, Conversa com José Castello. IMS Clarice Lispector, 2018. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2018/05/02/conversa-com-jose-castello/. Acesso em: 27 maio 2026.
O crítico José Castello vai ministrar novas aulas do Grupo Clarice, dedicado à leitura e estudos da obra de Clarice Lispector. Entre os romances discutidos estão Água Viva e A paixão segundo G.H., além dos textos recentemente reunidos na edição Todos os contos e das crônicas que compõem o livro A descoberta do mundo. Os próximos encontros acontecem nos dias 11 e 12 de maio e 20 e 21 de julho no Instituto Estação das Letras (IEL). Segue abaixo uma breve conversa por email com José Castello:
Que tipo de público é atraído pelos textos de Clarice?
O que mais me impressiona nos grupos de Clarice é o predomínio, quase absoluto, dos leitores leigos. Claro, escritores e professores de literatura também costumam participar. Mas a maioria dos alunos é de advogados, psicólogos, jornalistas, médicos, psicanalistas etc. Já tive em meus grupos até a participação de físicos, astrônomos, bailarinos, arquitetos e matemáticos. O que isso quer dizer? Embora tenha sido uma mulher muito culta, Clarice trabalha em seus livros, sobretudo, com a existência. Ela mesma não gostava de ser chamada de escritora, considerava-se apenas uma mulher comum. Essa intensa disponibilidade para a vida e para o real aparece com muita força em seus escritos. E atrai todo tipo de leitores.
Como você vê a recepção da obra de Clarice no Brasil e o recente sucesso da escritora nos Estados Unidos e Europa?
Creio que ainda temos no Brasil, em geral, uma visão bastante deformada da obra e da figura de Clarice. Pelos preconceitos (por ela ter sido uma mulher muito bonita, que talvez devesse estar na televisão, ou nos salões de beleza, e não na literatura), pela preguiça intelectual (muitos nem chegam a lê-la para valer e logo fecham uma imagem rápida a seu respeito), até mesmo por um certo desprezo que a literatura brasileira ainda sofre por parte dos próprios leitores brasileiros. Alguns simplesmente dizem que Clarice não fez literatura, mas filosofia, ou foi apenas uma autora de aforismos, costurados apressadamente, ou até que foi uma bruxa, e não uma escritora. Há mesmo quem a veja como uma simples autora de frases de efeito e pensamentos genéricos, à moda de uma Madame de Sévigné. Mas Clarice não é só uma escritora, é uma escritora incomum. Penso que ela está no mesmo nível de um Kafka, ou de um Pessoa. Agora, que o mercado de traduções se expandiu, é natural que o mundo a descubra. Ainda lentamente, olhando-a muitas vezes com grande suspeita ou desconfiança, mas a descubra.
O que mais o seduz na obra da escritora?
A mim, em particular, emociona sua imensa coragem. Clarice escreve exatamente o que pensa. Por isso, muitas vezes, seus escritos assustam: porque eles nos trazem uma visão frontal e sem enfeites ou ornamentos da realidade. A leitura de Clarice – se a lemos para valer, sem preconceitos e sem defesas – sempre nos abala. Quando li pela primeira vez, aos 18 anos, A paixão segundo GH, simplesmente adoeci. Tive uma febre muito alta e uma fraqueza imensa, que nenhum exame médico conseguia explicar. Um dia, um velho médico da família, depois de me examinar, declarou: “Isso é apenas uma paixonite”. Que grande crítico literário foi esse médico! Mesmo sem saber disso, ele simplesmente leu A Paixão segundo GH em meu corpo.
Qual é a atualidade de Clarice?
Vivemos tempos duros e dogmáticos. O tempo das crenças e das convicções, dominado pelo pragmatismo e pela idéia dos resultados práticos. Clarice caminha na contramão de tudo isso. Tinha um espírito libertário, não se prendia a nada, e não aceitava que nada a prendesse. Foi ainda uma mulher muito tocada pelos problemas concretos de seu tempo. A devastação provocada pela fome, por exemplo, aparece em muitos de seus escritos. Para os que ainda insistem em vê-la como uma mulher frívola, uma dondoca – e quanta gente ainda pensa assim! –, basta lembrar, por exemplo, que, em 1968, Clarice estava na primeira fila da histórica Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. A vida e o presente são seus grandes temas. Por isso, eu penso, sua literatura nos atrai tanto.
Foto: Miller of Washington/ Arquivo Clarice Lispector/ IMS
Ver também
por Marina Colasanti
O dia em que conheci Clarice não foi o mesmo em que ela me conheceu. Eu, toda adoração, observando-a, ela, sem motivo algum para pousar o olhar em mim. Saindo juntos da redação do Jornal do Brasil, o jornalista Yllen Kerr, grande amigo meu, disse que estava indo visitar Clarice e perguntou se eu queria ir. Queria muito, muitíssimo!
por Matildes Demetrio dos Santos
Além de confirmar o valor do gênero biográfico como meio privilegiado de atender às reivindicações de um público curioso sobre o passado de personalidades famosas, Teresa Montero desafia as convenções do gênero, ao reconstituir a vida familiar, as experiências pessoais, as amizades e o processo de criação de Clarice Lispector, uma autora que, com todas as suas forças, fez existir a sua vocação para a literatura como fatalidade e salvação.
por Bruno Cosentino
A ligação de Clarice com a política não se dá na superfície da vida pública, tampouco nos textos que abordam diretamente a questão. Isso se deve a uma compreensão da escritora sobre a fratura entre arte e política, abordada em dois textos irmãos, “Literatura e justiça” e “O que eu queria ter sido”, nos quais constata com lucidez desconcertante a inutilidade de sua literatura como instrumento político.
por Equipe IMS
O Brazil LAB é uma iniciativa interdisciplinar da Universidade de Princeton que considera o Brasil um nexo crucial para entendermos as questões mais prementes da atualidade. Sediado no PIIRS (Instituto de Estudos Internacionais e Regionais de Princeton), o LAB reúne professores(as), pesquisadores(as) e estudantes de mais de 20 diferentes departamentos da universidade (das ciências sociais às naturais, das engenharias às artes e humanidades) em interação com dezenas de pesquisadores(as) de instituições acadêmicas de excelência.
por Eucanaã Ferraz
As crônicas de Clarice Lispector foram reunidas em livro pela primeira vez em 1984, em A descoberta do mundo, volume organizado por Paulo Gurgel Valente, filho da autora, que alinhou em ordem cronológica 468 textos publicados no Jornal do Brasil entre os anos 1967 e 1973. Li e reli aquelas quase oitocentas páginas muitas vezes...
por Victor Heringer
Nesta edição da “Hora de Clarice”, o IMS Paulista foi palco de uma conversa com Idra Novey, mediada pelo poeta e editor Alberto Martins.