No Hora de Clarice 2025, celebraremos nas vozes e atuações das crianças, o livro infanto-juvenil A vida íntima de Laura, publicado por Clarice Lispector em 1974. Neste filme, seis crianças recontam, atuam, ilustram e co-dirigem a história da galinha Laura, de seu marido Luís e de seu filho Hermany no galinheiro de Dona Luísa.
O curta-metragem é fruto de um trabalho que aconteceu durante o ano letivo de 2025 e envolveu profissionais do Departamento de Literatura e alunos da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, unindo educação, literatura e arte, em três etapas. Na fase da preparação, cada criança recebeu um exemplar do livro (doados pela editora Rocco) e participou de uma atividade de leitura compartilhada; num segundo momento, discutiram a história com seus pais e mães em casa; já na terceira etapa – criativa e artística – elas fizeram um trabalho de encenação de algumas passagens da história e de ilustração de três cenas. São esses os desenhos que dão colorido ao filme em uma releitura inédita da história da galinha Laura.
Aclamada pela crítica e fenômeno popular na internet, Clarice Lispector é considerada, internacionalmente, um dos grandes nomes da literatura do século XX. Misteriosa, obscura, reveladora, experimental, estranhamente mística ou filosófica – como definir a escrita da autora de A hora da estrela? Este podcast, concebido e apresentado por Bruno Cosentino e Eucanaã Ferraz, percorre a vida e a obra de Clarice em cinco episódios, nos quais conversam com grandes especialistas, professores e pesquisadores.
A obra de Clarice Lispector gira em torno de duas noções: o símbolo e a coisa. A coisa, a física e o símbolo, a metafísica; a coisa, a imanência, e o símbolo a transcendência; a coisa, o corpo, e o símbolo, a linguagem; a coisa, a existência, e o símbolo, o dizer; a coisa o acontecimento, e o símbolo a forma de dar a ler a não-simbolizável coisa.
O professor, ensaísta e escritor Evando Nascimento deu uma aula sobre a obra de Clarice Lispector no IMS Rio. Sua fala está baseada na categoria de “literatura pensante”
, Clarice em nova reedição. IMS Clarice Lispector, 2019. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2019/12/09/clarice-em-nova-reedicao/. Acesso em: 05 março 2026.
Em 2020, Clarice Lispector faria cem anos. Uma série de eventos está programada para celebrar a efeméride. A editora Rocco, responsável pela publicação de sua obra, já deu início às comemorações com a reedição dos três primeiros romances da escritora, escritos na década de 1940, quando Clarice não havia completado ainda 30 anos; são eles: Perto do coração selvagem, O lustre e A cidade sitiada. O restante de sua obra completa será toda reeditada até o fim do ano que vem.
O projeto gráfico é assinado por Victor Burton, premiado designer de livros. As capas são ilustradas por imagens de pinturas de Clarice feitas, a maioria, em 1975. A relação da escritora com as artes plásticas não pretendeu ser mais do que um passatempo ampliador de seus processos criativos; sua produção, apesar disso, soma 22 quadros — dois deles pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles — e ganhou uma detida reflexão do crítico português Carlos Mendes de Sousa, no livro Clarice Lispector: pinturas, também editado pela Rocco.
As novas edições também trazem posfácios inéditos, escritos por especialistas na obra de Clarice, como Nádia Gotlib, Clarisse Fukelman, Benjamin Moser, Aparecida Maria Nunes, Ricardo Iannace, Marina Colasanti, Eucanaã Ferraz, Teresa Montero, Arnaldo Franco Junior e próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente. O realizador Luiz Fernando Carvalho, que adaptou recentemente para o cinema o livro A Paixão Segundo G.H. (com estreia prevista para o ano que vem), também assina um dos textos.
Essa primeira reedição, em 2019, contempla o primeiro livro, Perto do coração selvagem (1943), que foi um grande sucesso de crítica, tendo recebido muitas avaliações positivas, inclusive a do escritor Antonio Candido, que, à época, saudou a estreia da escritora para o jornal Folha de S.Paulo: “dentro de nossa literatura, é uma performance da melhor qualidade. A autora — ao que parece uma jovem estreante — colocou seriamente o problema do estilo e da expressão”. O lustre (1946), segundo livro, ao contrário, teve recepção acanhada e, com ela, o início da relação conturbada da escritora com as editoras ao longo da carreira. Por fim, A cidade sitiada (1949), escrito em Berna, na Suíça, quando a jovem Clarice acompanhava o marido Maury Gurgel Valente em missão diplomática.
A primeira literatura de Clarice, que agora chega às livrarias de cara nova, dá a ver nos temas, modos de narrar, humor, estilo e inquietações existenciais as mesmas qualidades que — reiteradas por críticos e público — seriam a marca de uma carreira de sucesso trilhada pela grande escritora.
As crônicas de Clarice Lispector foram reunidas em livro pela primeira vez em 1984, em A descoberta do mundo, volume organizado por Paulo Gurgel Valente, filho da autora, que alinhou em ordem cronológica 468 textos publicados no Jornal do Brasil entre os anos 1967 e 1973. Li e reli aquelas quase oitocentas páginas muitas vezes...
Nas entrevistas feitas por Clarice há uma espécie de inadequação no que diz respeito à técnica jornalística. Com Vinicius de Moraes, sua primeira abordagem soa como provocação: “Vinicius, você amou realmente alguém na vida?”
Eu morri. Descobri isso quando, um dia, na calçada da Praça Maciel Pinheiro, ergui a cabeça, abri os olhos e avistei-me morto, ali, na calçada da praça, o sobrado do outro lado da rua. Meu coração despedaçado dentro do peito, o sobrado da rua do Aragão, 387, onde, no segundo andar, Clarice Lispector viveu uma infância feliz, aqui no Recife, apesar das dores do mundo e de viver e sentir, principalmente, as dores de uma doença implacável que um dia arrancaria Mania, a sua mãe, de perto de si.
O dia em que conheci Clarice não foi o mesmo em que ela me conheceu. Eu, toda adoração, observando-a, ela, sem motivo algum para pousar o olhar em mim. Saindo juntos da redação do Jornal do Brasil, o jornalista Yllen Kerr, grande amigo meu, disse que estava indo visitar Clarice e perguntou se eu queria ir. Queria muito, muitíssimo!
, Antes da Hora, prefácio de Paloma Vidal. IMS Clarice Lispector, 2017. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2017/05/19/antes-da-hora-prefacio-de-paloma-vidal/. Acesso em: 05 março 2026.
Dentre as novidades nesta publicação, está o prefácio de Paloma Vidal desenvolvido a partir da pesquisa dos manuscritos — sob a guarda do IMS desde 2004 e disponível para acesso aqui. Reproduzimos alguns fragmentos desse mergulho no acervo a seguir.
E agora – uma crônica do encontro com os manuscritos de A hora da estrela (Paloma Vidal)
Um par de luvas de plástico, uma caixa que brilha de tão branca, numa pequena sala envidraçada e iluminada artificialmente. Tudo me faz pensar numa operação cirúrgica. Isso foi o que anotei. Em seguida uma pergunta sobre como fazer surgir uma emoção ali. Anotei isso e ergui a cabeça, tentando não ser vista ao olhar para J., sentada na escrivaninha confrontada à minha, atarefada e vigilante. Foi ela quem me ofereceu folhas, brancas também, e um lápis, que antes apontou, num gesto deliberadamente anacrônico. Ela passa horas dentro desta sala, com intervalos para o almoço e para o lanche, vendo como se abrem e se fecham as caixas brancas, que lembram presentes, menos por suas qualidades próprias do que pela expectativa daqueles que as abrem. Ela já viu esse gesto tantas e tantas vezes que poderia fazer uma tipologia: há os que riem, os que choram, há os desdenhosos e os desaforados, os que arregalam os olhos, os que os cerram. Há os que desconfiam, como eu. Tudo está mais ou menos previsto. Me pergunto se são muitos os que aceitam as folhas que ela oferece com gentileza junto com o lápis apontado, sendo permitido o uso de computador. Cadernos e canetas, não, computadores, sim. (…)
Quando cheguei à pequena sala do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, e antes de abrir a caixa branca, eu já tinha visto escaneadas as anotações de Clarice Lispector para A hora da estrela. Junto com o pedido de escrever uma crônica do encontro com os manuscritos do livro, para uma edição comemorativa dos 40 anos de sua publicação, que se completam este ano, em 2017, vieram as imagens desses papéis, que no entanto eu fazia questão de ver ao vivo. (…)
Nesta pequena sala, de luvas postas, em companhia de J., ela que estende para mim folhas brancas e um lápis, eu que aceito, embora tenha levado o computador. Aceito por cortesia, porque me custa em geral dizer não a algo que se oferece com gentileza. Mas não é só isso: é um convite para escrever à mão. J. me faz um convite raro. Um convite, por sua vez, que poderia dar um sentido a este encontro. Quero o gesto dela em mim. Isso foi o que anotei em seguida, antes de me decidir por fim a abrir a caixa branca. (…)
Dentro encontramos 34 pastas, de cor creme, de tamanhos diversos, numeradas do lado direito, a lápis: 1/34, 2/34, 3/34, e assim por diante. Logo descobriremos que o tamanho das pastas está de acordo com o tamanho das folhas que elas abrigam – menores quando se trata de notas soltas, maiores quando se trata de blocos de folhas de tamanho ofício – e nos perguntaremos se houve alguém que as confeccionou artesanalmente, à medida. Descobriremos ainda que os títulos escritos no centro da capa das pastas, também a lápis, correspondem às primeiras palavras da primeira folha dos manuscritos contidos nelas. Tudo isso supõe o trabalho manual de alguém. “O arquivo supõe o arquivista; uma mão que coleciona e classifica”, escreve Arlette Farge em O sabor do arquivo. Penso nessas mãos enquanto passam pelas minhas as pastas, que por enquanto não abro. Penso que este arquivo supõe muitas mãos, antes das minhas. E que muitas outras virão, em busca dessa sobrevivência, desse vestígio de real, tão vivo quanto inacessível. (…)
Anoto à mão nas folhas brancas que J. me deu, e já não estou lá, enquanto copio o que anotei nesta tela de computador. Me antecipo para desobedecer o arquivo, querendo ser fiel a ele. (…)
“O sabor do arquivo”, escreve Farge, “passa por esse gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação. Sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo. Como se a mão, ao fazê-lo, permitisse ao espírito ser simultaneamente cúmplice e estranho ao tempo e a essas mulheres e homens que vão se revelando.”
Vou adiante. Sinto que não posso me fixar demais, à espera de que cada uma dessas anotações me faça uma revelação. Começo a passar mais rápido as notas e pastas, fazendo pequenas pilhas que alarmam J.: “você vai saber colocar na ordem de novo?”, ela me pergunta, tirando os fones de ouvido e rompendo o silêncio que parecia ter sido pactuado entre nós depois de distribuídos nossos papéis. Eu respondo o que ela já sabe: que as pastas estão numeradas e que, sim, sim, está tudo sob controle. Ela deve ter notado minha inquietação. Minha sensação de falta de preparo. Não é a primeira a quem isso acontece. Há os que sabem o que procuram e há os que apenas procuram, sem saber por onde começar. “Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” (…)
Dou um salto. A cumplicidade que eu procuro poderá vir de uma nota na pasta 8/34. Com letra muito trêmula, em quatro linhas, sem pontuação, Clarice escreve no verso de um talão de “Requisição de cheques”: “Juro que este/ livro é feito/ sem palavras/ É uma fotografia muda.” Entre as anotações que recebi escaneadas, não foi incluída a imagem do verso do talão, e se não fosse o encontro posterior, possivelmente eu não teria como saber a origem do papel em que essas linhas foram escritas. Na imagem, via-se uma textura, finas listras bege recobrindo um papel de cor creme, com uma borda ligeiramente mais escura. Penso sobre a frequência destas notas na escrita de Clarice, quando as frases vêm inesperadamente, quando vem a necessidade de anotar, a qualquer momento, em qualquer lugar. Nestas pastas, há envelopes, papéis rasgados, folhas soltas, este pedaço de talão. Vejo a fascinação que exerce o registro de uma escrita que vem de repente e não pode ser contida. O registro de um instante. Do instante em que algo se cria. Além, também, do testemunho de um método, que só mais tarde, tendo aberto mais algumas pastas, será possível enxergar melhor.
Por enquanto, me detenho nesta nota. O encontro entre estas frases e este papel. Qualquer tipo de papel poderia ter servido para estas anotações, eu sei, entre eles este, que, não obstante, ao contrário de outros, indica uma data, 15/9/76, um número de conta, uma agência, “Lido”, do Banco Nacional. Neste caso específico a escrita passa a existir no tempo e no espaço, numa relação muito mais concreta com o real do qual fez parte e do qual se tornou vestígio. Ela dá a ver um corpo, de quem percorre e habita um determinado lugar na cidade, numa época, com suas marcas singulares. (…)
Nas últimas páginas do bloco manuscrito, chegamos à morte de Maca. O autor faz rodeios e aparecem os parênteses: “(Eu ainda poderia voltar atrás e recomeçar do ponto em que Macabéa está em pé na calçada – e talvez dizer que um homem alourado olhou-a com olhos de não-importa-de-que-cor. Mas – mas agora fui longe demais e não posso retroceder. Mas pelo menos não falei em morte e sim apenas em grave atropelamento.)” Como narrar a morte é uma das perguntas que os manuscritos nos fazem enxergar com estupor. Chega aqui o “gran finale” anunciado pelo autor, minuciosamente desmentido pelas intervenções que, ao montar o livro, Clarice fará no texto contínuo, muitas delas anotadas nos fragmentos que estão nestas pastas. Através delas, o livro desmentirá a verdade sobre a vida estar numa trajetória que vai de um começo a um fim. A “linha fatal” será recortada. Entre parênteses, no livro, retomam-se estas frases da abertura: “A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreconhecível.” (…)
Benjamin Moser, um dos mais importante biógrafos de Clarice Lispector, declarou numa entrevista que uma de suas ambições ao escrever Why This World, publicado nos Estados Unidos e traduzido como Clarice, uma Biografia, era o de promover um espaço ao questionamento de um tema muito pouco trabalhado por críticos literários, comentadores e biógrafos – a “judeidade” da escritora. Isso porque a grande maioria deles se limita à refletir sobre o tema da brasilidade, “como se fosse preciso escolher, entre ser judia e ser brasileira”.
A escritora Ana Maria Machado viveu um episódio inusitado e emocionante com Clarice Lispector. Isso aconteceu em 1975. Após ter lido um artigo publicado por Ana Maria sobre o aniversário do escritor Roland Barthes, naquele dia, no Jornal do Brasil, Clarice, que não a conhecia pessoalmente, pediu ajuda insistentemente a ela para organizar o que seria dali a dois anos o livro A hora da estrela.
Na década de 1960, o espanhol Jaime Vilaseca era marceneiro no Rio de Janeiro, até que um encontro com Clarice Lispector mudou sua vida. A escritora encomendara a ele uma estante de livros, que foi feita e montada em seu apartamento, no bairro do Leme. Durante aqueles dias, silenciosamente, observara-o trabalhando e, terminado o móvel, olhou para ele e disse: "Você vai ser moldureiro. Não vai escapar ao seu destino!".
Correio para mulheres, organizado por Aparecida Maria Nunes, reúne textos de Clarice Lispector para o público feminino, escritos em três momentos distintos da carreira da escritora.
Mineirinho, um dos bandidos mais procurados pela polícia carioca na década de 1960. José Miranda Rosa ganhou essa alcunha, naturalmente, por ter nascido em Minas Gerais.
A consistência destas imagens é aquela da árvore, matéria vegetal, a madeira sendo o suporte destas duas pinturas. Num dos quadros as linhas verticais visivelmente seguem os desenhos oferecidos pela madeira, e criam uma espacialidade flácida e dura ao mesmo tempo.
, 40 anos de A hora da estrela. IMS Clarice Lispector, 2017. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2017/02/15/40-anos-de-a-hora-da-estrela/. Acesso em: 05 março 2026.
Um dos títulos mais traduzidos de Clarice Lispector, A hora da estrela completará 40 anos desde seu lançamento em outubro de 1977 pela José Olympio.
A editora Rocco, que assumiu a republicação das obras claricianas a partir de 1998, prepara um volume especial para comemorar a efeméride. Com previsão de chegada às livrarias em maio, a publicação, de capa dura, trará seis ensaios assinados por estudiosos da autora, dentre os quais Nádia Gotlib, Eduardo Portella, Colm Tóibín, Hélène Cixous e Paloma Vidal.
De roupa nova, o livro terá ainda um caderno extra com reprodução fac-similar dos manuscritos da novela. Parte desses manuscritos, sob a guarda do IMS desde 2004, foi digitalizada e pode ser acessada aqui.
Manuscrito original de A hora da estrela / Acervo Clarice Lispector / IMS
Além dos originais de A hora da estrela, o Acervo Clarice Lispector, inteiramente catalogado e disponível para pesquisa presencial, é formado pelos manuscritos dos romances Um sopro de vida e Água viva, correspondência familiar, duas telas pintadas pela autora, discos, fotografias, negativos e biblioteca pessoal com cerca de mil itens entre livros e periódicos.
No dia 10 de dezembro, o IMS Rio celebra o dia do nascimento de Clarice Lispector. Neste ano, iremos apresentar, em única exibição, às 18hs, o filme curta-metragem Perto de Clarice, de João Carlos Horta, de 1982, em nova versão digitalizada, a partir do original em 35mm preservado pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv). Após a exibição do filme, haverá uma conversa entre a escritora Heloisa Buarque de Holanda, que esteve envolvida na realização do filme e é viúva do diretor, e Teresa Montero, autora da mais recente biografia da escritora, À procura da própria coisa (Rocco, 2021), intermediada pelo consultor de literatura do IMS, o poeta Eucanaã Ferraz.
Michel de Certeau, em sua La fable mystique, aborda um aspecto importante na relação entre idiotice e santidade nos primeiros séculos, em particular, na literatura cristã, a saber: um modo de isolamento na multidão. A idiotice, sob forma da loucura, vai para a multidão e, mais do que isso, se instaura como provocação, transgressão do campo dos “bem-pensantes”.
A ligação de Clarice com a política não se dá na superfície da vida pública, tampouco nos textos que abordam diretamente a questão. Isso se deve a uma compreensão da escritora sobre a fratura entre arte e política, abordada em dois textos irmãos, “Literatura e justiça” e “O que eu queria ter sido”, nos quais constata com lucidez desconcertante a inutilidade de sua literatura como instrumento político.
Existe um aspecto dos escritos claricianos que é – parece-nos – menos observado. Trata-se da sensibilidade social e política da escritora. [...] Clarice deixa perceber em seus escritos – romances, crônicas ou contos – uma verdadeira abertura ao outro e sua diferença e sobretudo sua vulnerabilidade.