Em 1970, Clarice Lispector começou a escrever a obra que viria a ser chamada de Água viva. De acordo com Nádia Gotlib na “Memória seletiva” publicada no número especial dos Cadernos de Literatura Brasileira sobre Clarice:
Incorporando notas antigas, começa a trabalhar em um novo romance intitulado Atrás do pensamento: monólogo com a vida. O livro, que em fase posterior seria chamado Objeto gritante, por fim se definiria como Água viva e sairia sob o amplo gênero “ficção”, diante do entendimento da própria autora de que ultrapassara as classificações convencionais da narrativa literária.
Capa da 1ª edição de Água viva, publicado em 1973 pela Artenova. Biblioteca Ana Cristina César / Acervo IMS
A professora Clarisse Fukelman faz uma análise de Água viva e diz que, nessa obra, a autora “radicaliza processos inovadores de escrita que já experimentara em publicações anteriores” e desenvolve um livro em que “não há história linear nem tema central”.
Água viva foi publicado no final de agosto de 1973 pela editora Artenova. Reproduz-se a seguir um trecho manuscrito da obra sob a guarda do Instituto Moreira Salles, seguido de sua transcrição.
Trecho manuscrito do livro Água viva, de Clarice Lispector. Arquivo Clarice Lispector / Acervo IMS
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
[...] por toda a obra de Clarice se manifesta uma deslumbrada – quase primordial, inaugural, edênica – visão do gênero, da divisão homem-mulher. Nota-se um fascínio assustado de haver no mundo um homem-macho-animal, como lemos por exemplo no conto “O búfalo”, e também nesse outro conto sobre a masculinidade fantásmica e monstruosa que é “O jantar”.
Escrita nos anos 1950, durante o período em que morou em Washington, O mistério do coelho pensante foi a primeira obra destinada a crianças escrita por Clarice Lispector
A ligação de Clarice com a política não se dá na superfície da vida pública, tampouco nos textos que abordam diretamente a questão. Isso se deve a uma compreensão da escritora sobre a fratura entre arte e política, abordada em dois textos irmãos, “Literatura e justiça” e “O que eu queria ter sido”, nos quais constata com lucidez desconcertante a inutilidade de sua literatura como instrumento político.
É final de 1943. Sai por uma editora de parca relevância cultural, A Noite, o inusitado Perto do coração selvagem, livro de uma autora de 22 anos incompletos, ex-funcionária da casa.
Michel de Certeau, em sua La fable mystique, aborda um aspecto importante na relação entre idiotice e santidade nos primeiros séculos, em particular, na literatura cristã, a saber: um modo de isolamento na multidão. A idiotice, sob forma da loucura, vai para a multidão e, mais do que isso, se instaura como provocação, transgressão do campo dos “bem-pensantes”.