Aqui estão cento e onze páginas de fruição da obra de Clarice Lispector. Diferente do que estamos acostumados a ler de crítica literária a respeito, Roberto Corrêa dos Santos, em sua ampla interpretação distribuída por doze capítulos, alguns mais extensos, outros de apenas duas páginas – mas com a felicidade de converter a leitura em horas de reflexão –, conduz o leitor a um voo livre de perigos, assegurando sua total liberdade, sem lhe exigir que se firme em duras cordas teóricas. Antes constrói, com movimentos suaves, porém balizados, leituras e desleituras, iluminando diversos textos claricianos com integridade e grandeza. Conta ponto por, principalmente, não sufocá-los.
O leitor mais atento, ao caminhar pelo lirismo que Roberto Corrêa dos Santos usa em sua exposição, sente a prazerosa necessidade de parar, respirar e – se for dado a – grifar o texto de tão intensas as leituras dali. Difícil é não concordar com o autor que, ao pincelar apenas um título ou outro da produção de Clarice, consegue não repetir o que a essa altura do campeonato já se sabe pelo que a crítica literária das últimas décadas se empenhou em examinar. Roberto vai até a fronteira daquilo que os textos claricianos sugerem, se resguardando de possíveis equívocos alavancados por afirmativas exageradas. A escrita mesma de Clarice, por exemplo, é efetivamente um manual de instruções para o “desapego” a normatizações e estereotipias. É essa escrita que institui um novo saber que por nós não pode – não deve – ser, segundo o autor, “urbanizado” nem “destituído da angústia feliz que provoca”.
Ao ler Na cavidade do rochedo somos prontamente colocados na condição de leitores-exploradores. Entre encantados e assustados, nos dispomos a desbravar a gruta – ou obra – clariciana, que, por sua própria natureza, é feroz, escorrega, não se deixar apanhar integralmente.
Na cavidade do rochedo: a pós-filosofia de Clarice Lispector é um estudo inédito, publicado exclusivamente em formato eletrônico e disponível para download aqui.
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