujeito do enunciado da descoberta). Vale notar que essa dinâmica é rigorosamente a mesma do texto da notícia. É como garantidor do relato que a figura de Prêtre aparece no corpo da matéria. Isso pode ser visto de maneira particularmente clara pelo uso de marcas evidenciais (“a French explorer says”, “Marcel Prêtre reports”, “says Marcel Pretre”, “he reported”, “he says”), que vão pontuando o texto de modo a sinalizar a sua função, ele é a origem do que se conta. O texto não se ocupa em olhá-lo, pois é construído a partir dele, sua própria condição de notícia, sua pretensão de factualidade, está ancorada no seu testemunho, posição perceptiva que o texto assume sem nunca propriamente tematizar.

O conto, que retoma e traduz muito da reportagem, sobretudo na sua primeira parte, já no início introduz, no entanto, uma diferença, a princípio trivial: é que sem deixar de incorporar o ponto de vista de Marcel Prêtre, sua própria figura será também objeto de atenção da narração. Veremos ao longo do conto o explorador corando púdico, perturbado, disfarçando, sentindo mal-estar, tímido. Desde a primeira cena do encontro entre Prêtre e Pequena Flor, a narração vai mesmo se permitir penetrar sua alma para vê-la sob risco de transbordar (“apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites”). Reparem que não é apenas que ele é visto, mas que ele é objeto de derrisão, de zombaria. Essa primeira cena é narrada pelas lentes de um dos tópos mais conhecidos da obra de Clarice: um personagem que diante de algo que arrisca desestabilizá-lo tenta pateticamente se proteger pelo intelecto. A narrativa o colocará seguidas vezes nessa situação embaraçosa, com o explorador empregando subterfúgios diversos (“desviar de olhos”, apelo ao “capacete simbólico”, “pestanejar”, “tomação de notas”). Se a reportagem era narrada de forma basicamente consoante a Prêtre, em que ele nunca era colocado em questão, não era julgado, o conto, por sua vez, mesmo partindo do ângulo do explorador, herdado da matéria, se permite também avaliar sua figura, como se ele oscilasse de origem do olhar a objeto escrutinado pela narração. 

Seria difícil descrever a experiência do conto sem lançar mão da ideia de que há uma complexidade de outra ordem em relação não apenas à reportagem do jornal americano mas a todos os outros discursos dessa série, o que vai se acentuar ainda mais. Após a primeira parte do conto, em que há o relato da expedição de Marcel Prêtre, teremos uma dobra, em que se dá uma espécie de mudança de nível narrativo: “A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural”. Vínhamos da narração da “descoberta dos menores pigmeus do mundo” (em grande parte baseada na reportagem real), mas há aqui um corte não apenas espacial (saímos da floresta), como também de plano, em que saltamos da esfera primária do relato para sermos colocados diante da própria publicação em que essa história que lemos seria divulgada, uma espécie de The American Weekly ficcional, agora interno à diegese, o que altera, retroativamente, o estatuto do que havíamos lido no início do conto. E se lembrarmos da maneira como o gesto de escrever de Marcel Prêtre é figurado no conto, como um mecanismo de defesa do personagem (tomar notas é uma forma de desviar os olhos de Pequena Flor, de não sofrer o impacto da existência do outro), então, poderíamos dizer que o conto não apenas incorpora o relato da reportagem, como se permite especular sobre sua gênese libidinal, como uma fantasia protetora, uma forma de não ver. Se quisermos pensar o conto em relação à série, o que o singulariza não é simplesmente que o factoide de Marcel Prêtre não é mais asseverado como nos outros elos da cadeia (que, portanto, nesse caso não há mentira, mas um texto ficcional), mas sua maior latitude, que lhe permite ao mesmo tempo incorporar o embuste e interrogar a fantasia que o anima.

O que importa nessa operação reflexiva, porém, não é simplesmente a notícia ali reposta, sua aparição como objeto ficcional, mas, é claro, a cena que ela inaugura. O que a dobra põe em jogo é sobretudo a circulação social dessa notícia: a segunda parte do conto sobrepõe ao relato da descoberta da “menor mulher do mundo” um plano que a repercute, a cena de leitura, o panorama pelas várias famílias diante do jornal aberto na reportagem. É como se o escrutínio do conto não se detivesse na representação, tomada estaticamente, mas seguisse sua trilha, todo seu movimento, até a recepção. E essa sobreposição de planos não é, evidentemente, inócua, ela os coloca em interação no interior do conto, produzindo uma espécie de espelhamento recíproco. Por um lado, seria possível dizer que essa segunda parte, que faz uma espécie de radiografia da alma dos leitores, de certa forma aprofunda aquele exame libidinal do explorador, o sujeito do relato da descoberta. Isso pode ser visto em particular por uma referência à “delicadeza de sentimentos” de Prêtre, referência entre irônica e desconfiada, situada bem no momento de passagem para o quadro com as várias cenas das famílias urbanas que recebem a notícia. É que nesse panorama em que se percorrerá as diversas reações dos leitores de jornal, se tratará sobretudo de sondar certa “delicadeza de sentimentos”; é isso que parece interessar à narração nas suas visitas às várias famílias: se há algo que une as diversas cenas, é o que está em exame, é a recorrência de uma certa “sensibilidade”. É como se algo, inicialmente do protagonista, reaparecesse nos habitantes dessas casas e apartamentos, se refletisse neles para ser mais bem investigado. Numa primeira direção da equivalência, produzida pela justaposição dos planos, teríamos, então, “Marcel Prêtre é como esses leitores de jornal”: o miolo do conto aprofundaria, em tons mais sombrios, o exame sobre uma certa incapacidade de ver, revelando seu fundo perverso. Por outro lado, contudo, a equação pode ser lida no sentido contrário, em que teríamos “esses leitores são como Marcel Prêtre”: somos convidados a ler aquelas cenas a partir da questão do colonialismo, que é trazido para dentro das casas. E, de fato, uma das coisas que o corte para os apartamentos faz é deixar claro uma espécie de ampliação do escopo do “colonialismo” que o conto põe sob exame. Se a cena inicial pode ser lida como gravitando em torno de uma cena colonial em sentido estrito (isto é, o explorador europeu diante de povos da África Equatorial em território sob administração francesa), a passagem para as cenas das famílias urbanas indica também que o que parece estar em causa no conto não é (apenas) a dominação territorial ou econômica, mas o colonialismo como forma de percepção e representação do outro.  Acrescente-se ainda que, embora não haja propriamente referência geográfica dessas casas, o leitor brasileiro provavelmente sentirá no exame das delicadas almas que as habitam, que revela repetidamente uma certa conjunção entre ternura e violência racial, uma sensibilidade que nos é bastante familiar. E há aqui talvez a principal das analogias entre o protagonista e a série dos leitores de jornal, pois é como se o conto, em sua estrutura, colocasse em paralelo dois colonialismos, em que cortamos de um cenário, que remete ao neocolonialismo europeu, a expedição de Marcel Prêtre na África Equatorial, para os urbanos apartamentos, cuja radiografia revela uma crueldade, repleta de “ternuras”, que é a persistência desse outro passado colonial. 8

Esses espelhamentos entre Prêtre e os leitores de jornal, contudo, não esgotam os efeitos de sua dobra reflexiva. Pois é como se a cena de leitura que o conto encerra em si não ficasse contida na diegese ou nessa relação entre personagens: ela se volta para a própria enunciação, explorando a analogia com o leitor real. O conto deixa bem claro que seus leitores estão numa posição análoga à daquelas famílias urbanas que ele desnuda implacavelmente. Isso se revela de maneira mais nítida no desfecho, em que uma senhora vai fechar o jornal, espelhando o que o leitor da narrativa também está prestes a fazer, também nós vamos virar a página, fechar o conto, o livro, após terminá-lo; é como se ambos leitores, simultaneamente, reflexo um do outro, realizassem exatamente o mesmo gesto. O movimento da senhora pode ser tomado como mais uma das formas de “não-ver” em exame e, nesse sentido, a sugestão implícita é que nós, interlocutores efetivos da enunciação do conto, estamos por fazer um gesto de significado análogo ao daquelas personagens, cerramos o conto para desviar os olhos da existência da pigmeia. Há um desejo de implicar o seu próprio leitor no problema, o que a narrativa faz oferecendo uma série de duplos incômodos, nas várias cenas das famílias urbanas. 

Num lance a mais nesse jogo especular, por fim, seria possível ver na quinta família um duplo da própria casa de Clarice, aprofundando esse movimento vertiginoso do conto que arrasta tudo para dentro de si. A cena traz um menino que tem a ideia macabra, usar Pequena Flor como uma “boneca”, como coisa, para assustar seu irmão mais novo: “a gente brincava tanto com ela”. Ocorre que um traço biográfico, um nome, poderia ser tomado como traindo a inscrição da autora na cena: “Paulo”, o irmãozinho mais novo que o garoto quer assustar, é precisamente o nome do caçula da autora, de Clarice, de modo que, seguindo a mesma trilha, quem falaria seria Pedro, o filho mais velho, e, portanto, a mulher diante do espelho, que ocupa o centro exato da narrativa, seria um duplo da própria autora. É uma escrita que não tira o corpo fora, seja no sentido de que a autoria não é um ponto de fuga abstrato, não tematizado, pois também é colocada em cena, seja no sentido mais corrente da expressão, de que ela recusa uma posição segura, ela não se exime. Nesse sentido, não se trata de tomar a fala como um pretenso fato, como se tivesse realmente ocorrido, de desconsiderar sua dimensão de ficção. Ao contrário, o apelo ao dado biográfico, longe de levar o conto para um regime de asserção, que o aproximaria dos outros documentos da série, é, na verdade, justamente um mergulho mais fundo em certa potência do ficcional, ele radicaliza ainda mais o abismo de espelhos que vimos tentando descrever, é mais uma das instâncias dessa espiral problematizante que não deixa nada escapar.

IV 

Levar adiante essa investigação sobre a singularidade de “A menor mulher do mundo” na série envolveria, ainda, abordar a terceira parte do conto, o retorno à floresta, em que a narração assume, finalmente, o ponto de vista de Pequena Flor. 9 Passaria também, a meu juízo, pelo recurso à reflexão de Alexandre Nodari sobre a ficção, em particular seu conceito de obliquação, elaborado, não por acaso, na leitura da obra de Clarice Lispector. É que uma maneira de pensar a diferença do conto nessa cadeia seria justamente observar que, nos demais elos, vigora uma relação unívoca de um sujeito sobre um objeto, ao passo que, na narrativa clariciana, as relações não cessam de se dobrar, tanto no sentido de que se multiplicam, desdobram-se continuamente em novos pontos de vista, quanto no sentido de que se tornam reversíveis, num movimento constante em que cada termo que ocupava a posição de quem vê é simultaneamente reconduzido à de quem é visto.

* Nota do editor: agradecemos a João Camillo Penna a informação de que Mateus Toledo Gonçalves havia em sua pesquisa de doutorado encontrado a reportagem que deu origem ao conto “A menor mulher do mundo”, de Clarice Lispector, e o contato com o autor.

** O IMS envidou todos os esforços para identificar e localizar detentores dos direitos de imagem das pessoas retratadas (exibidas/publicadas/divulgadas), e agradece toda informação suplementar a respeito.

  1.  A pesquisa inicial que resultou no material aqui exposto foi realizada ao longo do doutorado (defendido no final de 2025 e desenvolvido nos anos anteriores) não apenas com o suporte mas com a parceria de Alexandre Nodari, tendo sido parcialmente apresentada na tese. O uso da primeira pessoa do plural, sobretudo na primeira parte, não é retórico, mas um resquício dessa colaboração. A localização desses documentos também não teria sido possível sem a ajuda fundamental de Juana Medus. O desdobramento mais robusto e extenso dessa pesquisa, ainda em seus primeiros passos, realiza-se atualmente com o auxílio da professora Yudith Rosenbaum, com vistas a um livro.[]
  2. A legenda trazia: “Esta mulher minúscula, que tem cerca de doze anos, está grávida de aproximadamente cinco meses e mede por volta de 48 cm de altura. Ela segura na mão uma foto que lhe dei.” Essa mesma foto foi apresentada por Šárka Grauová em texto recente para esse site, “Círculo e voragem em ‘A menor mulher do mundo’” https://site.claricelispector.ims.com.br/2026/05/07/circulo-e-voragem-em-a-menor-mulher-do-mundo/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=circulo-e-voragem-em-a-menor-mulher-do-mundo []
  3. Temperaturas superiores a 60 graus Celsius, a caracterização racista do povo minúsculo que viveria em árvores, que ignoraria o fogo e quase não teria linguagem.[]
  4.  Como se pode ver na imagem 3, a reportagem suíça traz pela primeira vez a mesma fotografia que perseguimos, ela é a única “evidência” que Prêtre vai usar e reusar para sustentar seus relatos. Note-se, contudo, que, nessa primeira aparição, ela funciona de outra forma, ela vem legendada como “um pigmeu” (un pygmée), e serve para ilustrar a passagem que narra o encontro de Prêtre com um pigmeu homem, e não uma “pigmeia grávida”. Não teremos tempo de elaborar o argumento aqui, mas nossa hipótese é de que a personagem da “Pequena Flor” é uma invenção de Philip Drew a partir da foto, como se ele suplementasse uma história que o livro prometia, mas não entregava.[]
  5.  A reportagem do The American Weekly, por exemplo, situava o encontro com os likoualas “nas profundezas da África Equatorial”, avançando “através de densas florestas”; o livro, na mesma direção, descrevia um país “absolutamente inexplorado e desconhecido”, “ferozmente isolado” pelas “incríveis dificuldades que o viajante encontrava” para alcançá-lo, feito de “matas impenetráveis” e acessível apenas depois de semanas de caminhada, abrindo “túneis pela vegetação”, num local onde até as “bússolas deixavam de funcionar”.[]
  6. Apenas um exemplo, uma comparação da reportagem do The American Weekly, que chegou às mãos da Clarice, com o Calibre 475 Express mostra, para além das inconsistências, das diferenças entre as versões, que essas alterações não eram casuais, que mais do que adaptar o relato do livro, Philip Drew estava produzindo uma “ficção” distinta, inscrita na tradição do “bom selvagem”. Drew afeta um lirismo condescendente, encurta a distância enunciativa, singulariza o povo desconhecido numa personagem inexistente na fonte, a quem confere fala em discurso direto, para dar à sua narrativa um fecho de fábula moral, mobilizando os motivos conhecidos do “ser natural autossuficiente”, contente e de poucas necessidades, livre do peso de possuir. A maneira como o discurso colonial aparece na reportagem, o tipo de fantasia que se constrói ali, é em tudo distinta daquela do livro.[]
  7. PATAI, Daphne. L’essentialisme de Clarice Lispector. Études françaises, 25(1), 1989, https://www.erudit.org/en/journals/etudfr/1989-v25-n1-etudfr1062/035772ar/ []
  8.  Uma possível alusão do conto à “companheira de brinquedo”, prática escravista descrita por Gilberto Freyre seguidas vezes em seu Casa-Grande & Senzala, pode servir para aprofundar essa questão da circunscrição histórico-geográfica desse colonialismo, conferir tese Laços de família: exercícios de leitura. https://www.academia.edu/161274868/Laços_de_família_exercícios_de_leitura []
  9.  E sobretudo envolveria levar a sério a “tese sobre o amor” da pigmeia no final do conto, como faz João Camillo Penna em “A cosmopolítica de Clarice Lispector (A política das coisas)”, capítulo de seu O símbolo e a coisa, livro no prelo sobre a obra de Clarice.[]