Clarice em nova reedição

Em 2020, Clarice Lispector faria cem anos. Uma série de eventos está programada para celebrar a efeméride. A editora Rocco, responsável pela publicação de sua obra, já deu início às comemorações com a reedição dos três primeiros romances da escritora, escritos na década de 1940, quando Clarice não havia completado ainda 30 anos; são eles: Perto do coração selvagem, O lustre e A cidade sitiada. O restante de sua obra completa será toda reeditada até o fim do ano que vem.

O projeto gráfico é assinado por Victor Burton, premiado designer de livros. As capas são ilustradas por imagens de pinturas de Clarice feitas, a maioria, em 1975. A relação da escritora com as artes plásticas não pretendeu ser mais do que um passatempo ampliador de seus processos criativos; sua produção, apesar disso, soma 22 quadros — dois deles pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles — e ganhou uma detida reflexão do crítico português Carlos Mendes de Sousa, no livro Clarice Lispector: pinturas, também editado pela Rocco.

As novas edições também trazem posfácios inéditos, escritos por especialistas na obra de Clarice, como Nádia Gotlib, Clarisse Fukelman, Benjamin Moser, Aparecida Maria Nunes, Ricardo Iannace, Marina Colasanti, Eucanaã Ferraz, Teresa Montero, Arnaldo Franco Junior e próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente. O realizador Luiz Fernando Carvalho, que adaptou recentemente para o cinema o livro A Paixão Segundo G.H. (com estreia prevista para o ano que vem), também assina um dos textos.

Essa primeira reedição, em 2019, contempla o primeiro livro, Perto do coração selvagem (1943), que foi um grande sucesso de crítica, tendo recebido muitas avaliações positivas, inclusive a do escritor Antonio Candido, que, à época, saudou a estreia da escritora para o jornal Folha de S.Paulo: “dentro de nossa literatura, é uma performance da melhor qualidade. A autora — ao que parece uma jovem estreante — colocou seriamente o problema do estilo e da expressão”. O lustre (1946), segundo livro, ao contrário, teve recepção acanhada e, com ela, o início da relação conturbada da escritora com as editoras ao longo da carreira. Por fim, A cidade sitiada (1949), escrito em Berna, na Suíça, quando a jovem Clarice acompanhava o marido Maury Gurgel Valente em missão diplomática.

A primeira literatura de Clarice, que agora chega às livrarias de cara nova, dá a ver nos temas, modos de narrar, humor, estilo e inquietações existenciais as mesmas qualidades que — reiteradas por críticos e público — seriam a marca de uma carreira de sucesso trilhada pela grande escritora.

Clarice em Paris

A tradicional livraria parisiense Shakespeare and Company expôs com destaque em suas prateleiras a versão para o inglês do livro Todos os contos, de Clarice Lispector. A edição, cuja tradução, de Katrina Dodson, foi reconhecida pela instituição Pen América, dos EUA, com o prêmio de melhor tradução de 2016, ocupou o lugar destinado às sugestões de leitura da equipe de livreiros da loja, especializada em literatura de língua inglesa.

Livraria Shakespeare and Company, em Paris.

A nota que acompanhava a exibição do livro ressaltava que a reunião dos contos de Clarice em inglês eram ótima oportunidade para um público maior tomar conhecimento da importante escritora brasileira. Descreviam-na como dona de linguagem poética e ritmo hipnotizante, que “carregam o leitor de forma fantástica pelo universo sublime de personagens femininas, do inconsciente humano e de amores não correspondidos”.

A livraria possui uma longa história na capital francesa. A primeira loja foi aberta em 1919, pela americana Sylvia Beach, e se tornou um ponto de encontro para artistas como Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Man Ray, Djuna Barnes, Ezra Pound e T. S. Eliot. Em 1922, a Shakespeare and Company editou a obra-prima da literatura moderna, Ulisses, de James Joyce, que havia então sido proibida no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Cabe lembrar que é da epígrafe de outro título do escritor irlandês, Retrato do artista quando jovem (“Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida”), que Clarice, sem saber, e aceitando sugestão do amigo Lúcio Cardoso, tomou emprestado o nome para seu primeiro livro.

A loja, que desde a abertura estava localizada no número 12 da rua Odeon, foi obrigada a fechar em junho de 1940 durante a ocupação alemã em Paris. Terminada a guerra, outro americano, George Whitman, abriu na rua de la Bûcherie, 37, a livraria Le mistral, tendo como modelo a de Sylvia. Com a morte da proprietária, em 1964, George, que havia recebido dela, seis anos antes, autorização para uso do nome original, trocou então seu letreiro para Shakespeare and Company.

Também sob a nova direção, o lugar foi frequentado, em diferentes épocas, por escritores como Allen Ginsberg, Henry Miller e Anaïs Nin, hospedou amigos (pois dispunha de cômodos para esse fim) e abrigou, entre 1978 e 1981, a sede do jornal literário Paris Voices. Segundo definição do dono, o estabelecimento poderia ser considerado “uma aventura socialista disfarçada de livraria”.

Em foto publicada no perfil do instagram da livraria, 8 de março passado, o rosto de Clarice aparecia ao lado do da atriz Marianne Faithfull e outros, estampados nas capas dos livros erguidos pelas frequentadoras da loja durante a celebração do Dia Internacional da Mulher.

Capa do livro Complete stories, de Clarice Lispector, na festa de comemoração do Dia Internacional da Mulher promovida pela livraria parisiense Shakespeare and Company.

O destaque dado à escritora brasileira por uma livraria especializada em idioma inglês — e que foi, como vimos, casa editorial de um ilustre inventor da língua, como Joyce —, além de reafirmar a qualidade já avalizada da tradução de Katrina Dodson e os esforços de Benjamin Moser na promoção da autora nos países anglófonos, dá a dimensão do prestígio cada vez maior que Clarice tem alcançado fora do Brasil.

“O lustre” é publicado em inglês

O lustre, segundo romance de Clarice Lispector, publicado em 1946, ganhou recente tradução para o inglês, realizada por Benjamin Moser e Magdalena Edwards. O novo título, The chandelier, é mais um da série de traduções de obras da autora que vêm sendo publicadas nos últimos anos. Em depoimento ao The New York Times, Moser observa que talvez esse seja o livro mais estranho e difícil da escritora brasileira (nascida na Ucrânia, em 1920). O crítico britânico Christopher Ricks, por sua vez, enxerga nele uma miniatura do universo de Clarice:

Muitos temas, indagações filosóficas e tipos de personagem que aparecem [em O lustre] retornarão depurados na medida em que Clarice refina seu estilo e os cristaliza nos diamantes perfeitos que serão seus últimos livros, narrados com aforismos e fragmentos — que ela chamava de “antiliteratura”.

O jornal americano ainda celebra a redescoberta de Clarice nos Estados Unidos como um dos verdadeiros acontecimentos literários do século XXI, ressaltando a singularidade de sua escrita, marcada por uma pontuação e uma sintaxe únicas, além de uma capacidade de ressignificar as palavras segundo seu próprio desejo — “Ninguém se parece com Lispector (…). Ninguém pensa como ela”, conclui o jornalista Parul Sehgal.

Alguns dias depois do destaque dado a The chandelier pelo jornal americano, o editor Gregory Cowles incluiu o título na lista de dez sugestões de leitura que fez para a prestigiada coluna Book Review.

Leia aqui a matéria do The New York Times.

*Foto: Fotógrafo não identificado/ Arquivo Clarice Lispector/ IMS

Clarice Lispector por Jorge Carrión

O escritor e crítico literário espanhol Jorge Carrión publicou recentemente, no New York Times, um ensaio sobre a vida e a obra de Clarice Lispector (“La pasión según Clarice Lispector”). O autor parte da leitura de Por qué este mundo, a biografia de Clarice escrita por Benjamin Moser, recém-lançada em tradução espanhola pela editora Siruela, para abordar questões mais amplas relacionadas à obra clariceana:

Ela não gostava de entrevistas e a ficção, em seu caso, é muito mais importante, incisiva e eloquente do que a não ficção. Ao ler seus romances e contos, poderíamos concluir que é uma escritora hermética, próxima ao misticismo. Porém, creio que, pelo contrário, ela é uma artista absolutamente contemporânea, que resolveu em sua obra uma das grandes questões literárias da nossa época: como escrever com ambição abstrata paisagens mentais com palavras figurativas.

Ou seja, para Carrión, a obra de Clarice é “corporal, totalmente vital e sanguínea”, embora esteja coalhada de metáforas e mistérios. Essa característica, ainda segundo o crítico, aproximaria sua prosa da poesia. Por isso, talvez, ela escrevesse como se fosse para salvar a vida de alguém, talvez a dela própria, como disse em Um sopro de vida.

Leia o ensaio de Carrión, em espanhol, clicando aqui.

Biografia de Clarice ganha edição em espanhol

A biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser, Why this world (Oxford University Press, 2009), segue circulando pelo mundo. Publicada no Brasil também em 2009 pela Cosac Naify, com tradução de José Geraldo Couto, a obra ganhou nova edição este ano, desta vez pela Companhia das Letras. Intitulada Clarice,, a biografia reeditada conta com novas fotos, imagens raras, cartas e manuscritos descobertos pelo próprio Moser.

O livro chega agora aos países de língua espanhola. A editora madrilenha Siruela lançou Por qué este mundo. Una biografía de Clarice Lispector (trad. Cristina Sánchez-Andrade) em setembro na Europa e começou a distribui-lo na América Latina este mês. Os novos lançamentos darão oportunidade aos leitores hispanófonos de entrar em contato com uma “biografia digna de sua protagonista”, segundo Orhan Pamuk, escritor turco vencedor do prêmio Nobel. “Enfim, uma das autoras mais enigmáticas do século XX retratada em todo seu vibrante colorido”.

Ficou interessado? Você pode ler um trecho da obra clicando aqui.

A hora e a vez de Clarice Lispector

Em 2017, comemoram-se os quarenta anos de A hora da estrela, último livro escrito por Clarice Lispector e publicado no ano de sua morte. O evento “Hora de Clarice”, organizado anualmente pelo IMS para celebrar o aniversário da escritora (10 de dezembro), homenageará esse legado com uma programação diversa em suas sedes. Além disso, outras instituições promoverão leituras, lançamentos e apresentações dentro e fora do Brasil.

Um dos destaques do projeto é a leitura de A hora da estrela dirigida por Bruno Lara Resende, com os atores Ana Carina, Charles Fricks, Marcio Vito e Raquel Iantas. A apresentação será no dia 10 de dezembro, no auditório do IMS do Rio de Janeiro. No IMS de Poços de Caldas, o professor Sérgio Roberto Montero Aguiar falará sobre a relação de Maria Bethânia com a obra de Clarice, utilizando áudios com fragmentos declamados em shows e livros, discos e projeção de imagens. Em São Paulo, haverá um encontro com a escritora e tradutora Idra Novey, que verteu A paixão segundo G.H. para o inglês.

Esta edição reafirma a projeção cada vez maior da obra de Clarice no mundo. Um dos marcos mais recentes foi a publicação de The Complete Stories pela editora norte-americana New Directions, considerado pelo New York Times como um dos cem melhores livros de 2015 e vencedor do prêmio PEN de tradução. Em 2017, outra tradução de fôlego veio a público, desta vez na França: a casa Des Femmes-Antoinette Fouque publicou Nouvelles – Édition Complete, reunindo 85 textos.

“Hora de Clarice” faz parte desse grande movimento de divulgação internacional da obra clariceana. Nesta edição, entre as atividades fora do Brasil estão o lançamento de A paixão segundo G.H. na Turquia (pela editora MonoKL) e uma celebração na embaixada brasileira na Holanda, onde também se publicará uma tradução do romance. Além disso, em Portugal, também no dia 10, será lançada Clarice, uma biografia, escrita por Benjamin Moser.

Ao passo que cresce a notoriedade no exterior, o reconhecimento em terras nacionais se fortalece ainda mais. Uma das autoras mais amadas do Brasil, além de objeto de extensa e fértil fortuna crítica, Clarice desperta muito interesse, como se pode notar pelos diversos eventos programados para acontecer na semana da “Hora de Clarice”, em várias regiões do país, de São Paulo a Caraúbas, na Universidade Federal Rural do Semi-Árido.