De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 2 julho 1946

Tania, querida:

Recebi agora sua carta datada de 26 de junho. Com certeza a falta de notícias de que você fala vem mesmo de nosso passeio em Paris. Mas já escrevi várias cartas depois disso. Elisa diz que vocês vão usar a mala oficial. Acho que não vale a pena. Eu não recebo cartas porque vocês não escrevem, apenas. Porque quando escrevem acontece como agora: recebi sua carta em seis dias. Diante da vida ocupada que você leva não me animo a exigir mais. Porém fique sabendo, querida, que estou muito isolada, que receber carta é ainda o que espero na Suíça. – Ao mesmo tempo que sua carta, recebi uma da editora Agir; do Rubens Porto. Ele me diz (e acrescenta que é confidencial, não sei porque) que dos 3.000 exemplares (!) já foram vendidos 1.642. E quanto ao primeiro livro, diz: não seria aconselhável lançar já a reedição. E pede minha aquiescência. Escrevi dizendo que naturalmente concordo, mas que gostaria de saber dos motivos. E digo a ele que suponho que a prudência dele vem do fato dele ter observado o silêncio da crítica em relação ao Lustre. E digo que espero resposta dele me dizendo os motivos. (Peço-lhe que, se por um acaso, você estiver com ele não fale nos 3.000 exemplares). Realmente a crítica tem sido pouca em relação ao primeiro. Ninguém me escreve a respeito; porque saber de opiniões vale às vezes como ler críticas. Eu gostaria de saber o que há a respeito. Mas sei que você não pode me informar nada. Talvez o Ari de Andrade (O poeta e jornalista Ari de Andrade era colaborador da revista Vamos Lêr!.) possa. Tania, querida, não esqueça nem adie pôr dentro dos envelopes alguma nota sobre o livro. Estou bastante desanimada e como sei sofrer por tudo, sofro por isso também, o que é uma vergonha.

De amanhã em diante vamos aprender tênis, para fazer um esporte. O tênis fica ligado com uma piscina onde tomaremos banho. É um esforço que eu faço para viver. Meu impulso de todos os momentos é ir embora. Não tenho nenhum ânimo para trabalhar. Minha luta de todos os instantes que Deus me dá é contra o meu negativismo. Me escreva alguma palavra de amizade e esperança, meu amor.

Fiquei alegríssima com a idéia da Marcinha banguela… flor banguela eu nunca vi. Acho muita graça no fato dela ser um pouco vadia… Tania, querida, tenha paciência com a Marcia, não se irrite com ela, não brigue com ela. Você diz a história da penicilina. Por que não começa logo? Não vejo motivo para adiar. Estou surpreendida no fato da viagem de William não estar dando resultados. Talvez você esteja se apressando um pouco. É preciso aguardar.

Minha querida, Deus te abençoe, te dê saúde e felicidade. E me faça ir depressa para o Brasil. Eu te abraço muito.

Clarice

Eu noto uma coisa: Elisa escreve e dá a carta a você e só vários dias depois você acrescenta a sua e põe no correio. A culpa então é sua, quanto à raridade com que recebo. Ou talvez eu esteja exagerando: porque espero carta diariamente… 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 23 junho 1946

Minha querida irmãzinha

Você não pode calcular minha alegria: sua carta datada de 15 e colocada no correio a 15 mesmo, chegou aqui a 20… Cinco dias. Você escreveu num sábado e eu recebi na quinta seguinte. Rememorei meu sábado e quando vi que nesse dia chato e vazio você estava me escrevendo, entrei em êxtase. Estou muito contente que William tenha voltado e tudo esteja bem. A idéia que você tem de acenar a William com uma viagem para me ver, embora eu saiba que é apenas uma ameaça a ele, tomei como promessa a mim. Imaginei você aqui e fiquei pensando vários minutos, e só nisso tive alegria. A primeira coisa que eu faria era não deixar você em Berna e ir depressa com você a Paris.

A notícia da morte de tia Zina (A irmã de Mania Lispector, mãe de Clarice, morava em Recife.) me deixou triste. Eu pensava às vezes nela. Fiquei perplexa como se isso não pudesse acontecer.

Querida, fico com remorsos de estar aqui em vez de ajudar você nos seus trabalhos. Se eu estivesse lá ajudaria Marcia a fazer os deveres, pelo menos. Me escreva sem falta o resultado da penicilina. Eu tenho grande fé nisso e se o Mazzini disse que ela fica boa, acho que fica. Escreva sem falta. E por mais trabalho que você tenha, queridinha pequena, não descuide da vaidade, como você diz que não sucede… Faça o penteado mais lindo, meu amor, seja querida. Mas por favor, acredite que você conseguirá a mesma soma de produção mantendo ao mesmo tempo os nervos relaxados. Chegue junto do espelho, faça a sua cara mais repousada e calma – e com essa expressão, continue o trabalho. Você vai ver que ganha uma nova força. Essa história de olhar ao espelho e fazer uma expressão, tem raízes científicas. se você quer se convencer. Tem uma teoria de emoções que diz que a gente fica alegre porque ri. Sem aprofundar mais, ela tem um parte verdadeira. Não, não comprei os óculos. Como a coisa é importante fiquei de consultar um oculista que não estivesse ligado a uma casa de ótica. E até hoje não fui; mas vou. Tenho lido bastante, tenho ido à Biblioteca Pública, tenho trabalhado como posso. A crítica de Álvaro Lins (“E nota de Álvaro Lins dizendo que meus dois romances são mutilados e incompletos, que Virginia parece com Joana, que os personagens não têm realidade, que muita gente toma a nebulosidade de Claricinha como sendo a própria realidade essencial do romance, que eu brilho sempre, brilho até demais, excessiva exuberância…” (Carta de Clarice Lispector a Fernando Sabino. Berna, 19/6/46. Cartas perto do coração. Record, 2001.)) me abateu bastante, tudo o que ele diz é verdade, causada ou não por uma inimizade que ele tem por mim, seja ou não uma crítica escrita em cima da perna. Ao lado disso que ele diz e é verdade, ele não me compreendeu. Mas isso não tem importância. Recebi carta de Fernando Sabino, de Nova York, ele diz que não compreende o silêncio em torno do livro. Também não compreendo, porque acho que um crítico que elogiou um primeiro livro de um autor, tem quase por obrigação anotar pelo menos o segundo, destruindo-o ou aceitando. O terceiro é de que ele não precisa falar, se quiser. Gostaria muito de ler uma crítica de Antonio Cândido. Ele escreveu? Diga sua opinião, querida. Em todo o caso, já passei por cima da crítica de A. Lins, embora a leve a sério. De um modo geral, é preciso fazer como o homem que dava todo dia uma surra na mulher porque algum motivo teria de haver. Mesmo que A. Lins não saiba porque “dá a surra”, eu aceito porque um motivo e vários devem existir e eu mereço. – Sobre Joseph Sztern e mulher, agora você diz que estão em Roma. Enquanto isso eu já tinha enviado a segunda carta, com cópia para Polônia e Suécia. Acho que se estão em Roma, vai ser mais fácil. Com certeza já procuraram a Embaixada. Vamos nos comunicar com Mozart imediatamente. – Recebi sua carta a 20 de tarde, exatamente o dia em que parte o correio para o Brasil e perdi.

Por isso escrevo apenas hoje, domingo, e amanhã de madrugada segue. Sim, meu amor, os meses passam depressa, felizmente. Os dias às vezes é que não passam. Seja feliz, minha florzinha miúda, tenha uma vida linda, me escreva, me escreva.

Tua Clarice


Recebi os recortes com citação de Lucia Miguel Pereira e Alcântara Silveira. 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 5 de maio 1946

Minha querida:

Como não tenho o que escrever, mando-lhe apenas as “minhas saudações”. Somente que estas não são apenas cordiais; são tão cordiais que isso me empurra para a máquina, em nome do amor. Tudo aqui está bem. Estamos procurando casa e ainda não achamos. O hotel é muito bom mas é caro demais e cansa. Dizem pessoas entendidas no prazer de morar que este hotel é dos melhores, digamos, do mundo (isso é para me impressionar, falar em mundo inteiro sempre impressiona). Mas porque afinal eu hei de observar minha natureza como se ela fosse um pecado? Por que não ver com franqueza e sem recriminações que eu tenho a pior espécie de snobismo, que é o de não ter prazer nas “coisas do mundo”? estou rindo. Na verdade eu tenho um temperamento pobre. Acontece que os dois gramas de força íntima que eu tenho eu gasto no meu trabalho e no meu desejo de trabalho – e não resta para mais nada. E já notei, que se eu não trabalho então, esses dois gramas eu também não sei dar. Não é engraçado? Eu que posso ser tão ativa quando se trata de alguma coisa que eu quero realmente, como viajar para ver vocês mesmo num avião desconfortável e solitário e tudo o mais, não tenho o menor interesse em desarrumar as malas que chegaram da Itália, em tomar um partido mais intenso no fato da procura de casa… Querida, não pense que se Marcia tivesse vocação para trabalhar em alguma coisa de arte ela sofreria. Quando uma pessoa é viva em todos os sentidos, isso não acontece. Por falar nisso, querida, eu não tenho o direito de aconselhar ou pedir, mas acho que você deveria deixar Marcinha se expandir em todos os terrenos. Não é necessário que ela faça de um desses “terrenos” uma “profissão” – mas expandir-se é a própria alegria de viver. Não se pode fechar o coração de uma florzinha e obrigá-la a se abrir somente em determinada época e em determinado sentido. Estou parecendo doutoral… E William? Perdi o endereço dele nos Estados Unidos. Quando é que ele volta? Que notícias há dele? Tomara que ele esteja logo aí. Escreva-me, querida. Eu aprendi uma sensação nessa minha vida fora: às vezes eu me sinto como se fosse receber carta… Naturalmente não há tempo para a carta ter vindo. Mas não custa nada esperar… Com o esforço de esperar através do mundo inteiro a carta que não vem, parece que eu afinal me ponho em contato com vocês através da distância. Muitos pensamentos meus são assim: que é que você acha, Tania? O que é que você pensaria, Elisa? Você esse passarinho, Marcia! Tania querida pequena, veja bem o programa de aviões e dê notícias. Deus te abençoe. Receba um abraço da

Clarice


Tania, o amigo de William só entregou dois livros. Você mandou dez, não foi? Eu preciso deles. Mas não mande pelo correio que sairia uma fortuna. Se você puder, telefone ou vá ao Ministério, procurando a senhorita Castro Menezes, diga que é minha irmã e pergunte se ela não pode conseguir mandar pela mala dipl. para Berna um livro meu ao menos. Ela é muito gentil. Diga que eu mando lembranças e que o pedido é meu. Diga que eu estive em Berna com o sr. Aldo Castro Menezes e sra., e que eles estão muito bem. E que eu ofereço o que ela precisar da Suíça.

Querida, faça isso sem falta, viu?

Tania, tem saído alguma crítica? 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 21 abril 1946


Minha florzinha,

Fiquei tão contente por você ter recebido notícias de William! Uma separação assim serve tantas vezes para mostrar tantas coisas. Estou muito contente, meu amorzinho. Não sei em que data você botou a carta no correio porque o carimbo estava apagado. Mas pela data que você anotou me parece que demorou muito. Fiquei sabendo por pessoas que às vezes a carta demora 8 dias (uma vez até 6) e às vezes inexplicavelmente mais de um mês. É preciso indagar os dias de avião e talvez colocar a carta na NAB, não sei. Querida, pergunto-lhe antes de tudo o seguinte: 1 – Como vai a sua garganta? Como vai o seu estado geral? 2 – Como vai o resfriado na Marcia? Como vai ela nos estudos? Está impaciente?… Eu queria receber cartinhas dela, já…

Querida, estou bem de saúde. Aqui o clima é bom, dizem que cansa um pouco porque é alto. O tempo é seco, tem um ventinho frio constante. A água é muito calcárea e corta a pele, estou usando no rosto só creme. Na cidade propriamente tem pouca coisa a ver ou fazer. Maury ao que parece vai comprar um carro. A despesa é grande mas talvez bem utilizada porque a gente fica com liberdade de passear e os trens também são caros. E depois a gente pode levar o carro para o Brasil. Eu infelizmente sou um espírito cansado e “blasé”; pouca coisa me entusiasma, eu bebi demais na literatura. Mas como deixar por exemplo de ler e escrever por um tempo? No caminho em que eu entrei eu tenho que aprofundar ao máximo até meus defeitos, quanto mais tempo passar mais enfronhada eu deverei estar no que eu faço – só assim conseguirei um arremedo de perfeição. Só tenho na verdade interesse e esperança em certas pessoas, em conhecer certas pessoas. O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível. Até Dilermando ficou em Nápoles, haveria enormes dificuldades de transporte do coitadinho. Não posso ver um cão na rua, nem gosto de olhar. Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, o cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros… E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha que eu não tinha que repartir com ninguém. Nunca vi carta mais estúpida. Eu estou muito bem de espírito também. Estou muito animada para o trabalho, estou gostando muito de trabalhar. Berna é simpática e mais tarde iremos a Paris. Fiquei tão arrependida porque a gente não tirou mais retratos. Querida, se você quer fazer regime pelo amor de Deus cuide de não se enfraquecer. Vá a um médico para saber que espécie de coisas você deve deixar de lado, mas alimente-se bem, você não é um passarinho, é uma mulher linda. E, querida, não ponha pó de arroz em baixo dos olhos, isso é inteiramente contra qualquer processo de maquiagem (estou rindo). Meu amor, seja bem feliz, não seja inquieta, seja tranquila e boa consigo mesma. Desenvolva as qualidades de Marcinha, que é uma uva. Tania, que notícias você me dá de meu livro? Saiu alguma crítica depois que fui embora? Me informe, querida, preciso saber. Receba o meu amor e a felicidade que eu quero lhe dar.

Clarice


Como vai Marcia com o resfriado, e se a penicilina adiantou. Quero saber como vai você, Elisa, com o trabalho. Quero saber como está você, Tania, com a saúde e disposição. Como vai William com o trabalho, se está dando frutos a viagem. Como eu nunca sei ao certo como vocês estão, acho que vou inaugurar um sistema de dizer coisas às cegas. Assim digo hoje:

A maior parte de nossos males são imaginários. São Francisco de Sales.
(Isso eu repito a mim mesma.)

E depois disso continuo minha carta. E na verdade minha carta inteira é uma pergunta: como estão vocês. E é uma palavra: felicidades. Temos ido como sempre ao cinema e saio meio tonta do cinema, de tal forma estou sempre disposta a perder a consciência das coisas e a me entregar à inconsciência. Seria muito bom um emprego de ir todos os dias ao cinema e depois não dizer se gostou ou não gostou. Quanto ao mais, nada propriamente. Sou como o papagaio da anedota: não falo, mas penso muito, presto muita atenção. Hoje é domingo, e não sei porque, todo domingo é pé de cachimbo. As bernenses até ficam engraçadinhas no verão. No inverno, parece, a cidade é de monstros, todos vestem milhares de roupas grossas, e meionas. Uma das coisas mais horríveis do vestuário das bernenses, no verão ou inverno, é o chapéu. São os chapéus mais esquisitos, mais altos, enormes, grossos e de forma estranha que tenho visto. E dentro do chapelão uma cara séria, sem vaidade, e muitas vezes com papo no pescoço; nas jovens, o papo é bem ligeiro ainda e dá até certa graça, o pescoço parece redondo e como elas são brancas, pode-se dizer: são pescoços redondos e brancos. – Vocês nunca experimentaram o que é receber cartas quando se está fora, sobretudo fora como eu, inteiramente fora: pergunta-se sem esperança mas cheia de esperança e quase certeza: há cartas para mim? E se respondem: chegou, esta – então eu fico boba de surpresa e de reconhecimento. – Que é que há sobre O lustre? Espero sempre notícias.

Tenho pedido muito aos acontecimentos que eles me sejam favoráveis. Porque com a saída do 1o secretário, vem outro a substituí-lo. E se por acaso viesse um casado que tivesse uma mulher simpática que pudesse ser minha amiga, abreviaria muito minha permanência em Berna. Mas isso é dificílimo. Provavelmente o que virá trará uma amiga para d. Noemia.

Bom queridas, o que faltou dizer é que eu penso muito em vocês. Mas isso não se diz; se pensa. E outras coisas mais. Espero que esta carta vazia de domingo-bernense, escrita sob o signo de Hulda Pulfer, encontre vocês com saúde, com tranquilidade, com esperança, com bem-estar, com sentimento de doçura de viver, com bom humor, com plenitude, com alegria em Marcia, com alegria nos domingos e nos dias da semana em si mesmas. Deus abençoe esse meu desejo. Um abraço grande.

Clarice

Tania querida, passei um telegrama no dia 19. Querida, tenho medo que o texto tenha chegado errado porque eu o deveria ter escrito à máquina sendo em português. Estava escrito: felicidade sempre. Isso era o que estava escrito. E o que não estava escrito eram abraços, amor, desejo de saúde para você – e outras coisas que não estavam escritas nem eu sei descrever.

Tania, já se acabou o dinheiro do correio? Peça + a dr. Mozart. Não precisa dizer para quê, diga que é para pagar Lux-Jornal e bobagens. Mande recortes querida. 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 14 agosto 1946

Tania, meu amor,

Recebi sua carta datada no correio a 6 de agosto em 12… Eu estava me convencendo de que não ia receber tão cedo, e eis o grande presente: Ah, querida, como estou cansada de ter saudade e de pensar. Estou tão cansada disso e de tentar pelo pensamento sair fora da vida que levo que não tenho gosto nem força de trabalhar. Um dia desses abri um livro que comprei, o célebre Imitação de Cristo (Publicada no século XV, de autor anônimo, há quem atribua sua autoria ao padre alemão Tomás de Kempis. Considerada a obra mais lida no mundo cristão depois da Bíblia. Clarice fez alguns comentários sobre a leitura desta obra com Fernando Sabino (Cartas perto do coração). “Tenho lido muito a Imitação de Cristo que tem me purificado às vezes.” (p. 21)) “Quanto à Imitação de Cristo, ela manda sofrer até o sangue, e me ceder inteiramente. Sofrer até o sangue, chegarei lá e mesmo às vezes já cheguei. Mas me abandonar, não sei como, me falta a graça. Como diz Álvaro Lins, eu sou dos muitos chamados e não escolhidos… (p. 54)), e estava escrito: ainda não sofreste até o sangue. Acho que no momento em que isto suceder, será o momento de agir, de resolver. Por enquanto ainda posso contemporizar. A carta que eu estou respondendo é aquela em que você manda a cartinha de Marcia… Que amor de cartinha, da primeira série! É a adulta menor mais querida que eu conheço. E você a criança maior querida. Fiquei boba com os quatro bilhetes de sweepstake vencidos. Seria mais bom do que você imagina, você vir aqui… As cartas de vocês afinal recebi, acho que todas, com retratinhos, com recortes. Eu tinha tanta vontade de lhe dar uma boa notícia qualquer. Nossa sala de visitas é muito bonitinha. Lá está o seu retrato numa moldura, me olhando. Nos momentos em que estou mais chateada, você sorri para mim. Muitas vezes não sei o que você quer dizer, mas estou sempre adivinhando. Tem o retrato de Marcia na parede. E também, em moldurinha dupla, Elisa, com um retrato de carteira, e Marcia em duas pequeninas provas para o retrato grande. Tem meu retrato de De Chirico (Giorgio de Chirico (1888- 1978). Fez parte do movimento chamado Pintura metafísica, que antecipou elementos que depois apareceram na pintura surrealista. No início dos anos 20, a sua obra obtém um êxito considerável nos meios vanguardistas e, em 1925, participa na primeira exposição surrealista. Entre as suas obras mais conhecidas há que citar Retrato premonitório de Apollinaire, Heitor e Andrômaca e as Musas inquietantes.) e todas as coisinhas que nós temos. Ontem fui comprar flores para enfeitar, e achei um lugar maravilhoso: é um jardim enorme, com um corredorzinho sombrio que leva a ele. Chega-se lá, entra-se numa casinha de teto de vidro e se diz: quero comprar flores. Então a mocinha com avental e meias compridas de algodão, pega numa tesourona e sai com a gente, mostra o jardim enorme e diz: quais? A gente escolhe: essas amarelas. Então ela corta da planta mesmo uma dúzia de flores amarelas, enrola no papel e dá. Não é bom? Quer me mandar um retratinho com o vestido havana? Os botões foi você mesma quem escolheu, e é bem possível que os tenha pago também… Naquele tempo você pagava muita coisa por mim… Já não posso nem escrever uma carta, Rosa aparece para conversar. Já está ficando chata a minha amizade com ela… Ela tem mil histórias sempre, e tantas opiniões quanto é possível. Muitas histórias ela termina assim: ah, os homens, a senhora sabe… Finjo que sei, e talvez saiba mesmo. – Ontem Maury recebeu a carta de um amigo; ele dizia que “como nós devíamos saber”, o Itamarati estava distribuindo o Lustre…; que por enquanto ele só tinha recebido o ofício anunciando mas não o livro. Isso nos deixou mortos de raiva e vergonha. Você não pode imaginar o ridículo disso, como vão rir de mim. Você não pode imaginar essas coisas porque está afastada do ambiente. Todo o mundo se reúne para falar mal de pessoas. Não sei se a notícia é verdadeira, e não sei de quem partiu a idéia. Acredito que talvez a AGIR, vendo que o livro não se vende, tenha se lembrado de vender exemplares ao Itamarati… Se isso for verdade, não quero mais saber da AGIR para nada, estou cansada dos golpes deles que me prejudicam e me ferem. Sei bem que todos vão imaginar que fui eu quem consegui esta história no Itamarati, porque estive no Rio. Tudo isso me chateia mais do que posso lhe explicar. Maury está furioso, sentindo-se ridículo. – Minha querida, então você não tirou sua amizade por mim. Me fez tanto bem sua carta. Ah, minha querida, eu acho que já não tenho mais palavras para lhe dizer como estou ligada a você, mais do que pelos botões…

– Mandei um conto muito pequeno para Buono, para a “Casa”. Chama-se “O Crime” (Publicado posteriormente sob o título de O crime do professor de matemática em Laços de família (Francisco Alves, 1960).). Não mandei para você antes, com medo de você não gostar… Meu livro está encostado. Já não sei chegar até ele. Abandonei ele muitas vezes demais, e agora precisaria revivê-lo todo para transformá-lo. Com o seu auxílio longínquo, vou tentar de novo. – Eu me correspondo com Fernando Sabino, que está em Nova York, com Sarah Escorel (Esposa do diplomata Lauro Escorel. O casal conviveu com Clarice e Maury em Washington.), que está em Boston, com Maria Luiza; recebi um carta grande de Buono, uma daquela moça Diva Alves Terra, que diz que conheceu você. O pessoal da Itália não me escreve. Açucena não gosta de escrever. Saiu no boletim do Ministério, saiu que todo o pessoal masculino da Itália foi condecorado com cruz de guerra por serviços prestados à FEB. Estão incluídos personagens que chegaram à Itália depois da guerra terminada…, e uma datilógrafa também. O nome de Maury foi excluído, não se sabe porque, talvez porque ele esteja na Suíça; é uma vergonha. Tinham falado que até eu ia ser condecorada pelo trabalho no hospital… (A Rosa está agora dizendo que há aqui suíços tão sabidos que até parecem judeus…) Bom.

Um dia desses vimos um filme já antigo de Betty Davis; o título em inglês é “Old acquaintance”, com Miriam Hopkins (Old Acquaintance (1943), estrelado por Miriam Hopkins e Vicent Sherman.). Se passar por aí de novo, vá ver. É um desses filmes gostosíssimos, de se ter pena que acabe. Às vezes também aparecem filmes franceses, bons. Tania, não será exagero seu dizer que William ainda não aproveitou a viagem aos EE.UU? Só sei que se ele precisar de novo viajar, você deve aproveitar e ir também; não vejo porque não. – Já escrevemos encomendando cristais, talheres e porcelanas para você. Só que é preciso esperar também que tudo venha por água abaixo, tanto o seu serviço como o nosso. Só no momento em que ficarem prontos é que saberemos. Porque se a questão do dinheiro mudar, sairiam por uma fortuna – Tania, diga a Priscila que continuamos sem receber resposta dos parentes dela. Que talvez ela deva lhes escrever, dando nosso endereço, porque não entendo a demora, uma vez que Priscila diz receber carta deles. Vamos escrever de novo. Maury escreveu em inglês e deu muito claramente as instruções.

Querida, me escreva, sim? É tão infinitamente bom receber sua carta depressa e com frequência. Receba meu abraço, querida, e goste um pouco de mim.

Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Maury Gurgel Valente

[Maricá, janeiro de 1941]

[…]

Existe também… sei lá o quê. Talvez qualquer coisa que valha a pena. Pelo menos para olhar do ônibus e sorrir.

Ou senão, por que não se entregar ao mundo, mesmo sem compreendê-lo? Individualmente é absurdo procurar a solução. Ela se encontra misturada aos séculos, a todos os homens, a toda a natureza. E até o teu maior ídolo em literatura ou em ciência nada mais fez do que acrescentar cegamente mais um dado ao problema.

Outra coisa: o que você, você individualmente, faria de especial se não houvesse a ruindade do mundo? A ausência dela seria o ideal para todos os homens em conjunto. Para um só não bastaria. Garanto-lhe que sempre haveria a arte de evasão e as preces e as fugas para Bach. Como diria o meu amigo, Tasso de Silveira: “Tudo vem do pecado original…”

Alô, bem. Não creio que tenha pecado exatamente no ponto principal. E suponho que esta carta já o encontre em outra disposição e seja inútil, o que ela seria, aliás, de qualquer modo.

Quanto a mim, estou mais ou menos o.k. Não consegui, no entanto, soltar minhas rédeas. Planos, programas, consciência, vigilância. O que vale é que misturado a tudo isso, está a vida que não para.

Um abraço de

Clarice

P.S.: Nunca vi uma alma tão feia quanto a minha letra.

De: Clarice Lispector
Para: José Simeão Loeal

Washington, 10 de março de 1959 

Exmo. Sr. José Simeão Leal 

Serviço de Documentação 

Ministério da Educação e Cultura Rua da Imprensa, 16 

9º andar, sala 902 

Rio de Janeiro, D.F. – Brasil 

Prezado Simeão, 

desisti de lhe escrever há vários anos, sabendo, por experiências repetidas, que, sendo pouco o seu tempo, eu não receberia resposta. O que explica por que enviei mensagens por amigos. Minha última tentativa foi por intermédio de minha amiga e concunhada, Eliane Gurgel Valente. 

Acabo, porém, de receber as provas do livro de contos – o que me deu a súbita esperança da possibilidade de um contato direto, com resposta de sua parte. Ou estarei sendo otimista…? 

Há quatro anos os originais dos contos estão em suas mãos para serem publicados. (Continuo considerando uma de minhas experiências agradáveis o fato de Você me ter encomendado os contos – e eu, tão difícil de escrever ficção por encomenda, ter vitoriosamente conseguido.) Recebi dois ou três mil cruzeiros em pagamento prévio. Com a demora de publicação, e com a falta de resposta às minhas cartas, considerei-me desobrigada de meu acordo com Você. Restavam os dois ou três mil cruzeiros que me tinham sido pagos – e que eu autorizei a Sra. Eliane Gurgel Valente a restituir, em troca dos originais a que eu me considerava com direito. Sua resposta foi negativa. 

Aqui, nesta carta, quero reiterar minha proposta – desta vez enfim diretamente, animada pelo fato de Você me ter escrito. A proposta continua a mesma: estou pronta a devolver os dois ou três mil cruzeiros, em troca do direito de dispor de meus originais. Estou precisando de dinheiro, e quero vender os contos separadamente, a jornais ou revistas. 

Ser publicada por Você é uma honra. Além do mais, Você é um amigo, e pessoa que admiro e respeito. Mil vezes eu teria preferido que Você tivesse atendido minhas mensagens (sobre devolução dos contos) durante os quatro anos. Lamento a coincidência de Você só me ter escrito na hora de me mandar as provas. Ter enfim me escrito, me deu, como eu disse, a esperança de um contato direto. Mas é com infinito desagrado que percebo o perigo da coincidência – poderia parecer que, tendo as provas comigo, eu lhe faço a proposta da devolução dos contos. Você e eu, além das pessoas que gentilmente se encarregaram de lhe transmitir minhas mensagens, sabemos que há muito eu queria os originais de volta. 

Você me prestará um favor ao me atender. Ao Ministério de Educação obviamente não interessa a publicação dos contos, ou estes não teriam ficado numa gaveta durante quatro anos. E a mim – por motivos claramente financeiros e de certo modo urgentes – me interessa publicação comercial, mesmo sem a honra de ter livro publicado por Você. 

Uma coisa me aborrece: se o livro chegou a ponto de provas, isso significa provavelmente alguma despesa da parte do Serviço de Documentação, despesa que não estou, infelizmente, em situação de indenizar. 

Mas, por outro lado, uma coisa me consola. É que também eu tive prejuízos. Durante os quatro anos, recebi, vez por outra, recados mandados por Você, garantindo que o livro estava “prestes a sair”, e “já em provas”. Isso me impediu de vender os contos separadamente a jornais e revistas, pois “em breve” os contos, senão publicados por Você, não seriam mais inéditos – e eu não podia vender um conto que poderia ao mesmo tempo sair em livro. Recusei propostas nesse sentido, propostas que me interessavam. Só uma vez resolvi – diante da coisa cada vez mais vaga que se tornara a publicação do livro – assumir compromisso. Aceitei uma proposta de O Estado de S. Paulo. Acontece que eles só chegaram a publicar um conto. Pois, em seguida ao recebimento do cheque, recebi daquele jornal uma carta, justamente indignada, dizendo que, se eu dera a eles exclusividade de publicação, não deveria ter dado um conto a um jornal do Rio. Acontece que esse jornal do Rio não me pediu pessoalmente nenhum conto, não avisou que publicaria, nem explicou como tinha conto meu em mãos. O jeito que dei foi escrever uma carta de desculpas ao Estado de S. Paulo – e perdi o contrato. 

Com isso, Simeão, quero lhe dizer que, para paz de minha consciência, tive prejuízos certamente comparáveis aos do Serviço de Documentação em preparar provas. Até um ano atrás, esses prejuízos não me afetavam substancialmente. Mas agora tenho que tentar vender os contos separadamente. 

Por favor, leia esta carta com compreensão. A mesma que tive durante quatro anos… 


Sua amiga
Clarice Lispector 

Clarice Lispector
4421, Ridge Street
Chevy Chase
Washington 15, D.C.
U.S.A.

De: Clarice Lispector
Para: Elisa Lispector

Nápoles, 12 – janeiro – 1945

Elisa, querida:

Recebi cartas formidáveis de vocês, e como disse a Tania, tenho vontade de provocar para receber, também carão, é verdade, nas cartas grandes. Pois então não vou durante a guerra, nem de 6 em 6 meses, exatamente, se vocês acham absurdo. Mas, querida, não pense que eu gosto de você porque estou longe e acrescento. É que quando estamos juntas não escrevemos carta e parece que é escrevendo que se podem dizer certas coisas. Você tem razão, com a idéia do provisório não se pode fazer nada. E por isso é que carta me faz bem, me dando uma lição. Não me diga que não tem a pretensão de ter ascendência sobre mim, que é bobagem, meu bem. e por falar em bobagem, cito- lhe outra e produzida pela mesma fonte, que é vocezinha: você diz que embora pareça incrível, você também já perseguiu miragens. Que burrinha você é! Se há pessoa em que se veja isso, é você. E não só você perseguiu, como persegue – o que vale como não ter mudado e ser fiel. Até passarinhos essa menina cria no banheiro, lugar onde em geral só se penduram toalhas! Me interessa saber é como eles se alimentam. Umas das coisas formidáveis disto é que é ótimo ter passarinhos mas é pau às vezes a gaiola: no seu caso os passarinhos é que têm você e vocês moram de igual para igual, um reclama contra o outro, são até capazes de não se falar durantes algumas horas. Você explicou pouco em relação a eles; você já os viu? Quantos são? Às vezes eles saem? Eles mesmos cuidam da comida ou o contrato que eles assinaram é com pensão? E por falar em pensão, não só os passarinhos precisam comer, você também. Escreva-me sem falta onde tem almoçado e jantado.

Você vai ver como eu vou melhorar e levar uma vida agradável. Mas vou ao Rio, não sei quando, depois que a guerra terminar, um dia e em boas condições. Eu gostaria aqui de ajudar um pouco, mas é impossível. Pedir dinheiro às pessoas para dar a outras é dificílimo porque a quem eu pediria? Ao Matarazzo? Ele começaria por dizer que tem casa requisitada e etc. Ele não precisa, mas todos precisam pouco ou mais. Porque me ofereci para fazer alguma coisa, estou agora trabalhando em datilografia com o coronel Julio de Moraes. Vou lá todas as manhãs e salvo a humanidade copiando numa letra linda à máquina, umas coisas. Pretendo também visitar feridos. Ajudamos pessoalmente e em cada caso como podemos e isso não é nada. Os casos aqui são inúmeros e cada família tem o que contar. É verdade que se culpa a guerra de muita coisa que sempre existiu aqui. A prostituição, por exemplo, sempre foi aqui um grande meio de vida. Contam-nos que agora os meninos na rua oferecem as irmãs, o marido que diz que tem uma moça muito bonita e no fim sabe-se que é a mulher dele, etc; mas todos dizem que é isso sempre. Tem aqui é que o povo napolitano é o + sem-vergonha do mundo. Os italianos dizem que a vergonha da Itália é Nápoles. Roubam como podem, e não sou quem os acusaria. Aliás, quando estive em Lisboa que não está em guerra, fiquei boba. Não se dá um passo sem que alguém não peça esmola. E me disseram que a prostituição lá é terrível, abundantíssima e desde a idade de 13, 14 anos. A guerra é boa talvez no sentido de chamar a atenção para certos problemas. Talvez incorporem estes na resolução de outros propriamente de guerra.

Em Roma está caindo um pouco de neve; eu não vi. Mas aqui o Vesúvio (Vesúvio – o único vulcão ativo no continente europeu, situado acima da baía de Nápoles, na costa oeste da Itália. Seu cume, embora variável, eleva-se a uma altura de 1.277 m.) está com o cimo coberto e ontem e hoje caíram aqui pequenos flocos. Eu não vi, mas Maury saiu hoje de manhã e trouxe embrulhado num pedaço de papel (!) uns pedaços de neve que parece gelo, com certeza já gelada, já meio derretida, e não muito branca. Amanhã de manhã vamos a um bairro onde talvez tenha neve. Disse que nesse bairro onde ele esteve hoje tinha uns dois dedos de neve no chão (conte isso a Tania).

Quanto a estudar canto, vou tratar disso. Quanto a cursos interessantes, desde que cheguei procuro me informar vagamente mas você sabe como são esses cursos, a maioria deles terrivelmente didáticos, terminando por dar caceteações e obrigações em vez de interessar realmente e dar prazer. Mas continuo + – em vista. E em vista também de alugar um rádio, se for possível encontrá-lo, tão difícil que é.

Agora me lembrei de uma coisa engraçada. Um amigo nosso em Argel achou a moça do restaurante muito bonitinha e perguntou-lhe se queria ir ao cinema com ele. Ela respondeu um pouco ofendida e muito digna: Pas moi, je suis vierge!

Não é tão engraçado? Ele disse que teve vontade de responder: C’est pas ma faute…


– Tudo está bem e eu gosto muito de vocês. Seja feliz, querida, sem falta nenhuma. E não tome água gelada. Um grande abraço de sua

Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Elisa Lispector

Nápoles, 13 agosto 1945

Elisa, queridinha:

Recebi hoje sua carta de 17-7-45 e de 21-7-45. Querida, fiquei muito amolada com a história do livro sair errado, me aborreci enormemente. Você não tem culpa porque é de esperar que uma editora boa como a Leitura faça bem uma revisão e tenha pessoal adequado para isso. Ainda mais rever 3 meses e não acertar! Mas não ligue muito, no Brasil a coisa + normal é o uso da errata. Eu, por exemplo, sempre descontei nos livros que lia os erros, nem ligava, porque sempre se sente quando é erro de revisão e tipografia. Revisão é um dos trabalhos + chatos do mundo, mais perigosos e cansativos, e não há escritor que não se queixe da revisão. Um dia desses estava lendo um livro francês, editado por uma das melhores editoras francesas, a NRF, e me lembro que disse a Maury: está inteiramente cheio de erros de tipografia, e isso me espanta nessa editora. Mas se entendia tudo e o livro afinal não perdia com isso, naturalmente eu sei o que há de aborrecido nisso. Sobretudo para quem o escreveu e tanto cuidou de escrevê-lo bem. Mas o leitor passa naturalmente por cima disso, sem sentir. Querida, como eu quero ler seu livro! Que horror esperar até que venha d. Zuza! não há nenhum jeito de mandar antes? fico impaciente, e quase ofendida pela demora como se a culpa fosse sua. É que pegarei no livro com enorme prazer. Talvez aconteça comigo o que aconteceu com você, que sentia dificuldade de dar sua opinião sobre meu livro porque estava perto demais de mim como irmã e “conhecida”. Como é a capa? Pelo menos me informe de coisas, já que não posso ver o livro agora: quem fez a capa? Quantos exemplares? E mil coisas + que eu quero saber e que você esquece de contar. Quantas páginas tem o livro? É capaz de você estar me achando boba por fazer essas perguntas quase materiais, mas isso me dá, na falta de melhor, a idéia do livro.

Elisa, eu tenho escrito várias cartas que não chegaram aí. Uma com fotografia na praia, vocês não acusaram e foi há muito tempo por portador, e não posso reclamar porque não o conheço. Outra foi com encomenda por um rapaz do Banco do Brasil: na encomenda mandei 2 canetas-tinteiro e mais outras coisinhas. Outra carta, grande, está retida em Roma, à espera da maldita mala que não está seguindo normalmente. E outra, com várias fotografias, não chegou a Roma e penso que esteja perdida. Essa história de ter que mandar carta para a embaixada em Roma pôr na mala e a história de ter que esperar que as cartas de vocês cheguem antes a Roma e sejam mandadas para Nápoles me irrita horrivelmente. Espero ansiosamente o dia em que as comunicações postais da Itália e com a Itália se regulem e eu desprezarei então essa mala. Imagine, em 12 a 15 dias receber carta de vocês, diretamente! Você vê que eu não peço muito, me parece um sonho o período de Belém, quando recebia carta às vezes em 2 dias. Cada vez mais, parece, o passado “foi” melhor que agora. Elisa querida, eu tenho a impressão de que no dia em que vier do Ministério um telegrama para Maury transferindo-o para o Brasil eu fico maluca. Penso que adiarei então a viagem por + duas semanas só para aproveitar da certeza de ir para o Brasil… Enfim, isso será daqui a 3 ou 4 ou 5 anos. Espero que 3. Conheci uma senhora austríaca, esposa de um diplomata brasileiro, que me disse que nunca passou + de dois anos sem ir à Áustria ver a mãe e as irmãs; só agora, por causa da guerra na Áustria mesmo, é que passou + tempo. Por aí você vê que é assim mesmo. No dia em que vocês me escreverem assim: Clarice, por que é que você não dá um pulo aqui? – eu ficarei feliz e irei. Porque eu tenho medo de vocês, da opinião de vocês, sou em geral tão anormal e ninguém me compreende apoiando, geralmente, de modo que se vocês me acusam eu não posso fazer nada, não tenho a quem recorrer para me defender…

– Não sei porque Joel Silveira foi anunciar que faria a reportagem sobre o livro de Mussolini, quando eu disse a ele que era pouco provável que eu o conseguisse. Certamente ele não anunciou a verdade e disse isso para você para que eu me sentisse comprometida.

Maury vai bem. Ele tem muito + do que eu, como é natural, o temperamento adequado para a carreira dele. Se eu não falasse em saudade, acho que ele não se lembraria muito de pensar nisso, se bem que goste da família como é de esperar.

Enfim, eu estou bem. Dilermando (As enormes dificuldades de transporte e a proibição de cachorros nos hotéis da Suíça impediram Clarice de levar consigo Dilermando quando se mudou para Berna. Dilermando é um dos personagens de A mulher que matou os peixes (Sabiá, 1968).), o cachorro, é uma delícia de cão e gosta de mim + do que a todos da casa. Me faz uma festa louca quando me vê de manhã, depois de uma noite de separação. Ele tem uma briga antiga com um gato das vizinhanças; mas o gato fica sentado olhando para ele com frieza enquanto Dilermando fica rouco de latir com medo de se aproximar. Dilermando come pão com manteiga, carne, arroz, macarrão, biscoito, chocolate, uva, melão, sendo que despreza um pouco as frutas. Quanto a fruta cristalizada, detesta simplesmente. Nós tivemos aqui uma empregada muito burra e medrosa; uma noite voltamos tarde e encontramos o miúdo Dilermando de pé mas sem conseguir dar uma “palavra” que não fosse cortada de três bocejos, o cachorro nem tinha força de fazer festas, e bocejava tão alto que parecia uma gaveta se abrindo. A empregada estava vitoriosa, a burra, e disse: eu não deixei ele dormir para montar guarda na casa! Só faltei dar nela de raiva, mas não disse nada, só rimos muito vendo o cãozinho que ela atiçara e que não tinha nada com a história, bocejando a ponto de molhar os olhos. Essa empregada é que disse à moça que trabalha no Consulado que eu lhe parecia um pouco burra…

Quanto ao mais, macarrão, macarrão, macarrão.

Minha querida, tenha uma boa vida, faça dieta. Tania está fazendo? Está bem de saúde?

Receba um grande abraço de sua sempre

Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Elisa Lispector, Tania Kaufmann

Washington, 10 maio 1954, segunda-feira

Minhas queridas,

Estou com uma carta de 2 de maio, sua, Elisa, e outra do dia 3 de maio, sua, Tania, para responder. Não sei porque estão demorando tanto a chegar: demoram às vezes oito dias. A sua, Elisa, com notícias ótimas sobre Genebra, que eu já sabia porque tinha saído no boletim da Embaixada – parabéns! parabéns! parabéns! E, com ela veio um recorte de Raquel de Queiroz. A sua carta, Tania, dá notícias boas de todos, e da possibilidade de um bom inquilino – em que ficou?

Hoje recebi o telegrama dando preço de passagem. Vou explicar porque mandei a pergunta. Nós vamos pela Aerovias, que nos dá desconto, mas várias pessoas começaram a dizer que ainda sairia mais barato ir pela Panamerican, se pagássemos no Brasil (com o preço fixo da passagem, mas não valor fixo do dólar, sairia muito barato). Cada um dizia uma coisa, e o homem das Aerovias esperando, e eu já chateada de mil cálculos que fiz. E a coisa ficando urgente; então o único modo era saber quanto era em cruzeiros o total das passagens. Foi ótimo eu perguntar, apesar do trabalho que dei, porque assim ficamos sabendo que, mesmo pago no Brasil e mesmo com um câmbio favorável de dólar, ainda sai mais barato na Aerovias. Queríamos evitar Aerovias por causa da baldeação em Miami e consequente desconforto com duas crianças. Mas vamos mesmo assim, pois representa um bom desconto. De modo que amanhã mesmo vai o dinheiro para Miami e teremos as passagens conosco, e o problema, se Deus quiser, resolvido.

A comida de Paulinho seguiu, como já lhes disse, por um senhor. Vou em breve mandar o telefone dele, para uma de vocês telefonar e perguntar se ele já desembaraçou a bagagem e se já está com as duas caixas em casa. Então vocês, por favor, me avisarão imediatamente, para assim eu ficar descansada sobre esse ponto, e saber que o homem não perdeu os caixotes ou coisa que valha. Não quero de modo algum mudar a alimentação de Paulinho nesses dois meses de Rio.

Estou escrevendo esta carta para você, Elisa, sem saber a mínima se você já não partiu para Genebra. Mandarei para Marquês de Abrantes.

Estou muito atrasada com a correspondência com vocês porque estive muito ocupada. Recebi as provas da tradução de P.C.S. (Perto do coração selvagem foi traduzido pela E. Plon, em 1954.), já em certo tipo de papel que Érico reconheceu como sendo papel definitivo: isto quer dizer, minhas correções devem ter ido tarde demais. E foram tantas correções que eles teriam que refazer toda a paginação etc. etc. Se já chegaram tarde demais, é melhor eu esquecer o caso, se não quiser me aborrecer seriamente. A conselho de Érico, mandei uma carta dizendo que a “tradução era escandalosamente má” etc. que preferia que o livro nunca fosse publicado na França a sair como está, sem correções. E mandei exemplos dos erros de tradução. Esse trabalho me levou cerca de dez dias, trabalhando muitas vezes até duas e tanto da madrugada, pois fui obrigada até a escrever em francês. Para vocês terem uma ideia da tradução, eis alguns exemplos: em português, “ao fim de alguns instantes, as chamas subitamente reanimadas”, foi traduzido: “ao fim de alguns instantes, tudo o que nela o chamava, se acordou” (com certeza a tradutora vendo “chamas” achou que se tratava do verbo chamar). Onde ponho: “o pai estava despenteado”, a tradutora põe: “o pai estava sem fôlego”. Ondo ponho: “ela temia continuar ao lado de Fulana”, a tradutora pôs: “repugnava-lhe estar” etc. Eu escrevi no original: “Fiquei tonta, disse ela”. A tradutora traduziu: “Fiquei estúpida, disse ela”. (A tradutora deve conhecer melhor o espanhol e tonto em espanhol quer dizer mais ou menos estúpido). Escrevi: com suas olheiras negras… Ela traduziu: com seus óculos escuros… O livro está todo assim, e em muitos trechos perde totalmente o sentido. Uma noite, à meia-noite mais ou menos, eu estava tentando ler e corrigir, quando deparei com uma brutalidade de tradução, tão forte, tão inesperada, que, sozinha, mesmo, ri a ponto de chorar. Imaginem que escrevi, em má hora, no original: “a boca em forma de muchocho”. E sabem como ela, toda engraçadinha, traduziu: Assim: “la bouche en cul-de-poule”. Que tal? Quando escrevo a palavra “porcaria”, ela traduz por “excrementos”, mesmo quando não é o caso. Sem falar em liberdades engraçadas que ela tomou. Eu escrevo “a criada” e ela traduz: “a criada preta” – sendo que em nenhum pedaço do livro se fala em nenhum criado negro. Enfim, estou procurando passar por cima desse aborrecimento e esquecer. Parece que é tarde demais, que não vão poder fazer nada. Então vou procurar esquecer que o livro foi traduzido.

Continuo pedindo que me façam agora as encomendas – porque vocês não respondem?

Tudo bem aqui, Paulinho ótimo mas sem pronunciar uma palavra inteligível, já estou meio impaciente. Pedrinho está bem, provavelmente em muito breve deixarei de ir ao “Child Center”. Maury sente-se ótimo com a dieta em que não entram frituras. Dizem mesmo que todos deveriam se alimentar assim. Tudo o mais bem, a viagem já não está tão longe.

Um beijo para vocês.

Clarice

Tania, você já recebeu os folhetos do Department of Labour?

Tania, que posso levar para William?