Caderno 40

Ela chorava por alguma coisa. Ele olhava-a, dizendo palavras vagas e serenadoras. E o modo distraído como ele a olhava – como se ela fosse uma mulher – fez qualquer coisa brilhar de surpresa e desânimo no meio das lágrimas. Meu Deus, meu Deus – era isso o que ela pensava friamente.

Caderno 39

Tomar o comboio no cais Sodré (12:30h), comprar passagem para Cascais. Tel. Cascais 221 / Casa Sura Bonvalot (Marquês de Minas, 17, Bem Lembrados) / Sexta-feira / De si mesma o que ela podia sentir era: eu sou aquela que tem meu corpo e meu espírito.

Caderno 38

Lisboa, 14 de agosto de 1944 – no avião para Casablanca / R.C. é uma das melhores pessoas que eu conheço. Ele disse que é grato a mim por eu [ter] dado a ele um estado de alma no qual é possível ver discernir e fazer certas poesias. Que não acreditava em mulher há muitos anos. E é necessário acreditar. Mas que é hora que eu vá porque senão ele teria uma dessas paixões que o indivíduo se rasga a noite toda e na manhã seguinte arranja uma francesa para passar perto e fazer ciúmes. Que mesmo agora ele se sente desconfiado junto de mim e com pudor. É bom que eu esteja casada e feliz – senão ele se apaixonava. Fiquei com pena de embarcar com pena dele, se bem que não haja motivo.

Caderno 36

No avião para Argel – 15 de agosto de 1944 Ontem, courrier diplomatique “Bob” me levou a uma volta na cidade, tomar alguma coisa. Depois o Robert Hunter me levou ao cinema da Red Cross. / Aquilo de ter falado demais: do trem, deitada, numa escuridão interior, teve uma espécie de começo de morte e pensou claramente: não, não perdi minha vida, mas falei demais. Depois disso [ilegível] despertou-a e ela adormeceu.