A biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser, Why this world (Oxford University Press, 2009), segue circulando pelo mundo. Publicada no Brasil também em 2009 pela Cosac Naify, com tradução de José Geraldo Couto, a obra ganhou nova edição este ano, desta vez pela Companhia das Letras. Intitulada Clarice,, a biografia reeditada conta com novas fotos, imagens raras, cartas e manuscritos descobertos pelo próprio Moser.
O livro chega agora aos países de língua espanhola. A editora madrilenha Siruela lançou Por qué este mundo. Una biografía de Clarice Lispector (trad. Cristina Sánchez-Andrade) em setembro na Europa e começou a distribui-lo na América Latina este mês. Os novos lançamentos darão oportunidade aos leitores hispanófonos de entrar em contato com uma “biografia digna de sua protagonista”, segundo Orhan Pamuk, escritor turco vencedor do prêmio Nobel. “Enfim, uma das autoras mais enigmáticas do século XX retratada em todo seu vibrante colorido”.
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por Augusto Ferraz
Eu morri. Descobri isso quando, um dia, na calçada da Praça Maciel Pinheiro, ergui a cabeça, abri os olhos e avistei-me morto, ali, na calçada da praça, o sobrado do outro lado da rua. Meu coração despedaçado dentro do peito, o sobrado da rua do Aragão, 387, onde, no segundo andar, Clarice Lispector viveu uma infância feliz, aqui no Recife, apesar das dores do mundo e de viver e sentir, principalmente, as dores de uma doença implacável que um dia arrancaria Mania, a sua mãe, de perto de si.
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Hoje é domingo em Nova Iorque. Em Brasília, a fúlgida, já é terça-feira. Brasília simplesmente pula segunda-feira.
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No livro O Rio de Clarice, o prazer de Clarice Lispector em flanar pelas ruas, florestas, parques e praias do Rio de Janeiro, onde chegou aos 15 anos, fica evidente.
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Tornou-se lugar comum dizer que a escrita de Clarice busca ultrapassar o limite da linguagem, que a autora nomeia como “it”, “núcleo”, “objeto”, “coisa”, “indizível”, “silêncio”
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A frequente alusão às empregadas domésticas no ambiente urbano de suas crônicas demonstra o que é uma realidade para várias famílias de classe média no país: incorporada ao ambiente íntimo da casa na condição de um “outro domesticado”, a empregada doméstica constitui a relação mais duradoura, e pessoal, que um membro da classe média se permite estabelecer com a pobreza.
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As crônicas de Clarice Lispector foram reunidas em livro pela primeira vez em 1984, em A descoberta do mundo, volume organizado por Paulo Gurgel Valente, filho da autora, que alinhou em ordem cronológica 468 textos publicados no Jornal do Brasil entre os anos 1967 e 1973. Li e reli aquelas quase oitocentas páginas muitas vezes...