À procura de Clarice Lispector: o desafio biográfico de Teresa Montero

1. O propósito, o percurso

“Escrever rouba o tempo de mim e dá muitas vantagens.”

Leonor Arfuch.

Além de confirmar o valor do gênero biográfico como meio privilegiado de atender às reivindicações de um público curioso sobre o passado de personalidades famosas, Teresa Montero desafia as convenções do gênero, ao reconstituir a vida familiar, as experiências pessoais, as amizades e o processo de criação de Clarice Lispector, uma autora que, com todas as suas forças, fez existir a sua vocação para a literatura como fatalidade e salvação. Parte da sua correspondência pessoal gira em torno da luta que manteve contra si mesma para chegar a um resultado que considerasse literariamente satisfatório. A forma como não cedia à fadiga em meio à atividade de um pensamento intranquilo e paradoxal: “Não escrevi uma linha, o que me perturba o repouso. Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor” (LISPECTOR, 2007, p. 23).  

No desejo de preservar a virulência de uma memória que não logra guardar distância,  Teresa Montero permanece perto de Clarice Lispector. Na sua atividade memorativa, volta sempre a ela. A primeira apropriação pessoal resultou em Eu sou uma pergunta, uma reconstrução conscienciosa sobre a vida e a obra da escritora. A biografia de 1999 não só oferecia a ilusão de intimidade com a vida criada no artifício da escrita, mas também levava ao conhecimento do leitor dados biográficos em benefício da própria romancista: “Naquela época, não existia uma biografia da autora. As publicações que traçaram seu itinerário eram raríssimas” (MONTERO, 2021, p. 11). 

Pela importância de uma pesquisa em favor da autenticidade e o desejo de preservar o acervo representativo de Clarice Lispector, muitos outros livros vieram. A tarefa é hercúlea e, muitas vezes, é difícil escapar da força sugestiva dessa memória. É o caso de O Rio de Clarice – passeio afetivo pela cidade (2018), onde recria o roteiro turístico preferido pela personalidade biografada. Fruto de sensibilidade tocante, o trabalho de Teresa transcreve uma paisagem na qual Clarice se inscreve e pode ser contada no próprio espaço de exibição: 

A criação do “Espaço Clarice Lispector” no Jardim Botânico e a estátua de Clarice Lispector e seu cão Ulisses no Leme, esculpidas por Edgar Duvivier, são frutos desse projeto com a participação de seus leitores, sinais da presença da escritora na cidade que a acolheu durante vinte e oito anos (MONTERO, 2021, p. 20).

Contudo, uma personalidade tão sedutora quanto a de Clarice não se encerra assim tão facilmente e, sem medo de imaginar mais uma biografia sobre a artista, Teresa Montero publicou em 2021, À procura da própria coisa, uma enunciação na qual se reconhece a presença apaixonada, embora comedida da pesquisadora ao apropriar-se de segredos íntimos da biografada, saber de suas amizades e sua visão de mundo, reconhecer sua solidão, surpreender seu processo de criação.  

A escolha do título principal é homenagem e lembrança da biografada, pois é ela que fala no título, e é sobre ela que versa a obra. Teresa reaproveita a afirmação de Clarice, retirada de “Aproximação gradativa”, texto curto, publicado na revista Senhor, em novembro de 1962,  para servir à imaginação do leitor, reconhecendo nele a metáfora viva do processo histórico de criação da escritora: “Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa” (LISPECTOR, 2018, p. 594). 

O título é, portanto, um estímulo a examinar mais de perto aquilo que se propõe como enigma. No entanto, a recordação não é apenas uma questão de conservação ou de reconstituição do que passou ou foi perdido, mas também uma força contra o desejo de esquecimento e recalque. Na “Apresentação”, a biógrafa revela que o trabalho de rememorar Clarice Lispector veio em meio à problemática de perder o cargo de professora universitária às portas da aposentadoria, um choque violento interposto ao sofrimento de ver a pandemia da  Covid-19 espalhar-se pelo mundo e chegar ao Brasil, deixando um rastro de mortes pelo caminho.

É em meio a essa crise que se tornou obrigatório reagir e lutar para a consignação de uma memória de longa duração, que tenha significado e valor no presente e seja referência normativa para o futuro. O livro de Teresa Montero reage com força revolucionária no contexto de um tempo conturbado. Recurso que tem o objetivo de interpor-se às injustiças e leviandades da história: “Portanto, o espírito que contagia esse volume é o da crença na solidariedade e na paz. A vida e a obra de Clarice Lispector são portadoras desses valores” (MONTERO, 2021: 23).

Avancemos na leitura… 

2. A narrativa plural, as vozes  

“Meu saber acumulado é que faz o rosto dele brilhar na folha de papel.”

Silviano Santiago.

No mecanismo de ida e volta, típico do método de investigação biográfica, histórias curtas, relatos intimistas, dedicatórias, fragmentos de jornal e revista, cartas, fotos, entrevistas, registros audiovisuais são encontros fortuitos e promissores. É, exatamente, a descoberta de lembranças sobre a vida, a subjetividade e os artifícios de criação de Clarice Lispector que facultou a palavra de onde nasceu À procura da própria coisa

Do início ao fim, nas quatro partes que constituem a obra, o repertório de conhecimento sobre a biografada inclui tanto a memória cultural, guardada nos arquivos públicos e particulares, quanto a memória comunicativa, perpetuada nas recordações transmitidas oralmente por meio do relato de amigos e familiares. No capítulo inicial, “A primeira entrevista para a TVE”, a lembrança pessoal e corpórea de Clarice aparece no audiovisual. Paradoxalmente, é ela, imagem que se torna mais viva do que se poderia imaginar. Como aponta Teresa, trata-se da presença da autora em Os Mágicos, da TV Educativa (atual TV Brasil), programa idealizado por Araken Távora (MONTERO, 2021, p. 39). 

O “acontecimento que o diálogo em suas inúmeras acentuações seria capaz de restituir” (ARFUCH, 2010, p. 242) tem o mérito de vir acompanhado de reflexões críticas, escritas com uma linguagem clara e abundância de provas, que se abrem a novas interpretações. Se a imagem é em si mesma um amálgama de representações simbólicas sobre a persona em cena, o evento, por sua vez, estende-se para muito além de seus limites: material cinematográfico, arquivo público, vozes do passado.

Os temas são tão instigantes quanto reveladores. Não é por acaso que a pesquisadora chega até o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro e o Arquivo Nacional para escavar as marcas de Clarice Lispector no território da polícia autoritária do governo de Eurico Gaspar Dutra em 1950, e depois no rastro do regime ditatorial que se estabeleceu no poder com o golpe de 1964. 

A voz de Clarice torna-se audível, perseguidores surgem do local da recordação, as “fichas verdes”, que comprovam a ação da Delegacia Especial de Segurança Pública e Social (DESPS/DPS – 1950) contra a pessoa da escritora, revelam o teor persecutório. Com cuidado, a biógrafa move o que há de mais distante e vem até o mais próximo para provar que Clarice não deixou de ser acossada pela incredulidade fanática dos radicais de direita, que agiam no principal órgão de Inteligência da Ditadura Militar, o SNI. Lá, encontram-se documentos sobre “Clarice Gurgel Valente/Clarice Lispector e suas participações em eventos considerados subversivos” (MONTERO, 2021,  56).

Na situação, a lembrança individual de Clarice Lispector se vê afetada pelo contato com figuras do passado, criando uma cadeia de parentesco entre os falecidos. De repente, o que estava distante mostra-se sob outro prisma. Na época, Ferreira Gullar –  autor de Poema sujo (1976) –, recém chegado do exílio, concedeu à escritora uma entrevista, que foi publicada na revista Fatos & Fotos. A iniciativa da conversa coube à entrevistadora, que não escondeu a sua admiração pela originalidade do estilo e visão de mundo do poeta engajado. Além dos elogios, teve a coragem de declarar-se contra as engrenagens políticas que fomentavam a desigualdade e a injustiça entre os mais pobres. Assim, a uma observação de Gullar sobre a população que andava de ônibus no Rio de Janeiro, a entrevistadora completou: “O mesmo eu senti na Colômbia, Gullar, onde havia multimilionários e o resto era completamente abandonado por todos, inclusive pelo governo. Lá, a miséria é maior do que no Brasil, porque com o frio, tudo piora” (MONTERO, 2021, p. 68).      

Saindo da situação de “peça de museu”, atitudes, ações e comportamentos adquirem atualidade e estão sujeitos a novas interpretações. O regime totalitário de 1964-1970 implodia com a capacidade humana de apreender e pensar livremente e, dentro desse contexto, a artista estava longe de ter uma unanimidade positiva em torno de seu nome. Ela sofria com a opinião dos radicais de esquerda, que a julgavam mal definida e alienada politicamente. Para se sobrepor a essa ideia preconceituosa, Teresa traz o episódio Henfil versus Clarice. Na ocasião, o cartunista de O Pasquim enterrou a romancista no Cemitério dos Mortos-Vivos, sob a acusação de que vivia “dentro de uma redoma de Pequeno Príncipe, para ficar num mundo de flores e passarinhos, enquanto Cristo está sendo pregado na cruz” (MONTERO, 2021, p. 71).

A acusação causa revolta, porém a maneira toda única com que Clarice atravessou a crise e reagiu ao insulto acrescenta outra dimensão ao fato vivido. Não desmentiu nem o procurou para tomar satisfações, mas quando a interpelaram sobre a ocorrência, respondeu com incontida e perspicaz ironia: “Se eu me encontrasse com ele a única coisa que eu diria é: Olha, quando você escrever sobre mim, Clarice, não é com dois esses, é com c, viu? Só isso que eu diria a ele. Mais nada” (idem, p. 72).  

Como o local da recordação entretece presente e passado, presença e ausência (ASSMANN, 2016, p. 360), a biógrafa reconstitui o incidente e busca uma justificativa que reabilite o jornalista diante do leitor. Com convicção, lembra que Henfil era um daqueles brasileiros traumatizados, que não se conformavam com os que julgava colaboradores ou simpatizantes com o regime: Betinho, irmão do cartunista, estava exilado no Chile desde 1971, e ele temia que fosse morto de uma hora para outra.  

A preocupação pelo estudo da singularidade e a atenção dada aos fenômenos emergentes ajudam a pensar sobre o lembrado como um enunciado complexo e singular, ligado a um tempo e a um espaço. A biógrafa, na sua incansável peregrinação pelos arquivos à procura de documentos e  testemunhas, envolve-se com a identidade biografada e a pluralidade torna-se palavra de ordem. Na obra, o caráter excepcional da personalidade de Clarice fragmenta-se em múltiplos eus e está sempre às voltas com novas mutações.

No “Itinerário de uma mulher escritora” (páginas 39 a 109), em 22 e 26 de junho de 1968, em plena luta contra os atos antidemocráticos da ditadura militar, ela aparece em dois momentos, ao lado de Carlos Scliar, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Milton Nascimento, Paulo Autran, Odete Lara,Tônia Carreiro, Dias Gomes. Nas crônicas redigidas para o Jornal do Brasil ela é a mulher sensível que traduz em palavras o sentimento de desencanto que contava um compositor como Chico Buarque de Hollanda. Na coluna de 4 de fevereiro de 1968 fica claro o pensamento da narradora de que o silêncio imposto pela repressão fazia com que muitos artistas perdessem a voz e ficassem muito tristes. A observação equivale a uma constatação: “Chico é lindo e é tímido, e é triste. Ah, como eu gostaria de dizer-lhe alguma coisa – o quê? que diminuísse a sua tristeza” (LISPECTOR, 2018, p. 73).   

Há muitas Clarices na narrativa biográfica de Teresa Montero. Um descobrimento leva a outro e dá a impressão de que a identidade da escritora é infinita e há sempre algo novo a conhecer. Ao penetrar no arquivo privado de Clarice Lispector, a biógrafa não só ocupa lugar  entre os familiares da autora, como do emaranhado daquelas vidas faz emergir figuras de certo modo esquecidas ou recalcadas.  Dentre os guardados, ela tem a grata satisfação de encontrar Retratos antigos (2012) e No exílio (1948), livros escritos por Elisa Lispector. A competência literária e a postura testemunhal da irmã mais velha explicam minúcias cotidianas da ascendência dos Lispectors até então silenciadas. Teresa percebe no esforço de recordação de Elisa um suporte terapêutico para os seus antepassados, incluindo também todos os outros sobreviventes de igual origem:

A principal guardiã da memória da família fez da ficção literária o seu modo de estar no mundo e um instrumento para deixar um testemunho sobre os antepassados de origem judaica, nascidos em solo ucraniano, de nacionalidade russa, que encontraram no Brasil a possibilidade de reconstruírem suas vidas (MONTERO, 2021, p. 131).

A infância de Clarice é assim concebida com a ajuda do que Elisa viu, meditou e recuperou na qualidade de mediadora das vozes silenciadas. Por conseguinte, Marian, ou Márim, como era chamada carinhosamente pelos membros da casa, e Pedro aparecem na narrativa. A mãe, com o sofrimento que se abateu sobre ela, é o fantasma da dor que pairou sobre os seus; o pai foi o mentor que influenciou as filhas com o seu gosto pela literatura, pela música e pela cultura judaica. Elisa nasceu para a literatura por um desejo do pai. A ele, dedica Além da fronteira (1945), o seu primeiro romance. No repertório de vida das três filhas, a música está sempre presente. Clarice dizia que “tomou gosto pela leitura de tanto ouvir seu pai dizer que os livros guardavam histórias maravilhosas, que quem lia acabava sendo uma pessoa melhor” (MONTERO, 2021, p. 176). 

Também não falta um elemento de prazer na reconstrução desse passado – atitude lúdica da biógrafa, que se delicia ao tomar assento na mesa da família. Diz que Tania Kaufmann gostava de galinha assada e batata amassada com banha de galinha frita. Nas festas, os salgados e os doces escolhidos prolongavam os momentos felizes. Até vislumbra uma ilusão imediata ao  ligar os pratos preferidos por Clarice às receitas de culinária que a autora sugeria nas colunas femininas dos jornais, onde colaborava sob o pseudônimo de Tereza Quadros, no Comício, Helen Palmer, no Correio da Manhã, e Ilka Soares, no Diário da Noite. 

Como foi constituído, o painel doméstico é divertido e termina com a nota de um autor anônimo, que fala sobre a essência feminina da biografada em tom leve e descontraído, contribuindo para oferecer mais um perfil à galeria de eus da escritora: “Clarice Lispector, mulher cheia de talento, romancista de primeira água, toda charme e simpatia, segredou-me suas preferências culinárias em informal e agradável bate-papo em nosso Petit-Club” (MONTERO, 2021, p. 169).

Nesse anseio de dar vida à “inalcançável” personalidade de Clarice, o olhar empenhado em investigar com minúcias chega ao álbum de fotografias, com seus retratos congelados. No intercâmbio imaginário com as imagens, ela prefere as poses, que contam uma história e marcam fases daquela existência. A vida assim individualizada dá a sensação de posse, desperta emoções e tem o estranho poder de trazer o ausente para perto, riqueza de imagens que se oferecem à imaginação. Há tantos anos atrás, o que estava acontecendo com Clarice para se deixar fotografar daquele jeito?

Nos arranjos variáveis dos capítulos finais, tudo que está enraizado no cotidiano fascina a biógrafa. Sob a forma de um diário disfarçado, acontecimentos importantes ou insignificantes, encontros, passeios, palestras, pensamentos, pessoas, livros em gestação, e os já publicados,  surgem de surpresa, com indicação de local, às vezes de data. As anotações dão a falsa impressão de que foram redigidas com rapidez, quando, na verdade, são desvios que articulam fatos vividos e literatura. O “espaço biográfico” (Leonor Arfuch) propõe ao mesmo tempo o local, o tempo e a ação da biografada: “Enquanto ela escrevia as últimas linhas de Cidade sitiada, a natureza avisava que chegara a hora da criança nascer” (MONTERO, 2021, p. 577).  

Dessa forma, na ambição de criar um “efeito do vivido” (François Dosse), Teresa Montero convida o leitor a retornar às fontes primárias, a verificar-lhes a autenticidade, a juntar diversos fatos complementares e procurar compreender o sentido próprio de cada documento histórico. E ao optar pela descontinuidade e multiplicidade de vozes faz com que a vida de Clarice Lispector, suas convicções e suas lutas sejam apreendidas não como verdade ou síntese absolutas, mas como uma história de vida aberta a novas interpretações. 

Referências bibliográficas

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: Dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Paloma Vidal. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2010. 

ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação Formas e transformações da memória cultural. Trad. Paulo Soethe. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011.

DOSSE, François. O desafio biográfico Escrever uma vida. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Edusp, 2009.

GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais. Trad. Álvaro Faleiros. São Paulo: Ateliê editorial, 2009.

LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Notas Teresa Montero. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

_________________.  Todas as crônicas. Org. e Posfácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

MONTERO, Teresa. À procura da própria coisa Uma biografia de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 2021.
SANTIAGO, Silviano. Mil rosas roubadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.