Compacta prosa, lances poéticos

1.

Um dos mais respeitados jornalistas esportivos brasileiros, com passagens pelo Diário Carioca, O Cruzeiro, Manchete e Jornal do Brasil – neste último manteve a coluna “Na grande área” todos os dias por mais de uma década –, Armando Nogueira cobriu, desde 1954, cada Copa do Mundo, 7 Olimpíadas e celebrou bodas de prata no telejornalismo da Rede Globo. Desde os 17 anos, falava, escrevia e comentava com conhecimento de causa sobre futebol – esse fascínio nacional.

Frase de Armando Nogueira publicada em 3 de março de 1968, no Correio da Manhã / Arquivo Hemeroteca Nacional.

2.

Clarice Lispector, dotada de uma “ignorância apaixonada” também pelo Botafogo, escrevia sempre aos sábados no JB, mesmo periódico que Armando, e topou o desafio do colega.

Em 30 de março daquele ano, o leitor do caderno B do Jornal do Brasil leria, então, “Armando Nogueira, o futebol e eu, coitada”, texto de uma Clarice não tão evidente.

3.

Futebol é a narrativa mais parecida com a arte, especialmente com a literatura, segundo José Miguel Wisnik. Nelson Rodrigues reafirma: a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Pasolini observa que o futebol, e todo o aparato que o compõe, pode ser jogado em diversos estilos tais como gêneros literários.

Todo início de campeonato se configura como uma espécie de viagem aventurosa em que a margem de acaso é bastante larga e imprevisível. Há um esforço que mobiliza tanto os onze em campo, quanto a comissão técnica e milhares de torcedores com um fim claro: alcançar a Ítaca coletiva, a vitória, o título. Esse aspecto corresponderia a um evidente caráter épico do futebol.

Quando o conflito em campo entre dois clubes atinge uma tensão extrema ligada a, por exemplo, um jogo decisivo muito próximo do fim e todo o destino envolvido naqueles minutos finais, haveria aí, por sua vez, um aspecto dramático.

Basta mencionar a partida do 7 a 1, contra Alemanha, para exemplificar o aspecto trágico – toda uma nação vista sob a perspectiva do fracasso. Ou, voltando algumas décadas, quando o recém-inaugurado Maracanã recebeu a final da Copa do Mundo de 1950 – a primeira depois da Segunda Guerra Mundial – foi palco da derrota da seleção brasileira diante de um público recorde de 200 mil torcedores (cerca de 10% da população carioca da época estava presente). O jogo, que estava empatado, teria seguido para a prorrogação não fosse o Uruguai ter marcado o segundo gol pouco mais de dez minutos antes de terminar a partida. Uma “Hiroshima psíquica” (de novo Nelson Rodrigues).

O aspecto lírico: o futebol pode ser jogado em prosa e em poesia. Seria do campo da prosa o jogo mais articulado, tático, de passes ensaiados, cruzamentos e conclusão – mais identificado com o perfil europeu de bola. À poesia corresponderia o futebol sul-americano: criação de espaços onde não existem através da corrida, do drible, de passes de curvas e imprevisibilidades – movimentos que muitas vezes não resultam em gol, mas cuja construção ganha contorno de um acontecimento poético.

4.

Clarice registra na longa crônica direcionada a Arnaldo Nogueira sua parca mas, ainda assim, apaixonada relação com o esporte, sobretudo com o Botafogo. E em matéria de produção literária versus amor pelo clube, com algum excesso, deixa claro: não poderia perdoar que o já consagrado cronista trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória do time carioca nem por um romance inteiro seu sobre futebol.

A história não se encerra nesse seu texto – Clarice devolve o desafio ao cronista: que ele perca o pudor e escreva sobre a vida e si próprio, “o que significaria a mesma coisa”.

5.

“Armando Nogueira, futebol e eu, coitada”
(Jornal do Brasil, 30.3.1968)

E o título sairia muito maior, só que não caberia numa única linha.

Não leio todos os dias Armando Nogueira – embora todos os dias dê pelo menos uma espiada rápida – porque “meu futebol” não dá pra entender tudo. Se bem que Armando escreve tão bonito (não digo apenas “bem”), que às vezes, atrapalhada com a parte técnica de sua crônica, leio só pelo bonito. E deve ser numa das crônicas que me escaparam que saiu uma frase citada pelo Correio da Manhã, entre frases de Robert Kennedy, Fernandel, Arthur Schlesinger, Geraldine Chaplin, Tristão de Athayde e vários outros, e que me leram, por telefone. Armando dizia: “De bom grado eu trocaria a vitória de meu time num grande jogo por uma crônica…” e aí vem o surpreendente: continua dizendo que trocaria tudo isso por uma crônica minha sobre futebol.

Meu primeiro impulso foi o de uma vingança carinhosa: dizer aqui que trocaria muita coisa que me vale muito por uma crônica de Armando Nogueira sobre digamos a vida. Aliás, meu primeiro impulso, já sem vingança, continua: desafio você, Armando Nogueira, a perder o pudor e escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa.

Mas, se seu time é Botafogo, não posso perdoar que você trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória dele nem por um meu romance inteiro sobre futebol. Deixe eu lhe contar minhas relações com futebol, que justificam o coitada do título. Sou Botafogo, o que já começa por ser um pequeno drama que não torno maior porque sempre procuro reter, como as rédeas de um cavalo, minha tendência ao excessivo. É o seguinte: não me é fácil tomar partido em futebol – mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil? – porque tenho um filho Botafogo e outro Flamengo.

E sinto que estou traindo o filho Flamengo. Embora a culpa não seja toda minha, e aí vem uma queixa contra meu filho: ele também era Botafogo, e sem mais nem menos, talvez só para agradar o pai, resolveu um dia passar para o Flamengo. Já então era tarde demais para eu resolver, mesmo com esforço, não ser de nenhum partido: eu tinha me dado toda ao Botafogo, inclusive dado a ele minha ignorância apaixonada por futebol. Digo “ignorância apaixonada” porque sinto que eu poderia vir um dia apaixonadamente a entender de futebol. E agora vou contar o pior: fora as vezes que vi por televisão, só assisti a um jogo de futebol na vida, quero dizer, de corpo presente. Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada.

O jogo qual era? Sei que era Botafogo, mas não me lembro contra quem. Quem estava comigo não despregava os olhos do campo, como eu, mas entendia tudo. E eu de vez em quando, mesmo sentindo que estava incomodando, não me continha e fazia perguntas. As quais eram respondidas com a maior pressa e resumo para eu não continuar a interromper. Não, não imagine que vou dizer que futebol é um verdadeiro balé. Lembrou-me foi uma luta entre vida e morte, como de gladiadores. E eu – provavelmente coitada de novo – tinha a impressão de que a luta só não saía das regras do jogo e se tornava sangrenta porque um juiz vigiava, não deixava, e mandaria para fora de campo quem como eu faria, se jogasse (!). Bem, por mais amor que eu tivesse por futebol, jamais me ocorreria jogar… Ia preferir balé mesmo. Mas futebol parecer-se com balé? O futebol tem uma beleza própria de movimentos que não precisa de comparações.

Quanto a assistir por televisão, meu filho botafoguense assiste comigo. E quando faço perguntas, provavelmente bem tolas como leiga que sou, ele responde com uma mistura de impaciência piedosa que se transforma depois em paciência quase mal controlada, e alguma ternura pela mãe que, se sabe outras coisas, é obrigada a valer-se do filho para essas lições. Também ele responde bem rápido, para não perder os lances do jogo. E se continuo de vez em quando a perguntar, termina dizendo embora sem cólera: ah, mamãe, você não entende mesmo disso, não adianta. O que me humilha. Então, na minha avidez por participar de tudo, logo de futebol que é Brasil, eu não vou entender jamais? E quando penso em tudo no que não participo, Brasil ou não, fico desanimada com minha pequenez. Sou muito ambiciosa e voraz para admitir com tranquilidade uma não participação do que representa vida. Mas sinto que não desisti. Quanto a futebol, um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar. Ou você acha que não vale a pena ser uma velhinha dessas modernas que tantas vezes, por puro preconceito imperdoável nosso, chega à beira do ridículo por se interessar pelo que já devia ser um passado? É que, e não só em futebol, porém em muitas coisas mais, eu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha de futuro.

E agora repito meu desafio amigável: escreva sobre a vida, o que significaria você na vida. (Se não fosse cronista de futebol, você de qualquer modo seria escritor.) Não importa que, nessa coluna que peço, você inicie pela porta do futebol: facilitaria você quebrar o pudor de falar diretamente.

E mais, para facilitar: deixo você escrever uma crônica inteira sobre o que futebol significa para você, pessoalmente, e não só como esporte, o que terminaria revelando o que você sente em relação à vida. O tema é geral demais, para quem está habituado a uma especialização? Mas é que me parece que você não conhece suas próprias possibilidades: seu modo de escrever me garante que você poderia escrever sobre inúmeras coisas. Avise-me quando você resolver responder a meu desafio, pois, como lhe disse, não é todos os dias que leio você, apesar de ter um verdadeiro gosto em ser sua colega no mesmo jornal. Estou esperando.

6.

“Na grande área”
(Jornal do Brasil, 8.4.1968)

Clarice Lispector: há uma semana, não encontro no Rio uma pessoa amiga que não me pergunte: “Então, quando é que você vai aceitar o desafio da Clarice Lispector”?

(Permita, leitor, explicar que eu tinha pedido, daqui, uma crônica de Clarice Lispector sobre futebol. Ela escreveu, escreveu uma crônica admirável; mas, num impulso de terna vingança, Clarice me multou: desafiou-me a perder o pudor e escrever sobre a vida).

Agora, os cobradores de Clarice estão à minha porta, carinhosamente, exigindo a resposta, mas com uma impaciência que me angustia como a véspera de um grande jogo.

Que dizer de um jogo que ainda não terminou?

E mesmo quando termine, Clarice, o match de minha vida não justificará sequer resenha: é match-treino, sem placar, sem juiz, nem multidão. Por tudo! Que está bom assim, embora melhor se fosse uma pelada – mil meninos jogando a minha vida, alheios ao vento que às vezes persegue tanto o time da gente.

Jamais seria um bom depoimento de minha própria vida: jogo muito mal, sofro a imprecisão de meus chutes. Tenho medo e respeito muito o julgamento da plateia. Embora também já tenha tido vergonha da multidão. Eu te conto, Clarice: era um jogo de grande importância, no Maracanã. O ídolo errou o primeiro passe, errou o segundo, o terceiro. Deram-lhe uma vaia. O ídolo lutava, dignamente, mas seu esforço era vão, a bola de ferro não lhe saía dos pés. A multidão já passava da reprovação ao deboche; e o ídolo, ali, firme, correndo entre dois abismos – humilhação e fadiga. Chamaram-no de venal; ele chorou em campo.

Depois do jogo, a um canto do vestiário, ele me confessava, ainda em lágrimas:

– Armando, eu sei que joguei muito mal. Mas eu não tinha cabeça para pensar. Essa gente não sabe, mas eu vim jogar, deixando minha filha, de cinco anos em casa, com minha mulher doente e uma irmã de minha mulher, louca, trancada no quarto. Mas louca de hospício. Louca de passar o dia jurando que ainda vai estrangular a minha filha. E eu, no campo, só pensava nisso: meu Deus, será que ela não está estrangulando a minha filha?

Nesse dia, eu descobri que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus e que às vezes a multidão é capaz até de torcer pelo estrangulamento de uma criança.

O match de minha vida, querida Clarice, tem sido um sofrido aprendizado de todos os sentimentos que murcham e florescem num jogo de futebol: o amor, o medo, o ódio, a inveja, a coragem ali estão, revestindo ou informando cada gesto da bola, cuja meta é sempre o coração – para viver uma grande alegria ou para morrer de infarto.

Infelizmente, jamais conquistei um lugar de jogador nesse misterioso torneio que acompanho, há quarenta anos, como simples espectador. Tentei ser goleiro. Queria sentir o único pedaço de campo em que a grama verde não vinga jamais. Cheguei a mentir, enfiando joelheiras, um boné na cabeça e dizendo aos outros meninos que era o Batatais. Deve ter me ficado da experiência uma visão pessimista do campo. Mas pelo menos duas lições aprendi com dois goleiros: com Evutchenko, “que a vida não é só atacar, é também vigiar os menores movimentos do adversário e conhecer suas artimanhas”; e com Albert Camus que o futebol ensina tudo sobre a moral dos homens.

Por fim, Clarice, o match de minha vida não registra um instante sequer de plena felicidade, embora alguns espectadores o vejam como um alegre amistoso de portões abertos. Marca-me, cerrado, um sentimento de culpa, a dividir comigo as bolas de sabão de cada gol perdido.

Se não deploro, também não tenho o que festejar no match da minha vida: o grito que glorifica o goleador é o mesmo que mortifica o goleiro.

Por isso, não vejo na vitória mais verdade que na derrota.

O match de minha vida, Clarice, está por aí, rolando numa bola que já não é de meia, nem de gude: bola de tantos sonhos perdidos pela linha de fundo – círculo, inspiração do sol, forma perfeita, esfera de fogo queimando, às vezes, a grama dos meus campos.

Que o match da minha vida possa ao menos terminar em paz – empate.

7.

O assunto, que até hoje faz com que determinados intelectuais torçam o nariz, era naquela época menosprezado pela academia e tratado apenas de forma prosaica por jornalistas e pesquisadores individuais. Tolice. Não há tema nobre ou vulgar, “porque já não há coisa alguma que não carregue em si a potência da linguagem”, ensina o filósofo Rancière.

Em Clarice, o futebol retorna ainda, de certa forma, em duas divertidas entrevistas na década de 1970 para Manchete com os ícones do esporte brasileiro João Saldanha e Zagallo e no inebriante conto “À procura de uma dignidade” (Onde estivestes de noite – 1974), no qual a personagem Srª Jorge B. Xavier se perde no amplo Maracanã vazio – “espaço oco de luz escancarada e de mudez aberta, estádio nu desventrado, sem bola nem futebol”.

8.

Armando Nogueira e Clarice Lispector, que naquelas semanas de 1968 se ocuparam de um afetuoso diálogo por crônica, não imaginavam – para felicidade de ambos – que, meses depois, Botafogo seria bicampeão do campeonato estadual, campeão da Taça Guanabara e levaria ainda a extinta Taça Brasil – o primeiro título nacional da história do clube. Os cronistas estariam igualmente satisfeitos hoje com a campanha do Glorioso nas oitavas de final da Copa do Brasil e como líder do grupo 1 da Copa Libertadores da América.

Ilustração e afeto, conversa com Mariana Valente

A partir de maio próximo, as prateleiras das livrarias brasileiras exibirão exemplares de A mulher que matou os peixes em roupagem nova. Lançado originalmente em 1968, pela Sabiá, o segundo título de literatura infantil que Clarice Lispector publicou em vida trará reprodução da dedicatória que a autora fez aos filhos, Pedro e Paulo, e aos netos ainda não nascidos.

Nesta nova edição da Rocco, chamam atenção, sobretudo, as curiosas ilustrações feitas a partir de colagens afetivas, “materiais nostálgicos que são relíquias carregadas de história e afeto”, assinadas justamente por Mariana Valente, artista, designer carioca e neta de Clarice, que conversou com o blog.

Você vem há algum tempo trabalhando em reedições da obra de Clarice Lispector pela Rocco, como As palavras (2013), O tempo (2014) e prepara A mulher que matou os peixes. Como se dá essa aproximação entre você e a obra clariciana?

É muito curioso como eu resisti alguns anos antes de mergulhar sozinha no abismo bonito que é ler Clarice. Eu tentei A paixão segundo G.H. quanto tinha 15 anos, mas o alerta no começo do livro me fez repensar e perceber que eu estava longe de ser uma pessoa de alma formada. Entendi que eu devia esperar um pouco mais. Também li no colégio Laços de família para uma prova de português, e fui um pouco detestada pelos amigos da sala que não entendiam direito o que tinham lido para lidar com a prova. Então meu primeiro contato com a obra da minha avó foi um pouco traumática. Mas comecei a assistir algumas ótimas peças em homenagem a Clarice, e senti uma enorme urgência de conhecer essa mulher próxima e ao mesmo tempo distante e muito misteriosa. Foi quando li Uma aprendizagem aos 16 e me rendi. Depois veio Água viva, e a partir daí não teve mais volta. É improvável ler Clarice e ser a mesma pessoa de antes da leitura. O momento que eu escolhi (já adulta) para retomar A paixão segundo G.H. foi muito revelador para mim. Das experiências subjetivas mais doloridas e bonitas que vivi. Sinto que ela me ajudou a crescer através dos seus livros. Esse em especial foi motivo de muita investigação em análise! Tenho mais dificuldade de fazer um projeto que envolva minha vó, porque me emociono muito e fico frágil, e sinto enorme responsabilidade em encontrar uma forma de traduzir graficamente a sua obra.

Ainda no âmbito da produção conjunta entre colagem e literatura, no ano passado a renomada marca de porcelana portuguesa Vista Alegre lançou uma sopeira e uma edição especial de A paixão segundo G.H., ambos com ilustrações suas. Recentemente, também houve a exposição Lendas de Clarice, no final de 2016, inspirada no livro Doze lendas brasileiras – como nasceram as estrelas. Há diferença entre trabalhar com a produção de objetos, produção expositiva e projetos gráficos?

Acho que maior diferença é o suporte onde o trabalho acontece, mas o processo para qualquer novo projeto é mais ou menos o mesmo. Se eu já tenho uma ideia do que quero fazer, eu saio em busca do material (manual ou digital), seleciono as imagens, em seguida entra o processo de recorte e busca pelos encaixes. Sempre fotografo essa parte do processo, porque me ajuda a perceber espaços e falhas a corrigir. A última fase é colar e unir as partes. Mas normalmente os encaixes claricianos me tomam mais tempo.

E quanto ao seu processo de trabalho, como funciona? Qual relação entre imagem e texto, memória e afeto?

Da mesma forma que a escrita e leitura clariciana se faz de maneira quase experimental, em fluxo de consciência e em carne vivíssima, o trabalho com a colagem também exerce um efeito parecido em quem faz e em quem observa. O processo todo é muito simbólico, e eu procuro ressignificar a imagem na própria imagem, como a Clarice ressignifica a palavra na própria palavra.

Isso nos leva à quarta pergunta: Mariana Valente como leitora de Clarice Lispector e Mariana Valente como neta de Clarice Lispector. Há fronteiras entre elas? Quem veio primeiro?

A neta, com certeza. Quando era mais nova e alguém descobria que eu era neta da Clarice, a pessoa se emocionava e eu não entendia. Não a conheci pessoalmente mas parecia que todos que a leram a conheceram profundamente. Então eu desconfiava que ler sua obra seria muito revelador. Como foi, e como é.