D. Maria Inês do Nascimento / Travessa Pedro Américo, 285 – Bairro Vermelho / Amanhã, às oito horas (parece), tomaremos o avião; depois de três horas e pouco de voo, chegaremos a Bolama, possessão portuguesa, onde almoçaremos. À 1h, parece, chegaremos a Dacar, onde ficaremos duas horas! Voaremos tod a a noite e chegaremos na manhã seguinte a Lisboa. Não sei o que me espera lá.
Itens
Originais & Documentos
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Caderno 20
Lisboa, 4 de agosto de 1944, sexta-feira / Acordei quase dez horas. Ontem jantei em Cacilhas com Ribeiro Couto e Maria Archer. Fiz compras de manhã, fui à casa de Ribeiro Couto, almocei com ele, li capítulo dos bonecos de barro.15 Só de tarde ele disse quanto gostou. Disse que a mim não adianta dar conselhos, que sem ter experiência eu sei de tudo. Coisas agradáveis e bem observadas, já ouvidas ou sentidas. Depois do almoço ele me mudou. Hotel mais barato é melhor. “Sem aqueles homens do Hotel Astoria, no hall, admirando você embasbacados”. Mudei-me para o parque Palacio. Li todo o romance de Maria Archer. Saudade de M. Fui jantar em Bucelas – paisagem nítida e cor-de-rosa ovelhas – olivais – Tejo
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Caderno 21
Vilas econômicas – Citael, Citael, sobretudo Citael – Ela sorriu pra mim, quando não sorri para quase ninguém. Diz a madrinha qu’ela achou-me engraçada e sem razão, com meus cabelos assim e tão novinha, acrescentou. Voltei uma hora, vou dormir, ler um pouco. Amanhã, trabalhar no meu livro, fazer o possível para suportar sem excessiva inquietação essa semana que vem até ir a Nápoles – Estado de viagem, de espera, de saudade, de projetos, de inquietação e ignorância e ansiedade. Tania, minha irmãzinha, eu te amo. E minha Elisa também. Marciazinha está dormindo agora. M. já deve estar em Nápoles. Quero que ele sinta tanta falta de mim quanto eu dele. Por culpa dele, porque ele sempre arranja um jeito de ler minhas notas, nada posso dizer a seu respeito. No entanto, há bastante. Boa-noite.
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Caderno 22
– Sim, pensou ela vagamente, nós erramos porque temos poder (o nosso próprio poder e não a força divina e não o motivo divino).
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Caderno 23
Fisherman’s Lake, Libéria, 31 de julho de 1944 – 09 horas da manhã / Ah, o corpo, o corpo. Como é difícil arranjar uma posição confortável para ele! / Em Natal, uma noite, (não, acordei no meio ouvindo), uma noite de insônia, ouvi aquela música do ar (já tinha ouvido antes). Tive mesmo medo. É alguma coisa extremamente doce e sem própria melodia, mas feita de sons que poderiam se organizar em melodia. É algo insaciável flutuante mas ininterrupto. Tenho como a certeza de que captei a vibração do ar, que recebi ondas. É bonito, x.









