Caderno 46

Lisboa, dia 8 de agosto de 1944 / Que coisa desagradável, desagradável, desagradável. Ribeiro Couto jantou comigo na casa dele, já pela segunda ou terceira vez. Não vi nada demais nisso, ele me tratava como camarada, e eu até ficava com medo que ele estivesse saindo comigo de má vontade, só por dever de ser delicado. Fez duas poesias sobre mim, e disse que fez muitas outras por causa de mim. Que há muito tempo isso não sucedia. Que ele ia sentir minha falta. Que eu era estranha e curiosa. Mil vezes, a propósito de tudo, me dizia como ele era discreto, como o principal era a reputação. Que o fato de eu ter ido à casa dele, aos olhos dos outros, era como se eu tivesse dormido com ele. Por isso era melhor não dizer a ninguém. E hoje me fez fazer um papel chatíssimo, obrigando-me a fingir que era uma americana, para um amigo dele, “defendendo minha reputação”. Que nojo, que cansaço. Já há dias notava que ele se

Caderno 45

1 – se eu não devo levar comigo o papel da missão da legação francesa me autorizando a viajar na terça-feira. / 2 – o endereço do cônsul americano, o nome dele / 3 – o endereço da companhia onde eu devo comprar / passagem para Argel (telefonar aeroportuguesa perguntando e perguntando também se o avião parte às 11:30h, 11 não é tarde demais para ir.) / 4 – endereço do meu hotel (perguntar aeroportuguesa)

Caderno 44

[retrato de Clarice Lispector assinado por Ribeiro Couto datado de 02 de agosto de 1944]

Caderno 43

doze anos. Só sou mulher nos cabelos. Mas hoje eu não sairei com ele. Tenho medo. Disse que quando ele segurou minha mão e eu disse: que explosão! era como se um menino dissesse ao soldado que acendeu um cigarro: que incêndio. O tolo pensa que eu não sei nada sobre explosão, nem me conhece como me espera.

Caderno 42

Lisboa, 11 [de agosto de 1944] / R.C. acaba de conversar longamente pelo telefone. Gostaria que eu ficasse aqui trinta mil dias esperando pelo avião. Que não é caso para exageros, nem para diminuições, mas que existe, que é uma pedra no caminho. Que, aliás, é de algum modo antigo porque ele desviava o caminho do Flamengo para a rua Silveira Martins, para ver se me via passar. Que desde o momento em que desembarquei e cheguei na embaixada ele tem vivido de um modo todo especial, mágico. Que ele se sentiu orgulhosíssimo de mim quando viu o [ilegível] na festa dele. Que a Natércia e o Gaspar Simões e todos ficaram deslumbrados. Disse que eu não posso entender porque sou mulher e criança: não posso entender como as mulheres são chatas, (vivacidade verbal) um dia está bem, na segunda vez cansam, joiazinhas da Sloper, nenhuma autêntica. Que para ele eu tenho