Amar o amor

Antes de publicar seu primeiro livro, ainda estudante de Direito, Clarice Lispector havia trabalhado na imprensa como repórter e redatora da Agência Nacional e em periódicos como a revista Vamos ler! e o jornal A Noite. No final da década de 1960, já então consagrada, aceitou o convite para assumir uma página de entrevistas na célebre Manchete. Durante quase um ano e meio, personagens importantes da literatura, teatro, música, artes plásticas e esportes passaram pela sabatina da escritora; entre elas amigos como Lygia Fagundes Telles, Rubem Braga, Maria Bonomi e também Vinicius de Moraes.

O que logo chama atenção nas conversas com Clarice é uma espécie de inadequação para a função no que diz respeito à técnica jornalística: é pessoal demais, por vezes indiscreta e, a pior das heresias, fala de si como se fosse ela a entrevistada. Não poderia ser diferente e, claro, a revista sabia disso — a sessão receberia o nome de “Diálogos possíveis com Clarice Lispector”. Mais do que possíveis, talvez fosse melhor dizer improváveis.

Na entrevista com Vinicius, publicada em 1969, a primeira abordagem soa logo como uma provocação: “Vinicius, você amou realmente alguém na vida?” Ora, em tese, essa não era uma pergunta a ser feita, ainda mais assim de sopetão, ao famoso amante das mulheres e maior expoente da lírica amorosa no Brasil, autor de sonetos que são monumentos da língua portuguesa e se equivalem aos de Camões em importância.

A escritora explica que telefonara para uma das ex-esposas do poeta, que lhe disse que ele quando ama se dá a tudo por inteiro: crianças, mulheres, amizades. Por isso, a ela, Clarice, teria lhe vindo a ideia de que Vinicius amava mesmo o amor e nele incluía as mulheres. “Que eu amo o amor é verdade”, responde, “mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo.”

Clarice, certamente por conhecer a biografia do poeta, em via de se casar pela sétima vez, avança: “Acredito, Vinicius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores”.

Bonita reflexão sobre o amor, em tudo contrária, no entanto, à do poeta, que argumenta: “É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor-paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito”.

A entrevistadora retoma a palavra, desassombrada: “Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?”

Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor-paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu “Soneto de fidelidade”: “que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.

A entrevista prossegue, mas por enquanto quedemos aqui. Com perguntas tão diretas e desconcertantes, Clarice toca de modo intuitivo em pontos sensíveis da personalidade amorosa de Vinicius. O amor-paixão é um deles. Segundo o filósofo Alain Badiou [1], o amor romântico destaca o êxtase inicial do primeiro encontro, que não seria, para ele, o momento mais importante da relação amorosa, baseada sim em uma construção duradoura, a que também dá o nome de “aventura obstinada”. Assim, diferentemente da apreensão do instante como única dimensão temporal da eternidade, propõe uma concepção “menos milagrosa e mais laboriosa, ou seja, uma construção persistente, ponto por ponto, da eternidade temporal”.

Clarice concordaria com Badiou. Para Vinicius, porém, o amor deveria ser vivido no paroxismo; “mas amar é sofrer, mas amar é morrer de dor”, canta em um de seus afro-sambas, o “Canto de Xangô”, parceria com Baden Powell. O poeta deseja fundir-se com a amada, mas a consciência aguda do infortúnio lhe traz sofrimento. Adentrando as razões do coração que a própria razão desconhece, ele busca no renascimento do amor em novos pares tornar possível o impossível. O oposto da proposta de Clarice, de criar novos amores no mesmo par.

Viria daí a sensação de que, para o autor de “Soneto de fidelidade”, sua vida teria sido como se uma mulher o depositasse nos braços de outra. Por isso também é recorrente em seus versos a analogia entre a mulher real e a imaginada mulher ideal, de tal modo que uma assumisse qualidades da outra. Nenhum poema exemplifica melhor tal fusão do que “Epitalâmio”. Nele, ao fim de longa citação de nomes femininos — alguns que reforçam antiteticamente qualidades arquetípicas (Sombra / Alba, Vândala / Santa, Altiva / Suave), e outros que evocam mulheres supostamente reais (Alice, Maria, Nina, Linda, Marina, Maja, Clélia) com as quais tivera algum tipo de experiência amorosa — o poeta se espanta:

Vejo chegar alguém que me procura
Alguém à porta, alguma desgraçada
Que se perdeu, a voz no telefone
Que não sei de quem é, a com que moro
E a que morreu… Quem és, responde!
És tu a mesma em todas renovada?
Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu!

O “Sou eu!” que ecoa enfaticamente no último verso do poema traz uma ambiguidade reveladora, pois pode tanto significar a resposta da mulher como a própria voz do poeta, que se confunde com ela ou até mesmo com todas elas — nesse caso, a polifonia proviria de tantas vozes quantas as mulheres evocadas. É uma resposta que reúne em um único sintagma poeta, mulheres reais e a mulher ideal (“a mesma em todas renovada”) e realiza no poema, portanto, a fusão, impossível na vida real, com a amada.

O amor devotado à mulher foi para o poeta a via mais importante para a plenitude amorosa. Mas não a única. Em sua primeira resposta a Clarice, afirma: “por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem, o amor de ser humano pela a comunidade de seus semelhantes”. A conversa entre eles prossegue, mas, de repente, se calam.

Vinicius rompe o silêncio: “Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…”.

Cabe lembrar que, três anos antes, Clarice provocara um incêndio em sua casa após adormecer com o cigarro aceso. Com graves queimaduras no corpo e correndo risco de morte, passou dois meses hospitalizada na Clínica Pio XII, em Botafogo, de onde saiu com sequelas, principalmente na mão direita.

Emocionada, a escritora se dirige ao leitor e reconhece: “este homem envolve uma mulher de carinho”.

Ao tocar numa questão dolorida da vida de Clarice, o poeta corresponde à alta carga emotiva instalada pela própria escritora desde o início da entrevista. O que a delicada observação de Vinicius revela aqui é o jogo amoroso no qual ambos estavam enredados — para um e para outro, amor e dor são sentimentos indissociáveis.

Uma espécie de sedução difusa envolve os dois. Clarice pede um poema para Vinicius. De improviso, ele compõe um retrato preciso e impactante da autora de A paixão segundo GH; atinge o centro de sua obsessão, a busca incessante do “eu” na imanência, e, na condição objetiva de Outro (como um espelho), lhe devolve subjetivamente a singularidade da existência, concentrada no dístico formado pelo próprio nome. Diz assim: “Você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso”:

Clarice
Lispector

“Acho lindo o teu nome, Clarice”, elogia.

A entrevista acaba, mas a escritora leva até ao fim a apuração; telefona para uma das ex-esposas do poeta e lhe pergunta: “Como é que você se sente casada com Vinicius?” Ela responde: “Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.” Conversa também com uma “mocinha inteligente”: “Você teria um ‘caso’ com ele?” “Não (…) eu amo um outro homem. E Vinicius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E ‘de repente, não mais que de repente’, ele se transforma em outro (…)”.

O epílogo acaba por revelar o incontornável desdobramento ético da obra de Vinicius, impregnada de vida e, a todo momento, ultrapassada por um efeito de contágio transformador de outras vidas. Estas, por sua vez, não vão lhe seguir o modelo, mas a coragem de viver.

Clarice termina: “Porque há grandeza em Vinicius de Moraes”.

[1] No livro Elogio ao amor (Martins Fontes, 2009)

*Foto em destaque: Vinicius de Moraes, 1971. Por Alécio de Andrade. Coleção Pirelli/MASP de Fotografia.

**Bruno Cosentino é cantor e compositor. Lançou os álbuns Amarelo (2015), Babies (2016) e Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer (2017) e Bad Bahia (2020). É editor da revista de crítica musical Polivox e doutor em literatura brasileira na UFRJ, com tese sobre o amor e o erotismo nos poemas e canções de Vinicius de Moraes.

Clarice Lispector da linhagem de Machado de Assis

Quando se trata do tema crônica brasileira, é quase instantâneo pensar no nome de Rubem Braga como seu principal representante. “O máximo dos cronistas”, segundo Clarice Lispector.

O autor capixaba, que modestamente se considerava uma máquina de escrever “com algum uso, mas ainda em bom estado de conservação”, teve recentemente publicada uma nova coleção com textos seus recolhidos em livro pela primeira vez. Em O poeta e outras crônicas de literatura e vida, organizado pelo editor Gustavo Henrique Tuna, o velho Braga, que escrevia diariamente, registra de forma singular certos perfis de intelectuais já conhecidos àquela época: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Joel Silveira, Rodrigo de Melo Franco, Aníbal Machado e, claro, Clarice Lispector.

À autora, Rubem Braga dedicou o espaço de 11 de dezembro de 1965, na Manchete – o segundo mais importante periódico ainda em seus dias de glória. Naquele ano, foi publicada a terceira edição de Laços de família – reunião de contos lançada pela Editora Francisco Alves em 1960 pela qual Clarice receberia o Prêmio Jabuti de literatura. O diagnóstico do sucesso da ucrano-pernambucana era tão simples quanto ousado. De acordo com Braga, Clarice viria da mesma linhagem de Machado de Assis.

A seguir, uma das 25 crônicas que compõem o novo volume de crônicas de Rubem Braga.

Clarice Lispector, uma contista carioca

Muito francesa esta curta informação do Petit Larousse sobre Virginia Woolf: “Romancière anglaise, née à Londres (1882-1941); sa finesse rappelle la manière du romancier français Marcel Proust”.[1]

Seria possível dizer de Clarice Lispector que sua finura lembra Virginia Woolf – que parece ser, realmente, a sua mais forte influência. Mas o que me surpreende e me encanta, principalmente, nos contos de Clarice, como os desse admirável volume Laços de família, que aparece em terceira edição, é, nessa escritora tão vivida no estrangeiro, o forte sabor carioca. Por mais introspectiva que seja a escritora, ela não é alerta apenas aos tumultos e confusões da alma, mas também com uma sensibilidade especial, às luzes, aos rumores, às brisas e à temperatura, a detalhes da paisagem e do ambiente.

Seus personagens não são apenas do Rio, são de certas ruas, de certos bairros, e trazem a marca disso: no ajantarado de Copacabana “a nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeites de pailletés e um drapejado disfarçando a barriga sem cinta”; e ela permanece o tempo todo como que bloqueada em seu reduto espiritual de Olaria, fitando com desafio a sua concunhada de Ipanema.

A portuguesita preguiçosa e lúbrica só poderia viver na rua do Riachuelo e jantar com vinho verde na praça Tiradentes. A senhora da “Imitação da rosa”, essa moça “castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser”, é basicamente Moça da Tijuca. E o Rio vive nesse livro, com seu jardim botânico e seu jardim zoológico, seus antigos bondes, seu calor, suas noitinhas, seu jardinzinho de São Cristóvão, suas moscas, seus sábados e famílias.

Isso que estou dizendo é apenas uma nota marginal ao livro de Clarice, cujo interesse maior reside na intensa vibração interna de seus seres, e na maestria de estilo e composição em que ninguém a supera no Brasil. Mas a todos nós, que vivemos no Rio, e ficamos pela primeira vez vagamente patriotas cariocas depois da mudança da capital, é doce sentir a cidade arfar e tremer sobre as cabeças dessas criaturas, como se quisesse prendê-las e condicioná-las.

E neste ano do Quarto Centenário sentimos, com orgulho e prazer, que a ucrano-pernambucana Clarice Lispector é, na verdade, uma grande contista carioca, da boa e nobre linhagem de Machado de Assis.

Manchete, 11 de dezembro de 1965

O poeta e outras crônicas de literatura e vida
Rubem Braga/Global Editora, 102 páginas
Org. Gustavo Henrique Tuna
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[1] Romancista britânica, nascida em Londres (1882-1941). Sua finesse lembra a do romancista francês Marcel Proust.