Caderno “The question is”

Caderno “Estar mortas ou ser o mar”

Caderno “Era nesse sentido”

Uma (outra) possível ordem

A transcrição da caderneta “Era nesse sentido” se deu durante o primeiro semestre de 2020, em paralelo ao agravamento da pandemia de COVID-19; sendo assim, por motivos de segurança, o processo de consulta ao documento precisou ser feito virtualmente. A princípio, dividi os escritos em três partes: a primeira continha pensamentos que se iniciavam e findavam abruptamente no espaço de uma única página, sem aparente conexão com a anterior ou com a seguinte; a segunda era composta por anotações corriqueiras, um endereço, uma frase curta; e a terceira parte, um curto diálogo que levava a uma introspecção. Apesar de já familiarizada com a escrita fragmentária de Clarice Lispector, percebi que ali, dentre os escritos da primeira parte, havia uma coerência, porém as ideias que a autora explicitava pareciam traçar o caminho inverso de sua intenção. Me deparei, então, com uma imensa barreira levantada pelo trabalho de digitalização: esse meio saciava o olhar, mas deixava de lado o tato. Na tentativa de recriar o manuseio do documento físico, reproduzi a caderneta em casa, com papel, caneta e grampos, o que me permitiu observá-la de vários ângulos e, por fim, folheá-la de trás pra frente. Foi assim, mimetizando os prováveis gestos da autora, que vislumbrei a possibilidade de as duas últimas partes do documento terem sido redigidas a partir do meio da caderneta, respeitando o sentido proposto pela capa. Para escrever a primeira parte, no entanto, Clarice teria virado a caderneta de ponta-cabeça, percorrendo o caminho contrário, iniciando seu texto no meio da caderneta e concluindo-o na primeira página — por mais abstrato que pudesse ser seu pensamento (e até mesmo sua forma de tomar notas), existia ali certa ordem. Ela é apenas uma sugestão, uma (outra) possível ordem, das muitas de se ler um original de Clarice.

Por Clara Pereira


*

[págs. 9-2]

Ele sentia que nunca nenhum ato o simbolizara. sua íntima unidade nunca se esfacelara ou se entregara como unidade. O que um homem era estava aquém de sua vida. E que a humanidade era uma abstração.

Mas a comunicação não [adiantava]. No fundo mesmo, ele não a queria. Já experimentara mil vezes a comunicação, e era sempre alguma coisa de seca e consciente. Com amigos: [conversavam], [conversavam], e se por um momento se diziam alguma coisa importante logo o notavam, os olhos piscavam. Não a respeito tot da própria coisa supostamente, mas a respeito de um modo consciente, com pudor [mútuo] a respeito do fato de tocarem em coisas importantes. Muitas amizades suas tinham secado por causa de um momento essencial e da espécie de repulsa que se seguia.

Não parecia “natural” — e no caso “natural” era o antônimo de “pervertido” — não parecia natural que pessoas se compreendessem com a consciência e a cabeça. Era um contato errado, provocava uma aridez, um curto circuito! A comunicação tinha que ser entre alguém que não fosse perturbado pela consciência do outro. E esse outro, sem consciência, teria em si mesmo apenas uma sensação de “abrigo”.

O que tinha consciência não seria perturbado na criação, teria não teria um inimigo — e poderia usar inclusive dos fragmentos que são necessários para que se seja verdadeiro. não teria ninguém que percebesse esses fingimentos e cortasse a corrente de vida com uma atenção má. E o outro? O outro seria o que teria seria alertado. O outro Receberia a comunicação como se a recebesse da natureza, de um lago, de uma floresta! Esse outro seria o ser propriamente [vivo].

Era nesse sentido que G. não procurava nunca os seus “iguais”. Ele desprezava os seus iguais como fonte de vida.

[págs. 11-14]

– Eu deixo o leite cozinhando até que ele fique grosso — então tomo — como um creme.

– Isso é pura sensualidade!. riu-se ela referindo-se mais ao tom com que ele fala[r]a, do que à própria frase. logo depois de falar, arrependeu-se ligeira, porque havia palavras que, pronunciadas, criavam uma atmosfera falsa, como se abrigasse a [deveres] ou a atitudes. “Sensualidade” era uma dessas palavras ambíguas. Ele notou a palavra com um piscar mais rápido de olhos mas pulou por cima da própria perspicácia e continuou falando. No entanto estava mais alegre. Pareceu-me estranho e indiferente. Pareceu-me uma pessoa que soubesse muito bem como as coisas acabam. Não podia escapar da ordem do dia — cada hora parecia impor-lhe uma atividade e nenhuma deixava-o livre. Essa impressão era tão de estar preso ao destino era tão forte e real que, olhando a manhã, parecia surpreender-se de que tanta inefabilidade e graça pudessem ser correntes.

De: Clarice Lispector
Para: Elisa Lispector, Tania Kaufmann

Berna, Franenspital – 21 setembro 1948

Minhas queridinhas,

Por enquanto as cartas vão em conjunto porque escrever deitada é às vezes cacete. Recebi suas duas cartinhas, Lea, e finalmente a sua Naninha. Desculpe ter obrigado você a gastar dinheiro com telegrama. E suas cartas, Elisa, primaram pelo silêncio a respeito. Preparei, num momento de febre e raiva, uma carta para vocês que felizmente não mandei. Eu avisava que só escreveria muito raramente, que estava cansada de ser o cachorrinho da família. Que durante 4 anos implorou uma notícia para recebê-la apenas depois de 5 ou 6 cartas vazias de vocês. Dizia – e é pura verdade – que tive que pedir a você, Elisa, em mais de dez cartas para me informar sobre o concurso e o resultado, mas que isso parecia ser assunto tão privado que só depois de eu implorar você resolveu ser indiscreta em alto grau e me dizer que ainda não sabia do resultado. Parece absolutamente incrível! A você, Tania, escrevi cartas ridículas. Sei quanto isso é importante e estava ansiosa. Pois escrevi umas 3 ou 4 cartas para finalmente ter resposta. Quero sinceramente dizer a vocês que isso me feriu muito, especialmente agora depois do parto, na casa de saúde. Não digo que eu poderia me vingar e não mandar notícias – não digo isso porque seria ridículo imaginar que vocês se incomodariam. Não adianta protestarem. Se vocês se incomodassem entenderiam que não podem fazer o mesmo comigo.

Passado esse período de queixas, minhas queridas, quero dizer como gostaria que vocês vissem Pedrinho. Ele é tão engraçado. Não é bonito (os outros acham, eu não propriamente) mas é tão engraçadinho. Tem os olhos escuros, meio achinesados, um nariz de batatinha – e está com um calo nos lábios porque agarra a mamadeira com muita força… É um comilão. Não tem nenhum defeito, é sadio, redondo, gozado, muito parecido com Maury. Eu mesma ainda estou no hospital, mas vou bem melhor. Tenho um pouco de febre mas não é nada e já está diminuindo. As dores também já estão diminuindo. E estão me fazendo um enérgico levantamento de forças – injeções de vitamina na veia, fortificantes, mil coisas. Estou passando realmente bem melhor e espero não ficar aqui mais do que uns 8 ou 10 dias ainda. Talvez até menos. Quanto a Maury, poucas vezes na vida tenho visto pessoa igual. Ele é tão bom para mim, pensa em tudo, tem uma paciência enorme comigo e me cerca de tanto carinho e cuidados que eu nem mereço. Espero nunca na vida feri-lo em nada. Não é só porque ele tem sido assim que eu digo. Em relação a tudo, ele é das pessoas mais puras que conheço. Eu não poderia ter um pai melhor para meu filho.

Já estou tão arrependida de ter escrito duramente para vocês no começo da carta. Mas vocês me fizeram sofrer muito. Tania, na sua carta você diz que eu devo estar em casa em trabalheiras com o bebê. Mas vocês então não sabem o que é uma nurse suíça. Uma nurse suíça é uma enfermeira diplomada que se encarrega de tudo, tudo – e que não deixa a mãe dar opinião demais. No contrato já impresso vem que ela pode chamar médico sem consultar os pais. E coisas do gênero. Naturalmente estarei sempre de olho nela, não só vigiando como aprendendo. Mas pode-se entregar perfeitamente uma criança aos seus cuidados e ir viajar. (Não farei isso senão se for muito necessário ou depois de conhecer bem minha nurse.) Pedrinho é de boa paz, ao que parece. Mas com mãe tão chata, é melhor ele ser criado por pessoa pacífica, que lhe dê bons hábitos e bons nervos, vocês não acham? Maury está muito contente com o menino. Como lhes disse, ele nasceu com grande cabeleira negra, fizeram chuca-chuca desde o primeiro momento. Os olhinhos são muito vivos, tem um choro muito forte, parece de um marreco chamando outros marrecos num rio. Tem as mãozinhas muito bonitinhas. E dois respeitáveis pares de bochechas, um queixo meio pontudinho, o lábio superior mais saliente que o inferior. As orelhas são coladinhas na cabeça, por enquanto. E de vez em quando ele suspira… Enfim eu gostaria de partilhar com vocês as alegrias das caretas de Pedro. Marcinha recebeu minha carta de aniversário? Como recebeu ela a notícia de Pedro? Me escrevam por favor. Se tiverem vontade. De agora em diante só escreverei em resposta a cartas. Não se preocupem com minha saúde, afianço a vocês que agora eu não podia estar melhor. Mil abraços,

Clarice

Não estou amamentando. Tinha muito pouco leite também porque passei muitos dias sem comer nem beber. E ainda tiraram o leite que eu tinha, impedindo de vir, acho que para não me cansar. Mas Pedrinho não precisa. 

De: Clarice Lispector
Para: Elisa Lispector, Tania Kaufmann

Berna, 11 [de] setembro [de] 1948

Minhas irmãzinhas queridas,

Vocês devem ter recebido o telegrama de Maury – Pedro nasceu ontem, dia 10, às 7h30 da manhã. Estou escrevendo na madrugada de 11, porque não posso dormir direito. Estamos muito contentes, Maury e eu: a criança é sadia, fortona, pesa uns três quilos, seiscentos – por enquanto é a cara do Maury… Eu sofri muito. O médico achou que o bebê estava tardando e eu me internei no hospital no dia 9 de manhã. Eles começaram a provocar as dores por intermédio de injeções. Às 2 horas da tar­de comecei a perder as águas e às 2 ½ as dores se instalaram. Sofri de 2 ½ do dia 9 até 7 e pouco do dia 10. Mas apesar das dores fortes e frequentes a dilatação, não se sabe ainda por que, não se fazia. Então o médico resolveu fazer cesariana. Não se assustem, correu tudo bem. Só que na hora o médico e as enfermeiras não estavam com boa cara, estavam meio impressionados. Eu disse que se fosse questão de espe­rar e sofrer ainda, eu esperaria, contanto que a criança não corresse perigo. Mas o médico disse que a criança estava correndo perigo se não nascesse logo, porque ele não conseguia adivinhar os motivos da demora; que minha bacia era bastante larga e que a criança estava em boa posição. Maury e eu assinamos um papel dizendo que estávamos de acordo e éramos responsáveis. Toda essa encenação necessária nos custou muitos nervos. Às 7 horas o médico resolveu operar, às 7h15 me botaram a máscara de gás e às 7 ½ o Gildinho nasceu – nasceu tão vivinho e alegre… O mé­dico disse que mal abriu minha barriga, o menino deu pulinhos e chorou: que o pri­meiro choro dele foi dado dentro de mim ainda… Passei depois um mau pedaço com a anestesia – vomitando e cada esforço de ânsia era uma dor. Agora estou com um pouco de tosse e cada tosse é uma dor… Maury está dormindo no quarto, exausto.

Dia 13 – Minhas queridas, estou muito bem: o médico diz que estou ótima. Não te­nho mais febre desde ontem e hoje já tomei um caldo de arroz que me deu muitas forças. Francamente eu não podia estar melhor. Pedrinho é tão engraçado, não acho ele muito bonito, mas é uma bola. Tem cabelos (enormes) negros, olhos escuros, um nariz por enquanto meio batatudo, umas bochechas enormes e uma boca de bico de passarinho, e os dedos compridos. O ar todo é de Maury. É uma criança muito gostosa. Reli a parte escrita na madrugada de 10 para 11, às 3 horas da manhã, e Maury leu – fica­mos bobos como a carta está lógica e direita, não parece que eu estava sob a narcose ainda. Maury diz que só se explica uma carta tão clara em tal momento porque era dirigida a vocês – desde o começo a minha preocupação era vocês. Pedrinho manda um beijo para tio William! E manda dizer a Marcinha–querida que pertence a ela, que ela vai brincar com ele quanto quiser e que ela é dona do bebê. Maury está contentíssi­mo. Ele passou maus momentos. Quando disseram que a criança tinha nascido ele me perguntou se era menino ou menina. Quando acordei da anestesia ele me mostrou a criança e eu disse que ela tinha cara de chauffeur de táxi e que era feia. Maury parece que ficou triste e custei a convencê-lo de que eu falara ainda narcotizada.

Leinha querida, recebi hoje sua carta do dia 8, foi tão bom ouvir qualquer coisa de vocês, mesmo anterior ao nascimento. Vocês receberam o telegrama que Maury passou, não? Foi o primeiro que ele mandou porque sabia como eu estava ansiosa que vocês soubessem. Ainda não se sabe se vou ter leite porque com cesariana de qualquer modo demora a vir. Maury tem sido tão bom e carinhoso, tem dormido aqui todas as noites, apesar de eu já poder dispensar. Mas hoje ele vai para casa. Minhas irmãzinhas queridas, estou com saudade de vocês. Vou ensinar Pedrinho a gostar de vocês tanto quanto eu gosto. Ele se chama também Gildo, porque é muito glamoroso. E também se chama Kina-Redoxon, que é o nome de um bom remédio contra gripe. Um beijo grande para a Filomeninha. Um abraço forte em William.

O meu amor para vocês.

Clarice

P.S.: Aí vão dois instantâneos de Pedrinho no segundo dia, para vocês.

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 22 outubro 1948

Minha florzinha,

Recebi sua carta de 15 e ao mesmo tempo uma de Bluma que me fala no jantar e diz que você “estava muito bonita”. Fico logo com mais saudade. Querida, você está com o cabelo curto? Mande um retrato assim. Eu estou com o cabelo enorme, pretendendo cortar e ondular embora não saiba se me fica bem. Mas estou já cansada de minhas hesitações, que já me trouxeram bastante aborrecimento. Tenho sempre que me lembrar que tudo que consegui na vida foi à custa de ousadias, embora pequenas. Quando a gente cai nessa atmosfera de indecisão, se sente perdida. Resolvi mudar a nurse (que é a maior chata do mundo, e ciumenta ainda por cima); a resolução veio depois de dias de tortura mental e afinal resolvi arriscar e pedir outra à Aliança das Nurses. Pois se eu tivesse hesitado umas horas a mais teria perdido uma ótima que serve na casa de minha amiga argentina (esta vai embora para a Suécia, para a minha tristeza, pois era a minha amiga aqui). A nova nurse vem em novembro e é perfeita e tem ótimo temperamento. Também quero lhe falar de minhas outras hesitações, talvez de algum modo lhe aproveitem.

– Querida, há quanto tempo não tenho um retrato de vocês! Porque não tira alguns? Ontem um brasileiro de passagem tirou fotografias em cores de Pedrinho conosco – estou ansiosa para saber se são daquelas que se podem copiar ou se saem em placas (nesse caso não se podem mandar). As fotografias que mando aí para vocês (mandei para Elisa as mesmas, mas estou com ideia de que tem alguma diferente, verifiquem) não são justo de um mês, porque no dia 10 não havia muita claridade.

Querida peço-lhe o grande obséquio de não se perturbar em me dizer que não gosta do meu livro. Eu mesma não estou satisfeita com ele, apesar de ter sentido a necessidade de escrevê-lo – gosto apenas de certas partes, o que infelizmente não desculpa o livro todo. Passe depois o livro para Lucio. Na participação de nascimento dei uma palavrinha sobre ele, de modo que o aviso foi mais ou menos feito. – Mande retratos de Marcia. E me fale na possibilidade de você vir nos visitar aqui – você recebeu minha carta sobre o assunto? Receba um beijo, querida, e seja feliz, tranquila e com saúde.

Sua Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 6 julho 1948

Minha queridinha pequena,

Você soubesse que emoção boa foi a de receber os presentes pro bebê! Posso te dizer que recebi coisas de outras pessoas e que classifico de “frias” as emoções ao recebê-los – comparando-as com as que experimentei quando recebi o joguinho de cama e a camisola. São umas delícias de delicadeza e bom gosto e intenção. Imaginei a criança usando aquilo tudo – e mais – vocês pegando nela. Muito obrigada, minha Naninha, pela delicadeza da escolha. Os bordados são finíssimos e com cara de bebê… – Se eu pudesse escolher a época de você ganhar na loteria, querida, eu pediria que isso acontecesse depois da criança nascer. Porque vir à Europa para entrar e sair em casa de saúde, e para só conhecer Berna, é pouco. Quero que você ganhe na loteria e venha para cá quando eu puder ir com você a Paris e mostrar coisas a minha irmãzinha. Te adoro, querida, Deus te abençoe e te dê alegrias. – Não cheguei a ver o sr. Koogan. Ele me telefonou de Montreux dizendo que pretendia vir até Berna e então me daria pessoalmente a encomenda de vocês. E que se não pudesse vir, me telefonava e me mandava ao mesmo tempo o embrulho pelo correio. Ora, ele não me telefonou, só me mandou. E como eu esperava que ele me telefonasse de novo, não tomei nota do hotel em que ele estava (minha memória está meio ruim e só anotando as coisas consigo me lembrar delas). Não sabendo do hotel dele não posso aproveitar a gentileza com que me ofereceu de levar coisas para vocês. Quem sabe se ele ainda me telefona.

Está pela Suíça um colega de Maury que vai para o Brasil. Estou vendo se ele leva meu livro. E, conforme a cara dele no momento de lhe pedir esse favor, pedirei que leve ao menos um chocolate para Filomeninha querida. – Não sei se você sabe que a Agir não quer ou não pode publicar meu livro – o fato é que a resposta foi negativa. De modo que estou sem editora. Estou com vontade de mandar por esse rapaz o livro para o Brasil. Você dê ao Lucio para ler. O que eu quero é que este livro saia daqui. Melhorá-lo é impossível para mim. E, além disso, preciso com urgência me ver livre dele. Quando você der o livro ao Lucio, não fale nele arranjar editora. Eu mesma escreverei talvez uma carta dizendo. Nem tenho coragem de pedir a você que o leia, querida. Ele é tão cacete, sinceramente. E você talvez sofra em me dizer que não gosta e que tem pena de me ver literariamente perdida… Enfim, faça o que você quiser, o que lhe custar menos. Espero um dia poder sair deste círculo vicioso em que minha “alma” caiu. – A Agir já me pediu duas vezes a cópia do contrato de O lustre. Você a tem? Quer mandá-la à Editora? – Mozart, Eliane e a criança tiraram férias e passaram por aqui. Eliane e a menina seguiram logo para a montanha e Mozart ficou umas duas semanas conosco, ele parte amanhã.

– Eu estou bem de saúde, só sofro de um ardor danado no estômago…

Estou com 70 quilos… Mas não pareço gorda. Acho que esse peso todo vem em parte de mim, em parte da criança e em parte do “enxoval” que uma criança traz consigo: águas, placentas etc. O médico disse que estou muito bem, que a criança está se desenvolvendo muito bem e que tudo está completamente normal. Aí vai um retratinho que um inglês tirou de nós há poucos dias. Nele estou um pouco favorecida… Mas pelo menos vocês veem que estou bem. O retrato foi tirado num passeio a Interlaken. – Até não me incomodo por você não ter mandado o bolo… Porque eu acharia até sacrilégio comê-lo. Certamente acordaria de noite para comer os farelos. Minha queridinha pequena, minha florzinha do campo, Deus te abençoe. Cuide-se bem, minha irmãzinha, nunca deixe que o cansaço tome conta de você, nunca se deixe levar por nenhuma depressão. Seja alegre, seja feliz. Faça higiene mental e moral, não se deixe abater por chateações de empregada nem por chateações de trabalho. Sim, querida? Também não se preocupe comigo: estou bem, tudo se passará perfeitamente, com todo conforto, médico bom, clínica boa. De modo que não há mesmo por que se preocupar. Nem me ocorre medo de parto ou de dor. Fique descansada.

Me dê um abraço, querida, seja muito feliz. Dê um abraço para William, um beijo na Marcia. Diga a ela que o bebê manda um beijo.

Sua, sempre, Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 21 [de] fevereiro [de] 1948

Tania, minha filhinha querida, minha bonequinha,

Recebi sua carta com os retratos de Márci – um pouco atrasado porque estava em Saint-Moritz. Quando abri e vi Marcinha, meu coração se aqueceu de carinho. Nunca vi criança mais bonita! Como há muito tempo não via os retratos, no fim eu já me perguntava se não teria sido de amor que eu achara a menina a mais linda e querida do mundo. Mas quando revi os retratos, não tive a menor dúvida. Andei mostrando os retratos a todo mundo e todos riam de gosto de ver uma criaturinha tão maravilhosa. E tão esperta. Pois com quatro meses a expressão do rostinho dela é esperta demais. E com nove meses ela está toda em pezinha e caindo na gargalhada. Olhei para os retratos não sei quantas vezes. Vou ver se mando tirar uma cópia ou duas, pelo menos do maior.

Querida, você não imagina que pavor eu tenho de que a criança a nascer tenha a cara de… dona Zuza. Evito de olhar para esta, com medo. Eu sei que é um sentimento feio: mas se a criança nascer pa­recida com a família de M[aury] tenho a impressão de que meu des­gosto vai ser enorme. Ando tão impressionada com essa possibilidade que vai ver que acontece mesmo. Não me canso de olhar a carinha adorável de Márcia. Mas suponho que não adianta: sei bem que não há influências desse gênero. Mas me agrada enormemente olhar. Às vezes fico pensando em mim a chegar no Brasil com um bebê com a cara de dona Z., mostrando a criança para vocês com que vergonha! Imagino que você esteja rindo agora e eu também estou… Lembra do bebê com cara de chauf­feur? Pois é.

Tenho ido uma vez por mês ao médico. Ele me achou muito bem. Não me deu nenhum regime alimentar. O enjoo, que não era muito, já desapareceu totalmente. Ah, minha filhinha querida, minha alminha, há certos momentos em que a saudade dói fisica­mente. Que vontade que eu tenho de te ver, de beijar tuas mão­zinhas queridas. Você não me respondeu quanto a um nome para menina. Para menina é mais difícil escolher um nome. Se minha impressão é de que vem um menino, acho que preferia uma menina.

Tania, por favor, por favor, minha filhinha, cuide-se muito, não se canse. Se você soubesse quanta força eu mando para vo­cê em pensamento. Imagino que vida afobada tem sido a sua. Mas não é possível ter um método? Não é possível arranjar um jeito de tudo andar melhor? Minha querida, você nunca fala de você, você nunca diz nada propriamente de você. Fale comigo, queridinha, me escreva sobre você, me diga o que você pensa, o que você faz. Te adoro tanto.

Ontem Mariazinha me perguntou o que eu faria se ganhasse mil contos. Ela disse que eu comecei a ficar com cara de homem de negócios, uma cara meio áspe­ra enquanto distribuía o dinheiro… Ela me deixou dar uma casa para Marcia, outra para você, outra para Elisa, e vocês virem para cá, e mil coisas. Só depois ela disse rindo que o dinheiro certamente não daria. Por falar em casa: a que você estava tratando para vocês em que ponto está? Você só falou por alto. Escreva respondendo. Se você não responder às minhas perguntas, tenho que recomeçar o sistema de numeração, que é aliás ótimo.

Quanto ao apartamento para nós, não sei como será. No Brasil Maury ganha cinco contos. Ele tem cem con­tos no Brasil e mais nada. Um apartamento grande não se pode comprar porque os cem contos serviriam, suponho, apenas de entrada. E no Brasil ficaríamos pagando por mês o resto. Ora, com cinco contos não dá para despender mensalmente uma grande quantia. Acho que o melhor seria um apartamento qual­quer, pequeno, que se pagasse logo todo ou quase todo – contanto que não se tivesse que alugar um caro, com luvas etc. – e mais tarde, se se quisesse, ou melhor, se se tivesse dinheiro, podia-se revender e comprar um melhor.

Em todo caso eu gostaria que não fosse em Copacabana, porque é um inferno viver lá, não se tem um instante de sossego, a rua fica chamando, as pessoas idem, os bares idem – é uma vida de praia, ótima para estrangeiro ou milionário ou vagabundo. Me diga sobre o livro de Elisa, não sei nada, só que o Pongetti vai editar. E o concurso para o Senado quando é? Ela está forte de saúde? Não está nervosa? Realmente está sempre entrando em coisas difíceis e trabalhosas, mas no fundo tem bem razão. Só tomara que ela entre no Senado, por causa do ordenado e das férias maiores. Quanto ela ganharia?

Tania, minha irmã, Deus te abençoe, e te dê felicidade e alegrias, e bem-estar e tranquilidade, mui­ta saúde, muita saúde, muita saúde – e muita felicidade para Marcinha querida. Cuide-se, repouse, e seja linda, e cuide de sua graça, de sua beleza e de sua elegância. Dê um grande abraço para William. Ele continua bonito? E receba um grande abraço de amor e de saudade.

Sua Clarice

28 de fevereiro – Pensei que tinha mandado a carta, e não era verdade. Desculpe o atraso. Dona Zuza partiu hoje para Gênova com Maury. Ela embarcará amanhã, parece. Ela leva umas lembrancinhas para vocês. Não ligue para as cartas irritadas que escrevi de Saint-Moritz. Naturalmente ela é chata, mas eu sou muito mais. Tiramos retratos, mas, querida, eu saio sempre com cada cara, que não convém sequer mandar. Já tentei tirar mil retratos para mandar para vocês, e não é possível. Saio sempre terrível – e não é por vaidade que não mando. É para não dar a impressão de que sou um fantasminha. Quando tiro retrato com Maury, tenho que nos separar com uma tesoura, porque pelo menos no retrato pareço mãe dele.

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 22 outubro 1947

Minha queridinha,

A máquina está se consertando, tenho que escrever cuidadosamente à mão, o que detesto. Querida, florzinha, você está bem então? Com saúde? Está fazendo algum tratamento?

E Elisa com o concurso? – Fiquei contente em saber que Marcinha quer estudar até atingir o minueto… E falando em música, temos uma vitrola! O tio de Maury, quando passou por aqui, nos ofereceu, como presente de casamento um bonito relógio. Mas achamos que preferíamos uma vitrola – e compramos. Pode ser que isso não seja bonito, mas é bom.

Tem havido almoços etc. Hoje mesmo vai haver na Legação uma espécie de recepção, onde Felícia Blumental vai tocar compositores brasileiros. Maury vai bem. Engordou bastante nesses últimos tempos, trabalha bastante, está de um modo geral satisfeito. Gostou muito da viagem à Espanha, e nem se cansou de guiar tanto. Ele está e é muito bom. – Rosa continua um anjo. Hoje ela disse que não queria “estar na pele” de uma certa vizinha nossa, que é muito sem-vergonha. Perguntei se ela gostaria de estar na pele de outra pessoa qualquer. Para meu encabulamento ela disse que gostaria de estar na minha. Nem perguntei porque, pois fiquei inesperadamente envergonhada.

Ela, que me vê desde manhã até de noite, e assiste meus maus humores e minhas tristezas, mesmo assim aceitaria ser eu… Acho, pois, que não me resta senão querer ser eu mesma – o que já está ficando bastante chato, diga-se de passagem…

Estou com o livro, por assim dizer, terminado. Deus sabe que ele não vale nada, querida. Creio que nuns dois meses posso dá-lo por encerrado. Acontece que vou encerrá-lo porque já tenho nojo dele. Foi o trabalho que mais me fez sofrer. Já são três anos que viro e mexo, abandono e retorno. E faz apenas uns 3 meses que sei afinal o que eu estava querendo dizer nele… Esse livro foi mil vezes copiado, destruído, renascido, sei lá. Um dia desses, pegando numa das cópias mais recentes (bem diferente da de agora) – me deu náusea física à medida que me lembrava de como sofri por cada pedaço daquele e de como depois eu via que não prestava. Tive que não pensar nele durante dias – porque persistia em mim esse curioso nojo da dor. Enfim, querida, o livro não presta. Não evoluí nada, não atingi nada. Continuo com os pés no ar, continuo vaga e sonhadora, deslocando de algum modo o sentido da vida. Que Deus me perdoe. Três anos – para chegar a isso. Virei e revirei tanto o livro que já não entendo o seu sentido. Dá vontade de gritar de tanta impotência. Em todo esse período de 3 anos, desempenhou grande papel minha desadaptação. Parece, queridinha, que estou agora me habituando; tenho estado mais alegre e mais conformada, e mais capaz de me dominar e de abafar sonhos inúteis. Mas posso dizer que desse perído me ficou mesmo uma repugnância de sofrimento, como se tem repugnância de ferida que não cura. Não sei o que fazer com o livro, Tania. E estou lhe pedindo conselho. Não adianta me dizer que devo deixá-lo de lado e revê-lo mais tarde: ele está podre nas minhas mãos, e cada vez mais me afastarei dele. Embora esteja tão ligada a ele, que sou incapaz de começar outra coisa. Naturalmente você há de perguntar o que diz Maury. Maury uma vez começou a ler e não gostou (ele, à primeira leitura, também não gostou do 1o nem do 2o livro, no que teve razão). Deste aqui não só ele não gostou, como se desinteressou de tal modo que só leu umas 15 páginas, e esqueceu de ler o resto. Nem aliás me pediu mais. Compreendo muito bem. Naturalmente a semana que se seguiu a esse incidente sem importância foi muito ruim para mim; guardei o livro “para sempre”. Mas, com uma constância que até parece leseira, voltei de novo a trabalhar nele; parece que sou incorrigível. Maury teve razão: o livro não presta. Mas o que é que eu devo fazer? Não sei. Mandá-lo, depois de definitivamente copiado, para você e Lucio lerem? Diga, por favor, querida. (Se não digo também para Elisa ler, é que ela tem tanto escrúpulo num caso desses, que não vale a pena provocar nela um problema.) Me escreva, querida, diga o que você pensa.

Enquanto isso, aquele rapaz, que está em Genève, está completamente neurastênico. Parece mesmo que acorda de noite para chorar… Não diga a ninguém, naturalmente. Parece que ele vai mesmo para uma casa de saúde. Em parte, deve ser porque ele esteve doente, e isso o deprimiu. Mas acho que em grande parte, isso vem do desenraizamento dessa vida no estrangeiro. Nem todos são bastante fortes para suportar não ter ambiente propriamente, nem amigos. Cada vez mais, admiro papai e outros que, como ele, souberam ter “vida nova”; é preciso ter muita coragem para ter vida nova. Nessa carreira se está completamente fora da realidade, não se entra em nenhum meio propriamente – e o meio diplomático é composto de sombras e sombras. É considerado mesmo de mau gosto ter um gosto pessoal ou falar de si ou mesmo falar de outros. Ninguém se dá propriamente com um diplomata; com um diplomata, se almoça. Isso tudo – e mais o conforto, as facilidades e a instabilidade – faz com que eles se considerem à parte e acima dos outros. Assim um deles disse, falando de uma moça: “ela não casou bem: casou com um simples médico…” E mesmo ele uma vez se queixou ao tio de Maury de que trabalhava demais e estava se esgotando. O tio de Maury, que é homem misturado com a vida, perguntou quantas horas ele trabalhava. Resposta: umas 4 por dia, e muitas vezes menos… O homem caiu na gargalhada! Porque ele mesmo trabalha mais de 8 horas por dia, e tem responsabilidade direta, tem assinaturas, despachos de navios, e também dinheiro a perder. E não tem tempo de ter a horrível depressão moral de M.

Acho que falei demais, querida. Espero que você tenha tido paciência de ler até o fim…

Peça a Marcinha para me escrever uma carta. Ela está me “devendo” resposta… Diga sobre o concurso de Elisa. Como vai William? Mande notícias dele, sim? Sobre saúde, trabalho.

Minha irmã querida, Deus te abençoe e te dê muita saúde e alegria.

Clarice 

De: Clarice Lispector
Para: Tania Kaufmann

Berna, 2 janeiro 1947,
quinta-feira de noite

Tania, queridinha,

Depois de falar com você no dia 31, recebi de manhã, no dia 1o de janeiro de 1947, uma carta sua (aquela com recorte de artigo de Antonio Candido, no O Jornal, 15 dez.; nota no Correio da Manhã, 15 dez., sobre os melhores livros de 1946; a entrevista da sra. Leandro Dupré, na Revista da Semana). Na sua carta, por distração, você me mandou também uma folha em branco, junto das escritas… Minha queridinha, eu estava tão nervosa antes de falar; e foi tão bom, ouviu-se tão bem, tua vozinha delicada, autoritariazinha… Reconheci todos os jeitos de voz de você, de Elisa, de Marcinha querida, que reclamou ausência de cartas minhas… Depois que desliguei, Maury estava na outra sala com os olhos úmidos e Rosa ficou com ar de frio… E eu fiquei tão alegre em ver que tudo estava bem que comecei a cantar a seguinte ária de ópera, com perdão da palavra: Mon coeur s’ouvre à ta voix, comme s’ouvrent les fleurs au baiser de l’aurore… (“meu coração se abre à tua voz, como se abrem as flores ao beijo da aurora”.) Antes de falar me deu um frio que não houve nada que me esquentasse; senti até uma falsa dor de garganta e pensei que estava gripada; mas logo que acabei de falar, passou. Me controlei muito e estava muito bem. Fui me vestir para irmos à casa de mme. Strasser de vestido comprido, como ela pedira. Rosa saiu também para a gente levá-la de carro para a casa dela. Quando saí, tinha nevado muito, estava uma beleza. E eu levei meu batismo de verdadeira neve: levei um daqueles tombos, que nem passarinho baleado. Se não fosse a Rosa me segurar um pouco, minha cabeça bateria com força no chão. Me levantei e fui para o carro. Mas com o choque da queda violenta, o controle da emoção do telefonema desorganizou-se e eu fiquei tão lassa para o resto da noite que teve um momento, antes da meia-noite, que adormeci ligeiramente na cadeira… A casa de mme. Strasser fica junto da Catedral, os sinos antes tocam pelo ano velho, param, e tocam à meia-noite pelo ano-novo. Vestimos os casacos, abrimos a janela, e tudo estava branco, com os sinos batendo como se fosse dentro de casa. Pedi a Deus que nos desse muita saúde e felicidade, não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite de ano-novo está tão ocupado. Depois se botaram na vitrola uns discos brasileiros (Maury comprou, apesar de não termos ainda vitrola), e dançamos tico-tico no fubá etc. Eu dançando mole, de veludo, decotada, na Suíça, tico-tico no fubá (Tico-tico no fubá (1917), de Zequinha de Abreu, foi gravada por Carmen Miranda.), ano-novo… que mistura estranha. Ainda me cumprimentaram pela queda, porque diz que é bom cair no dia 31, no fim do ano-velho, porque quer dizer que a coisa ruim aconteceu no velho e que o ano-novo está limpo… – Minha querida, vou lhe pedir uma coisa: pelo fato de eu contar que fiquei tão contente e emocionada com o telefonema, não vá ter um remorsinho por não ter sentido exatamente o mesmo: cada pessoa é diferente e afinal quem está na Suíça sou eu… – Minha queridinha , você está bem no trabalho? Espero que você se habitue depressa, e que não leve a sério demais. Você não poderia deixar de trabalhar? Quem sabe, florzinha? Pense nisso. Estou tão contente porque tudo está bem com você, meu amor. Que 1947 comece para você um tempo lindo e constante de boa saúde, de alegria e tranquilidade. – Mando aí outra série de “Children’s Corner”, para O Jornal. Não sei se você vai gostar. Mas, querida, não mude nada, sim? Nem vírgulas. E entregue logo ao jornal, para que saia logo. No meio, tem um trecho chamado “Au-dessus d’un certain vide”, entre aspas, mas que traduzo para o português na linha abaixo exatamente, como você gosta. Tive que botar em francês mesmo, porque é o título de um quadro que vi, de um pintor suíço, cujo nome já não me lembro bem. Você há de dizer que eu devia explicar que é um quadro; mas não posso, porque se disser que é uma pintura, pensa-se que então estou descrevendo a pintura, o que não é verdade: uma coisa nada tem a ver com a outra. Deixe assim mesmo, viu querida? Isso não tem a menor importância. – Quanto a escrever para os jornais, querida, é o que eu estou fazendo, não é? Você é muito ambiciosa… Mais do que estou fazendo não quero, nem posso. Pode ser que mais tarde. Fazer crônicas de estilo ligeiro, tem muito perigo. O perigo de tomar gosto na facilidade de escrever. O perigo de cair no que Antonio Candido chama de literatura “infernal”… Você leu o artigo dele? Ele diz, falando de um livro qualquer: que ele “reflete um espírito que vem chegando aos poucos em certos magazines, certos cronistas e contistas. Espírito que é uma mistura da irresponsabilidade das histórias de quadrinhos com o humorismo superficial, e cuja ética, ou falta dela, exprime a apoteose do gostosão”. Naturalmente sei que você não se refere a isso, e sim a crônicas boas como de Rachel de Queiroz. Mas por enquanto, querida, fico nisso ainda: mandando de vez em quando coisas para um ou outro jornal.

Minha queridinha , como você se sente agora? Seja muito feliz, minha irmãzinha, e que Deus te abençoe, te dê saúde, alegria interior e exterior, alegrias em casa e fora de casa.

Vou sábado para Paris: Maury seguirá logo que o ministro voltar, o que será mais ou menos uma semana depois de eu partir. Estou muito contente com a viagem. Embarco sábado de noite e domingo de manhã estou lá. Mas tenho cama reservada. Continue a escrever, minha querida, vou dar um jeito para que as cartas me cheguem logo às mãos. Desculpe eu ter escrito no lado avesso da carta, esqueci que o papel era meio transparente.

Receba um abraço grande, grande, minha margaridinha viçosa, filhinha pequena, e seja feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz! (como é bom escrever esta palavra).

Tania: como é? A Agir não vai pagar o resto? E quando? Já recebi dela 2.800,00, quer dizer, descontando daí os selos. Ela deve me pagar ainda essa quantia. Quando?