Caderno 31

e eu sei que na verdade eu a abafo sempre por causa do medo. Tenho medo de perder a liberdade com um filho. E eu preciso nunca me perder. Mas sei que queria ter um filho, um filho de M. sobretudo ou apenas, e terei com certeza.

Caderno 30

um modo mais, digamos, austero e fino de ver as coisas? E no momento em que esse modo austero e fino for um abismo onde se cai com prazer, procurar um novo modo. Para não ofender as coisas. Ser leal com elas. Não enganá-las. Não ver no mar imediatamente o verde, o brilho, as ondas, o poder, a calma. Se não puder ver mais nada, o silêncio será mais simples e mais puro como atitude. Mesmo as melhores pessoas caem no veio de sentir. Ontem no avião experimentei de tal forma o desejo de ter um filho que me senti nova, forte, criada. Durou horas essa sensaçã

Caderno 29

Perto não há nenhuma cidade. Vi alguns negros. Bonitos, limpos (por que estou falando deles como de animais? No entanto, gosto mais deles, de certo modo, do que dos *portugueses com os quais viajo. Os negros são bem negros e não marrons como a Marcinha notou no Brasil.12 – Parece-me que tanto faz estar na Libéria como no Brasil. Não sinto mudança de natureza, não sinto “viagem”! Pois agora uma mania de procurar poesia nas coisas, de se enternecer. (É horrível isto e, no entanto, fácil e atraente. Não existirá

Caderno 9

J’avais perdu l’habitude – je la reprends – d’éxiger plus de moi-même. C’est presque volontairement que je l’avais perdue, et par methode presque estimant qu’il n’est pas bon d’être toujours tendre que le laisser-aller repose et peut, [lui] aussi, nous [instruire]

Caderno 28

Lisboa, 2 de agosto de 1944 / Almoço e jantar com Ribeiro Couto. Tudo bem. E no fim uma sensação de extremo cansaço e aborrecimento, de fim, de fim, de fim. Disse que era difícil me desenhar, tinha alguma coisa que não se pegava e a doçura. Que eu tinha três coisas: ____________: infância, vida profunda e alguma coisa áspera. Disse: animalidade banhada de luar. Queixo saudável. Deus meu me perdoai, me dai real paz.