Scliar em Cabo Frio

Passei um fim de semana inesquecível em Cabo Frio, hospedada por Scliar, que pintou dois retratos meus. O sobrado de Scliar é uma beleza mesmo.

Cabo Frio inspira Scliar. Perguntei-lhe sobre tanta criatividade. Resposta: 

– Acho que viver é um ato criativo. Tento fazer tudo aquilo que eu gosto e tento descobrir tudo aquilo que me inquieta. Creio que em Cabo Frio tenho essa possibilidade de concentração que me permite descobrir o fio da meada. Aí é só trabalhar. Não entendo viver sem trabalhar. A coisa que eu acho mais importante na vida de qualquer pessoa é descobrir naquilo que gostaria de trabalhar.

Scliar tem três cães e brinquei  com amor com eles. Todo mundo em Cabo Frio conhece a casa de Scliar. Verifiquei isso quando de manhã bem cedo fui comprar o Jornal do Brasil, eu que não consigo começar o dia sem ler este jornal. Mas me perdi, pois sou muito desorientada. Eu pedia informações à medida que de novo me perdia – e todos sabiam onde Scliar morava. Visitei José do Dome, que me deu um quadro lindo e me trouxe selvagens pitangas. Scliar fez antes de pintar vários desenhos de meu rosto. Contei-lhe de quando posei para De Chirico. Ele disse que aparentemente é fácil me pintar: basta pôr maçãs salientes, olhos um pouco oblíquos e lábios cheios: sou caricaturável. Mas a expressão é difícil de pegar. Scliar retrucou: todo quadro é difícil.

– Quando começou a pintar?

– Desde que me conheço, desenho e pinto. Cabo Frio no inverno é tranquilo e me permite horas de solidão voluntária. É nessas horas que trabalho. Vai-se tecendo um processo aparentemente intuitivo ou aparentemente racional. As duas coisas são contraditórias, mas que elas existem, existem, e entrelaçadas. Aproveito essas horas para desencadear o tempo prático de trabalho, sempre acotovelado às horas de lazer em que escuto música e leio. 

De repente tocou o telefone e Scliar foi atender. E, por incrível que pareça, o telefonema vinha da Espanha, Barcelona, e era do Farnese, com quem Scliar falou muito tempo. 

– Que é que você sente quando pinta? Fica alvoroçado como eu quando escrevo um livro?

– Eu nem sei bem, porque o processo é tão diferente para cada quadro. Muitas vezes o quadro, apesar do desenho já estar estruturado, o quadro me parece estranho até desencadear-se. E isso começa pela descoberta de certos relacionamentos entre as cores, por um plano num tom definido que orienta a proposição num sentido diverso daquele inicialmente proposto. Outras vezes é um gesto que arma um valor, uma vibração não prevista. Ou uma observação através da vista de uma janela que me traz a cor de um barco que passa. Que sei eu? Tudo vale e o resultado é que conta. 

Quase esqueci de João Henrique que tem cor de verde e que me deu a dama-da-noite para perfumar minhas noites. Ele é maravilhoso e vende muito bem. Sempre gostei mais de homens e fiquei feliz em ter dois filhos homens. João Henrique é muito homem. Não fosse ele muito homem. José do Dome gosta muito de amarelo. 

Há também Dalila e Mercedes que cozinham muito bem. Mercedes está com Scliar há doze anos e ele a chama de mãe. Dalila faz um macarrão com palmito que eu vou te contar. Mercedes tem os cabelos inteiramente brancos e beija Scliar.

– Você gosta de natureza-morta, isso eu sei porque já vi as mais fantásticas. 

– Como de tudo o mais que eu pinto. Talvez elas me permitam maior liberdade para sua organização e posterior destruição dessas procissões que vi e modificando até sua armadura de maneira que me surpreenda. É quando o trabalho realmente começa. 

– Fale do silêncio de sua casa e do que ela lhe dá. 

– Acho que o meu silêncio é estar cercado de todos os ruídos de som que eu gosto e que permitem o clima que eu busco para meu trabalho. Acho que a vida é tão rica e inesperada que todo instante preciso estar aberto ao que me rodeia para, se possível, não perder nada. Estás escutando esse ruído que vem da cozinha ou do rapaz que lá em cima mudou o vidro quebrado? São sinais vivos que provam que também o estamos. Acho isso importante para o meu trabalho, que tento refletir numa permanente reflexão e integração com tudo que acontece e me chega. Acho a vida uma coisa simples. Mas a dificuldade é transmiti-la. Quando gostamos das pessoas e para elas trabalhamos, estabelecemos uma relação da qual nem sempre temos imediata consciência que é essencial. 

Quanto aos mutantes, conversando a respeito deles, Scliar disse:

– É o meu trabalho continuando. Finalmente, o que procuramos em cada trabalho senão essa possibilidade de ele se renovar permanentemente? Claro que isso acontece em cada pessoa nova que o observa e descobre. Feliz o trabalho que se renova constantemente para a mesma pessoa. Todo trabalho deve conter essa possibilidade de um permanente desdobrar-se. Meus instantes são jogos de três ou mais quadros, cada um com seu próprio equilíbrio, capaz de reestruturar-se em comunhão com os outros. Como cada quadro contém suas próprias proposições, eu multiplico essas descobertas em cada mutação proposta. Você vê, é o mesmo problema inicial ampliado. 

– Você trabalha todos os dias?

– Sim, mesmo quando não trabalho. 

* Crônica publicada no dia 28 de outubro de 1972 no Jornal do Brasil e jamais reunida em livro, nem em A descoberta do mundo, tampouco no recente Todas as crônicas.

** A imagem que ilustra o texto é o retrato de Clarice Lispector feito por Carlos Scliar de que fala a crônica, razão da visita da escritora ao ateliê do pintor e amigo, em Cabo Frio.

*** A crônica “Scliar em Cabo Frio” apresenta uma pontuação heterodoxa, sobretudo no que diz respeito ao emprego (ou não) de vírgulas. Durante o período em que Clarice Lispector colaborou no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973, sua editora Marina Colasanti nos faz saber no prefácio a Todas as crônicas que um de “seus pedidos constantes era que recomendássemos aos revisores para não mexer em suas vírgulas”. Pois, conforme as palavras de Clarice na crônica “Minha secretária”: “a pontuação é a minha respiração dentro da frase.” Assim, seguindo à risca a advertência da autora, na revisão do texto agora publicado, optamos por não mexer nas vírgulas — a despeito de termos observado que elas por vezes pareciam ter sido intencionais, isto é, acompanhando a respiração da escritora, mas outras não, quem sabe uma desatenção comum a textos escritos rapidamente para atender ao deadline do jornal.