Olímpico: o último homem será o primeiro

O fato de A hora da estrela ser o último livro publicado em vida de Clarice Lispector bastaria para fazer dele um trabalho com uma importância muito particular. Tal como se disse de Perto do coração selvagem – o primeiro livro da autora – que era “o frasco de essências da obra de Clarice” (Oliveira, p.10), concentrando em germe todo o seu universo, A hora da estrela também “inclui” a totalidade da obra, embora o faça de forma menos “selvagem”, mais estilizada, mais concisa, se se quiser, do que seria de esperar num livro de estreia. (Mesmo tratando-se de uma escritora que, artisticamente, parece ter nascido já madura, como é o caso de Clarice Lispector). A hora da estrela, ao contrário das restantes obras – numa espécie de admissão de que se terá avançado em direcção ao simples, ao definido, ao reconhecível – é até considerada pela autora (e com razão) uma narrativa mais tradicional, mais redonda, uma história que vai contra os seus “hábitos”, ou seja, “com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo” (A hora da estrela, p.13).

O fato de este livro – através dos comentários meta-literários de Rodrigo S.M, seu narrador-autor – obrigar o leitor a assumir uma posição de interlocutor-em-permanente-desequilíbrio, permite-nos vislumbrar Clarice, ainda que sob a forma de silhueta austeramente imersa na sua oficina de sempre, divertindo-se como nunca. O humor perpassa toda a obra e manifesta-se, de modo particular, nas provocações meta do narrador. Narrador que, por exemplo, testa a paciência do leitor com uma introdução que hesita, que avança e recua, que parece não começar ou terminar nunca, como “a chiclete que não acabava nunca”: “Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça.” (A hora da estrela, p.19)

O humor parece também guiar os passos do leitor por um itinerário de “lições” ideológicas que este deve considerar: sobre a vida, a literatura, a construção de personagens e histórias, o gênero do narrador, o gênero em geral, etc. Visto que, como investigador, o que mais me interessa no universo da autora é, de momento, o gênero, é justamente esse retrato irônico dos dois gêneros e da relação entre eles que desejo abordar aqui, sobretudo centrando-me na perspectiva de Olímpico. Como muitos leitores já se terão dado conta, por toda a obra de Clarice se manifesta uma deslumbrada – quase primordial, inaugural, edênica – visão do gênero, da divisão homem-mulher. Nota-se um fascínio assustado de haver no mundo um homem-macho-animal, como lemos por exemplo no conto “O búfalo”, e também nesse outro conto sobre a masculinidade fantásmica e monstruosa que é “O jantar”. Um conto que tem um primeiro esboço importante no seu livro-laboratório de (quase) todos os esboços que é Perto do Coração Selvagem. Ora o que pretendo dizer neste meu texto gira à volta desse gênero que fascina e assusta Clarice. Em A hora da estrela, como sugeri antes, dá-se uma espécie de conclusão de conversa relativamente a temas e obsessões que orientaram (ou desviaram) a autora do seu curto mas intenso caminho nesta vida. Neste breve livro encontramos muitos (ou talvez todos) os topoi clariceanos. Destaco aqui “gênero” naquilo que nele há de manual de regras. Manual (performativo também) de comportamentos e etiqueta, digamos assim, do que é ser homem e do que é (e significa) ser mulher. Quanto a ser mulher, é óbvio para mim que Macabéa se define (tal como muitas personagens de Clarice) pelas regras (muitas vezes sufocantes) do seu gênero; embora a definição, nesse caso, se faça negativamente. Macabéa é “a incompetente para a vida.” (A hora da estrela, p.24). Macabéa é o que nela falha, é o que lhe escapa. Ela é o que não tem e funda-se naquilo que nem sequer tem consciência de desejar, paralisada pela sua enorme inocência: ser uma mulher plena. “Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação.” (A hora da estrela, p.28).

Macabéa, como já entendemos – e o texto procura dizer-nos isso mesmo – é enternecedoramente (e só aparentemente, claro) sub-humana, entre outras razões por ser sub-mulher, ou uma mulher cuja grande falha comove Rodrigo (isto é: Clarice espreitando sobre os seus ombros) manifestando-se num sofrimento (social também) que advém de não ter alcançado as metas de gênero que tão confusamente deseja e sonha. Expectativas que são as de, gradativamente, em crescendo, ter: a) um namorado; b) um marido com uma posição social; c) um marido rico e bonito; d) um namorado-marido alemão conduzindo um Mercedes, etc. Trata-se da aspiração ao cumprimento idealizado do gênero, mas aqui apresentada de forma espetacular e alucinada (o que sugere, justamente, a impossibilidade de se cumprir plenamente essa aspiração) marcando as todo-poderosas e violentas expectativas que, na época, se ofereciam à maioria das mulheres. A maioria das mulheres que habitam os seus romances e contos.

Olímpico – que no seu estatuto de “primeira espécie de namorado de sua vida” (A hora da estrela, p.43) – ocupa o grau zero desta alucinada escala de gênero e, tal como Macabéa, também falha nos seus propósitos de atingir a meta ideal do gênero masculino, ou seja, da masculinidade que ele vê como dominante, hegemônica (embora ele nunca o admita). Mas onde Macabéa falha de forma poética, patética, encantadora, Olímpico falha de forma deplorável, malévola. Rimos com deleite da candura inofensiva de Macabéa, mulher-criança imitando mulher. Mas casquinamos com alarme e ironia da arrogância indecentemente masculina de Olímpico – de quem se diz que se define superlativamente como homem por ter matado outro homem e ter criado com isso um grande segredo que guarda estoicamente: 

… não fora à toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o canivete comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo. Guardava disso segredo absoluto, o que lhe dava a força que um segredo dá. Olímpico era macho de briga. (A hora da estrela, p.57).

Embora Clarice dê e tire, como faz com frequência, e justamente “retire” a Olímpico a inocência que lhe dera na frase anterior, eu escolho sublinhar aqui o seu lado fundamentalmente inocente. Primeiro, diz Clarice de Macabéa e Olímpico: “. . . só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.” (A hora da estrela, p.47). E depois corrige: “Não, menti . . . ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais vida do que ela que não tinha anjo de guarda.” (A hora da estrela, p.47). Esta inocência vingativa e maldosa (prefiro concentrar-me aqui no Olímpico-inocente) lembra uma das derradeiras frases de A maçã no escuro: “Porque afinal não somos tão culpados, somos mais estúpidos que culpados” (A maçã no escuro, p.334). Tanto Macabéa como Olímpico não saberão o que fazem – de mal ou bem – sendo por isso, espero, dignos do perdão do Deus amoroso. O que me fascina é estarem, neste sentido (mas não noutros) no mesmo nível e constituírem assim um par perfeito no desequilíbrio, no trauma, na tragédia do gênero. Ambos são cúmplices na sua inocência, autômatos reprodutores de dois modelos de gênero destrutivos, patéticos, fracassados. Aliás, tão “iguais” são que “Pareciam por demais irmãos, coisa que – só agora estou percebendo – não dá para casar”. (A hora da estrela, p.47). São, portanto, o reflexo um do outro no espelho distorcido do gênero; mas não deixam de estar frente a um espelho. Um pouco como os “pré-namorados” do conhecido conto “A Mensagem”: ambos os jovens desejam ser escritores, são ambos inocentes, mas cada vez mais ridículos à medida que aprendem a ser homem e mulher. O que torna a situação mais desesperada em A hora da estrela é que – além do mundo literário – ela remete para muitos Olímpicos julgando-se superiores a muitas Macabéas (e ao resto do mundo) sem perceberem que são iguais a elas. Sem esquecer as muitas Macabéas que se julgam inferiores a muitos Olímpicos (e ao resto do mundo) sem suspeitarem que são ou deviam ser iguais (ou superiores) a tantos outros.

Voltando ao que disse sobre os tropos, que são de alguma forma os arquétipos do universo clariceano, Olímpico concentra o mais arrogante e violento do homem, referenciado em inúmeros pontos da obra e assumindo diferentes formas. 

Olímpico define-se por um catálogo de atributos masculinos, que passarei a ilustrar. Para começar, é infiel. Um dos pontos mais importantes para a interpretação geral da história, na minha opinião, é o fato de Olímpico abandonar Macabéa e de a trocar pela sua melhor (ini)amiga. A relação deles é aquela que nunca poderia ter sido e que desesperadamente Macabéa deseja por confusa inocência ou apatia, não se sabe bem. Ou pelo simples impulso cego da felicidade animal, de tender a ser feliz sem pensar: 

Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas (A hora da estrela, p.69).

A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, ela achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era. (A hora da estrela, p.27)

Talvez pelo que acabei de dizer, em Macabéa a tristeza confunde-se com a alegria, o desespero com a esperança, o amor com o desamor. O que há de estranho e repelente em Olímpico é o gosto pela carne, pela lâmina que a corta, pelo sangue, que já se manifestava no homem-monstro do conto “O Jantar”, aquele que come com a urgência e a voracidade das feras. 

Uma coisa que tinha vontade de ser era toureiro. Uma vez fora ao cinema e estremecera da cabeça aos pés quando vira a capa vermelha. Não tinha pena do touro. Gostava era de ver sangue.  (A hora da estrela, p.46).

Macabéa também gosta de carne. Mas gosta sobretudo do seu cheiro – tal como Clarice aprecia galinha ao molho pardo apesar de ter pena das galinhas, porque “os pequenos sacrifícios impedem os grandes”—, sendo o sangue algo que ela rejeita porque lhe provoca o vômito, marcando a vertigem da morte que ela rejeita; sem nos esquecermos que ao ser atropelada, e depois de uma vida a evitar o vômito (para não desperdiçar a comida) ela justamente vomita o seu próprio sangue à beira da estrada. 

Para ela o cheiro da carne crua era um perfume que a levitava toda como se tivesse comido. Quanto a ele, o que queria ver era o açougueiro e sua faca amolada. Tinha inveja do açougueiro e também queria ser. Meter a faca na carne o excitava. (A hora da estrela, p.53).

Olímpico é a óbvia caricatura do homem que, sendo tão ou mais ínfimo do que a mulher, vê-se a si mesmo, nos seus delírios de grandeza, como uma figura muito superior não só a ela mas a tudo. Uma figura para a qual não há limites de fama ou glória. Afirma na terceira pessoa e no seu tom ameaçador: “No sertão da Paraíba não há quem não saiba quem é Olímpico. E um dia o mundo todo vai saber de mim”. (A hora da estrela, p.49).  

Nesta linha da grandiosidade masculina – que parece ridícula quando assim apresentada – mas que é parte do horizonte de aspirações (impossíveis de cumprir plenamente, frise-se) de todos os homens (o herói, o líder, o vencedor, o triunfador solitário, o self-made man etc.), assistimos a outros exageros de ambição e vaidade de Olímpico-todos-os-homens. 

A masculinidade é uma promulgação homossocial. Testamo-nos a nós mesmos, cometemos feitos heróicos, corremos riscos enormes, tudo porque queremos que outros homens aprovem a nossa masculinidade. A masculinidade como promulgação homossocial está minada de perigos, de risco de falhar, e com uma competição implacável. (KIMMEL, 1994: p.129). 1

Estes seus delírios de triunfo e heroicidade impossível contra tudo e todos assumem em Olímpico a forma de ameaças, como tinha sugerido. Em primeiro lugar, ele ameaça que vai ser rico: “[…] um dia vou ser muito rico, disse que tinha uma grandeza demoníaca: sua força sangrava.” (A hora da estrela, p.46). Sabemos que é homofóbico porque – ao responder a Macabéa quando esta lhe pergunta o que é “élgebra” – pontifica “Saber disso é coisa de fresco, de homem que vira mulher.” (A hora da estrela, p.50).

Quanto à vaidade, sabe-se que Olímpico, no consultório de um dentista da Paraíba, substituíra um perfeito canino por um dente de ouro porque “este dente lhe dava posição na vida.” (A hora da estrela, p.46). Naturalmente, Olímpico se achava muito inteligente e não só sonhava ser deputado como – revela o próprio Rodrigo S.M, ou seja, Clarice – chegará um dia a ser deputado. Adorando ouvir discursos, Olímpico dizia-se a si mesmo, alto e sozinho: 

– Sou muito inteligente, ainda vou ser deputado.

E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o tom cantado e o palavreado seboso, próprio para quem abre a boca e fala pedindo e ordenando os direitos do homem. No futuro, que eu não digo nesta história, não é que ele terminou mesmo deputado? E obrigando os outros a chamarem-no de doutor. (A hora da estrela, p.46).

Tragicamente – e como poderia não ser assim numa tragicomédia como esta? – Macabéa “[…] achava Olímpico muito sabedor das coisas. Ele dizia o que ela nunca tinha ouvido.” (A hora da estrela, p.52). Tragicamente, também, há grande desigualdade na forma como ambos navegam as urgências e contingências de cumprir mandatos e modelos de gênero. Olímpico, apesar de tudo, tem a vantagem de ser (ou poder parecer, naquela sociedade e época) mais seguro de si mesmo. É que “Macabéa era na verdade uma figura medieval enquanto Olímpico de Jesus se julgava peça-chave, dessas que abrem qualquer porta.” (A hora da estrela, p.47). O gênero, de fato, não é justo, e ninguém aqui disse que o era. A “igualdade” da inadequação perante um sistema patriarcal ditatorial e impiedoso é, de fato, “desigual”: “[…] Olímpico era um diabo premiado e vital e dele nasceriam filhos, ele tinha o precioso sêmen. E como já foi dito ou não foi dito Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo cozido.” (A hora da estrela, p.58). Sistema desigual, de fato, para homens e mulheres, para Macabéa e Olímpico, embora não nos esqueçamos que, na sua enorme sabedoria, sensibilidade e humanidade, Clarice reconhece que Olímpico não deixa de ser (até como homem, arriscaria eu) “uma vítima geral do mundo”. (A hora da estrela, p.47). Somos, com efeito, mais estúpidos do que culpados. Por seguirmos e termos seguido há séculos – tão tolamente – uma cartilha de gênero tão culpada quanto estúpida. E sim. Que Deus nos perdoe. Que tenha piedade de nós. 

Clarice teve.

Fotografia

Thomaz Farkas. Filmagens de Viramundo, 1964. Acervo Thomaz Farkas/ Instituto Moreira Salles

Nota

Eis o original em inglês: Masculinity is a homosocial enactment. We test ourselves, perform heroic feats, take enormous risks, all because we want other men to grant us our manhood. Masculinity as a homosocial enactment is fraught with danger, with the risk of failure, and with intense relentless competition. (Kimmel 1994: 129)

Bibiografia

Oliveira, Rosiska Darcy de. “Perto de Clarice”. In Clarice Lispector. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1992. 5-10.

Kimmel, Michael. The Gendered Society. New York and Oxford: Oxford UP. 2004.

Lispector, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco. 1998. 

_________. ”A mensagem”. Todos os Contos. Lisboa: Relógio d’Água. 2016.

_________. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco. 1977.

_________. “O jantar”. Todos os Contos. Lisboa: Relógio d’Água. 2016.

_________. “O búfalo”. Todos os Contos. Lisboa: Relógio d’Água. 2016.

_________. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1992. 5-10.

Sobre o autor

António Ladeira, nascido em Portugal, é actualmente Professor Associado de Literaturas Lusófonas na Texas Tech University. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa e doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas pela Universidade da California em Santa Barbara. Também nos EUA, foi professor no Middlebury College e na Yale University. Como Bolseiro da Fulbright (EUA) foi pesquisador na USP com um projeto sobre Clarice Lispector, autora sobre a qual publicou artigos e prepara alguns trabalhos de maior fôlego sobre as questões da masculinidade e do género.  Poeta e ficcionista, tem trabalhos editados em Portugal, na Colombia e no Brasil.