Pequenas leituras

IMS, Equipe. Pequenas leituras. IMS Clarice Lispector, 2025. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2025/12/10/pequenas-leituras/. Acesso em: 03 abril 2026.

No Hora de Clarice 2025, celebraremos nas vozes e atuações das crianças, o livro infanto-juvenil A vida íntima de Laura, publicado por Clarice Lispector em 1974. Neste filme, seis crianças recontam, atuam, ilustram e co-dirigem a história da galinha Laura, de seu marido Luís e de seu filho Hermany no galinheiro de Dona Luísa.

O curta-metragem é fruto de um trabalho que aconteceu durante o ano letivo de 2025 e envolveu profissionais do Departamento de Literatura e alunos da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, unindo educação, literatura e arte, em três etapas. Na fase da preparação, cada criança recebeu um exemplar do livro (doados pela editora Rocco) e participou de uma atividade de leitura compartilhada; num segundo momento, discutiram a história com seus pais e mães em casa; já na terceira etapa – criativa e artística – elas fizeram um trabalho de encenação de algumas passagens da história e de ilustração de três cenas. São esses os desenhos que dão colorido ao filme em uma releitura inédita da história da galinha Laura.

Notas

Clarice Lispector e a invenção da judeidade

Bernardo Fuks, Betty. Clarice Lispector e a invenção da judeidade. IMS Clarice Lispector, 2025. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2025/09/25/clarice-lispector-e-a-invencao-da-judeidade/. Acesso em: 03 abril 2026.

Benjamin Moser, um dos mais importante biógrafos de Clarice Lispector, declarou numa entrevista que uma de suas ambições ao escrever Why This World, publicado nos Estados Unidos e traduzido como Clarice, uma Biografia, era o de promover um espaço ao questionamento de um tema muito pouco trabalhado por críticos literários, comentadores e  biógrafos – a “judeidade” da escritora. 1 Isso porque a grande maioria deles se limita à refletir sobre o tema da brasilidade, “como se fosse preciso escolher, entre ser judia e ser brasileira”. É verdade que o fato de Clarice jamais ter sido explicitamente judia, ao longo de sua obra, dificulta  tais reflexões, porém essa falta é justamente o que Moser considera como algo bastante judaico pois, em geral, os “grandes escritores judeus costumam não falar abertamente, ou só raras vezes, do judaísmo”. 2 Sobre isso, ele nos oferece como exemplo as obras de dois escritores de origem judaicas, Marcel Proust e Franz Kafka. 

O que marca a presença judaica, na literatura escrita em línguas não-judaicas? Pergunta-se Bertha Waldman em “Por  linhas  tortas:  o  judaísmo  em  Clarice  Lispector”. Para responder à questão, a autora toma como ponto de referencia as considerações do filósofo alemão Franz  Rozenzweig: 

Um livro  judeu, não  aquele que trata de   “coisas   judias”  pois se assim o fosse os protestantes que recorrem ao Antigo Testamento estariam  escrevendo livros judaicos (…).  Para o escritor judeu as velhas  palavras  judias  voltam  para  dizer  o  novo,  pois  elas  carregam  uma  eterna  juventude  e  são  capazes  de  renovar  o    mundo,   desde   que   se   lhes   abra   uma   brecha   de   atuação. 3

Ou seja, a enunciação do escritor de origem judaica deve estar ligada ao trabalho de sacar  da memória coletiva, um dizer singular capaz de se sobrepor ao dito. Waldman também faz notar, como Moser,  que  o leitor de  Franz  Kafka não encontra  temas judaicos em suas obras. E  se referindo à  uma passagem extraída de um dos diários desse escritor tcheco que escrevia em alemão, a autora faz notar que nenhum código judaico – fundamentos e signos religiosos, vestuários ou cenas ritualísticas –, por si só, teria a capacidade de fazer emergir o judaísmo na obra de um autor judeu. Para Kafka, “seria preciso, extrair os elementos internos [do texto] para deixar emergir um feixe de sentidos que apontem para uma questão que não se encontra manifesta na obra mas que se impõe de algum modo ao leitor”. 4

As questões assim colocadas por Moser e Waldman, são bastantes úteis ao objetivo desse ensaio: procurar encontrar nas entrelinhas, nas margens e nos brancos do texto de Clarice Lispector, o modo como ela foi inventando sua judeidade e o que essa experiencia contribuiu à criação de uma escrita singular advinda de diferentes lugares culturais.   

Antes de prosseguir gostaria de introduzir a distinção estabelecida pelo escritor Albert Memmi. Em seu livro O homem dominado, dos termos “judaísmo”, (conjunto das tradições culturais e religiosas); “judaicidade” (conjunto de pessoas judias dispersas  pelo mundo); e “judeidade” (maneira pela qual um judeu subjetiva e objetiva o fato de ser judeu).5 De acordo com essa distinção, entendo por judeidade um projeto que ultrapassa a simples observância dos preceitos religiosos judaicos, escapa as contingencias do mero nascimento e determina a inserção do sujeito no futuro. Nesse sentido recorro também a definição de Jacques Derrida do termo judeidade: uma expressão que funda o ato de tornar-se outro. Trata-se de uma categoria impossível de ser enclausurada sob pena de impedir o seu próprio por-vir. Rodrigo Ielpo, refletindo sobre o modo como os romancistas George Perec e Patrick Modiano inventam suas judeidades, faz notar justamente que em Derrida a “judeidade” possui um caráter criativo. “O por-vir que constituirá sua rede de significações dependerá, de uma experiência de invenção, ao mesmo tempo profética, desde que não seja cognoscível enquanto tal, e poética”. 6

Afirmativa que ecoa o texto “Abrão, o outro”, no qual Derrida, revisitando a obra Reflexões sobre a questão judaica (1954) desconstrói a lógica simplista do autor, J. P. Sartre, em determinar o perfil do que viria a ser o judeu “autêntico” e o judeu “inautêntico” nos seguintes termos para ambos: “Sou um judeu sabendo e querendo dizer o que pareço dizer”.7 Para o filósofo da desconstrução, essa solução, por princípio, é absolutamente equivocada, dado que na falta de uma essência, a partir da qual se nomeia o “ser judeu”, o fazer (o ato) se antecipa a qualquer saber. Derrida não se limita a desconstruir a lógica sartriana e, em nome da memória de um povo em exílio, autoriza a si mesmo dizer: “sou judeu, mas não pretendo saber o que é”. O movimento afetivo que subjaz a esse testemunho é radical: “dizer-se judeu é aceitar uma vertigem, um indecidível, o risco de uma denominação para além de qualquer identidade”.8 Esse seria o princípio inventivo da “judeidade”.  

Um ano antes de sua morte, Clarice Lispector escreve num artigo para o Jornal O Globo: “Eu sou judia você sabe. Mas não acredito nessa besteira do povo judeu ser o povo eleito de Deus (…). Eu, enfim, sou brasileira, pronto e pronto. 9 Esse duplo pertencimento não foi uma tarefa fácil de  cumprir para a desafiadora escritora de “Pertencer”. “Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, de algum modo eu devia estar sentindo que não pertenço a nada e a ninguém”.10 Ser judia, ser brasileira e, ao mesmo tempo carregar, desde o berço, o sentimento de estar também fora de qualquer comunidade. Como interpretar esse paradoxo?  

Vejamos. Numa carta às suas duas irmãs, Elisa e Tânia, logo depois de confessar o tédio que experimentava na tranquila capital da Suíça, Berna, Clarice escreve: “É engraçado que pensando bem não há um verdadeiro lugar para se viver. Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes. É tão esquisito estar em Berna e é tão chato esse domingo. Parece com domingo em São Cristóvão [Rio de Janeiro]”.11 Um sentimento de estrangeireidade pulsava dentro dela e registrados nas inúmeras e centenas de vezes que os termos “estranho”, “estrangeira” e “estrangeireidade” aparecem em seus contos e romances.12 Antônio Callado, certa vez, fez um comentário percuciente, a partir do contato íntimo com sua amiga, sobre a inquietante estranheza (Unheimlich)  que os textos claricianos produziam no leitor. “Clarice era uma estrangeira da terra. Ela dava a impressão, de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há uma greve geral de transporte”.13 Por sua vez, Carlos Drumond de Andrade poetizou, no dia da morte de sua grande amiga, o mistério de sua condição de estrangeira:   

Clarice, veio de um mistério, partiu para outro

Ficamos sem saber a essência do mistério 

Ou o mistério não era essencial,

Era Clarice viajando nele (…) 14

Elisa Lispector, a irmã mais velha de Clarice, em seu romance autobiográfico No Exílio: Romance, dá a conhecer como foi a vinda da família, fugida dos progroms (termo que designa a destruição maciça dos judeus) que tiveram lugar em 1917 na Rússia, para o nordeste brasileiro. A obra de Elisa, conforme as observações de Moser, ecoa o estribilho Fun vonen is a yid? (De onde vem o judeu?), um modo particular dos judeus em  perguntar, em ídiche, a um patrício sobre sua origem. Língua de fusão, uma língua românica hebraizada da Lotaríngia, o médio alto alemão, bem como várias línguas eslavas o caráter extremamente híbrido do ídiche fica evidenciado no seguinte exemplo proposto por Max Weinreich: “Nokkn bentshn hot der zeyde gekoyfte a seyfer é uma frase em ídiche que significa: “Após a bênção que se seguiu à refeição, o avô comprou um livro religioso.” Nesta simples frase, a palavra seyfer vem do hebraico, a palavra bentshn, vem do românico, as palavras nokkn, hot, der, gekoyft, são de origem germânica; finalmente, zeyde é uma palavra eslava”.15 O ídiche era muito falado nos “pequenas povoados” (shtetlakh, em iídiche), em geral habitado por judeus em condição de pobreza e opressão, estabelecidos nas zonas rurais do leste.

Os avós paternos das irmãs Lispector viviam num desses povoados e os avós maternos numa cidade próxima. Eles se comunicavam com seus filhos e com os membros da comunidade, na língua errante e pouco falavam no idioma do  país, o russo. Os pais de Clarice, quando chegaram ao Brasil, deram continuidade à tradição de falar ídiche entre si. Sobre isso, há um dado importante relatado pessoalmente pela própria Elisa Lispector à Claire Varin, uma das mais conhecidas estudiosas da obra clariciana. Quando criança, sua irmã entendia o ídiche falado pelos pais em casa e ouvia, ao mesmo tempo, o ídiche e o português. “Vivo “de ouvido”, vivo de ter ouvido falar” eis o que chama atenção de Varin num manuscrito clariciano que encontrou em meio a outros documentos. É interessante destacar sua conclusão a respeito dessa frase: Lispector tinha a um “bilinguismo oculto”, fruto de suas experiências auditivas desde a infância. O ídiche foi a língua materna decisiva no domínio das inúmeras línguas que ela falava.16 Além de ter escutado a língua errante entre os familiares, pais e tios,  Clarice estudou no Colégio Hebreu Ídiche (Recife) 17, onde provavelmente teria tido aulas de ídiche, e talvez até mesmo do hebraico, uma vez que as escolas da comunidade judia eram naquela época, no mínimo, bilingues. Porém, é na língua da diáspora brasileira, o português, que Clarice encontra o lugar de sua língua: a escrita.  

O caso dos judeus como minoria à parte de uma sociedade de iguais, remonta ao exílio multimilenar – babilônio no século VI a.C., romano, e finalmente, pós-romano –, que lançou o judeu na experiência da Diáspora, palavra de origem grega que significa “estar disperso entre os povos, “estar fora de”, ou melhor, “não pertencer a”.18 Uma palavra que contém a ideia da experiência de ruptura, que toca os fundamentos da existência do povo judeu. Em O indestrutível, Maurice Blanchot insiste: “Que significa ser judeu? Por que isso existe? Isso existe para que exista a ideia de êxodo e a ideia de exílio como movimento justo; isso existe através do exílio e por essa iniciativa que é o êxodo, para que a experiência de estrangeiridade se afirme entre nós numa relação irredutível; isso existe para que, pela autoridade dessa experiência, aprendamos a falar.” 19

Eu nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo”. Adestrei-me desde os 7 anos de idade para que um dia eu tivesse a língua  em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que chamo de viver e escrever.20

Maldição e benção, a escrita mantem Clarice viva.  

À insistência de Blanchot em que o Judeu existe para que se aprenda a falar, há que se somar, então,   à obstinação de Derrida em afirmar que dentro da perspectiva de um certo judaísmo, o ato de apender a escrever revela-se como nascimento e paixão pela escritura, amor e sofrimento da Letra. Conforme faz notar num ensaio que dedicou a interpretar as judeidades de Edmond Jabés, poeta judeu expulso do Egito e exilado na França onde passa a escrever em francês, “o Judeu é dilacerado e está, antes de tudo entre duas dimensões da letra, a alegoria e a literalidade”21 –, ambas se dando no recurso à língua de um outro lugar, do estrangeiro. Sendo o ato de escrever uma forma de exilar-se de si, de ir ao encontro da “terra estrangeira interior22, entende-se o porquê de Clarice em afirmar que viver e escrever é um ato de renovação de si.  

A letra ocupa um lugar central no judaísmo, a começar pela estranha e assombrosa ideia da grafia do nome de Deus, o tetragrama IHVH, um escrito que não se lê. Um deus pura letra que não pode exercer a função de semelhante no espelho porque alteridade radical. A proibição do segundo mandamento de erigir imagem esculpida, de nada que possa representá-Lo (Êxodo,20:4) impôs e impõe a Ausência no espirito humano que não se cansa de procurar organizar-se no sentido das imagens e da presença figurada. Nesse sentido, a leitura do grafo que marca a linguagem, IHVH, provocou na cultura um retraimento do visível ao legível-audível, obrigando ao povo judeu o esforço de manter-se voltado ao Incognoscível e escutar o Silêncio. Blanchot, não hesitou em dizer que quando se pensa nesse Deus inabordável e transcendental, distante e absolutamente Estrangeiro, em geral marca-se apenas sua Ausência absoluta, deixando de lado o fato de que Sua revelação é acompanhada da “manifestação da palavra como lugar onde os homens se relacionam com aquele que exclui toda a relação: o infinitamente Distante (…)”.23  

As palavras do poeta judeu Edmond Jabès ajudam a ilustrar essa proposição.  

A seu povo, Deus manda escutar: ‘Escuta, Israel.’ Mas escutar o quê? Escuta as palavras do teu Deus; mas Deus está ausente e suas palavras sem voz, pela distância cortada de seus sons. Escuta o silêncio, pois é nesse silêncio que Deus fala à sua criatura […]. O interdito original confere à não-representação seu caráter sagrado. A língua de Deus é a língua da ausência.24

De fato, escutar é um dos sentidos que ocupam um lugar de destaque na liturgia judaica. O texto é lido em voz alta, e o que, no Ocidente, entende-se por escritura na expressão Sagradas Escrituras em hebraico se diz mikra, leitura. Os  que fundaram o cânone judaico passaram na tradição a leitura-escritura da Palavra não como desvelamento, mas como criação de sentido.25 Nessa passagem do ver à escrita o leitor escuta a errância das letras que se combinam infinitamente diante do silêncio de IHVH. 

A escrita de Clarice é decerto tributária dessa tradição, mas isso não significa uma simples submissão ao passado. A determinação que vem de fora – escutar o Silêncio – só se realizará na invenção poética da autora. Lembremo-nos dos versos de Goethe citado por Freud em Totem e Tabu: “Aquilo que herdastes de teus ancestrais, conquista-o para torná-lo teu”.26 A invenção poética da autora traduz  o processo de invenção de sua judeidade: Clarice dramatiza no presente sua própria história como ficção, por exemplo, em Um sopro de vida. E claro, Ângela a personagem desse “livro silencioso”, é quem protagoniza a judeidade de Clarice. 

Eu inventei Deus – e não acredito n’Ele. É como se eu escrevesse um poema sobre o nada e me visse de repente encarando frente a frente o próprio nada. Deus é uma palavra?  Se for estou cheio dele:  milhares de palavras metidas dentro de um jarro fechado e que às vezes eu abro – e me deslumbro. Deus-palavra é deslumbrador.27 

“Eu sou judia, você sabe… Eu enfim sou brasileira, pronto e pronto”. Se por um lado o vazio no centro do judaísmo é a presença silenciosa e vertiginosa que alimenta a escrita de Clarice, por outro ser brasileira foi uma escolha que determinou, como dizem muitos de seus comentadores, a reinvenção da literatura brasileira. Benjamim Moser, seu biógrafo americano citado no início desse ensaio   reconheceu que Clarice é a maior escritora moderna do Brasil sem ser, num certo sentido, uma escritora brasileira. Um paradoxo captado pelo poeta Lêdo Ivo: “Essa prosa fronteiriça migratória e emigratória, não nos remete a nenhum de nossos antecessores preclaros. Dir-se-ia que brasileira naturalizada, naturalizou uma língua”.28 Veremos mais detalhadamente, mais adiante, que em Clarice, judeidade e brasilidade são experiencias estrangeiras ao seu próprio eu. Seus escritos são a prova viva do famoso aforisma freudiano: “o eu não é senhor de sua própria casa”. 

É possível que nossa autora tenha sido marcada não apenas pelo peso da perseguição antissemita que levou sua família ao desterro e  ao exílio, mas igualmente pela presença da figura do estrangeiro no Antigo Testamento. “E te lembrarás de que foste escravo no Egito. Eis por que te ordeno respeitar o estrangeiro” (Deuteronômio, 24:17). A própria Aliança, o pacto entre os hebreus e IHVH que lhes assegura uma identidade, comporta a ideia de estranhamento (Unheimliche – o conhecido/desconhecido) que incomoda e dilui as certezas do mesmo. Estruturalmente, algumas das narrativas da Bíblia hebraica dão a impressão de que o nomadismo, tão característico da sociologia bíblica, bem como da ética da Torá, não é outra coisa senão a expressão permanente de uma marca identificatória e de seu múltiplo e infinito devir. Aquilo que chama atenção no Livro não é apenas a precedência de uma experiência nômade sobre a da sedentarização, mas sobretudo o prolongamento da errância pelo deserto e a retomada de um êxodo sempre refeito. E é essa mobilidade inesgotável do nomadismo e da errância inscrita na história do povo judeu que aparecem nas personagens femininas de Clarice. 

 Joana, personagem do Coração Selvagem, inaugura., com a viagem a que se lança no final do romance, a busca inquietante que as demais personagens empreenderão, cada uma a sua maneira. Virgínia, personagem principal do Lustre, abandonará o lugar onde nasceu para enfrentar a cidade grande. Lucrécia, personagem de A Cidade Sitiada , é movida pelo desejo de abandonar o subúrbio de São Geraldo. (…) Macabéa, de A hora da Estrela, é alagoana e vem tentar a vida no Rio de Janeiro. A procura de inserção num lugar é própria às personagens e à autora.29

Cada uma dessas mulheres encena, também, o permanente exílio de si em Clarice, o  que o passo que lhe permite ir ao encontro do  desconhecido, num verdadeiro aprendizado de alteridade. A invenção da judeidade em Clarice se confundiria, então, com a própria lógica bíblica de eleição da estranheza – “tornar-se judeu” – intrínseca à Aliança de Deus com seu povo. Abrão, o patriarca hebreu inaugura uma noção do exílio que não está referida à punição, como a de Adão e Eva, Torre de Babel, ou a de Édipo, mas que é partida do “ser em face de si mesmo”, partida de “alguém que, munido de sua experiência da liberdade e da oposição, integra-a algo que a ultrapassa. A Abraão, Deus não diz somente ‘Vai’, mas ‘Vai por ti’” (Gênesis, 12.1.1).30   

E Clarice vai! E vai no sentido inverso da multidão: “Ela era um exemplo brutal da singularidade da pessoa humana”, escreveu Otto Lara Resende, quando Clarice faleceu.31 

Ora, o avô paterno das meninas Lispector, Schmuel Lispector, era um grande leitor e intérprete do Antigo Testamento e dos grandes livros sagrados que dele se originaram – Midrash e Talmud.32 Por conta dessa paixão pela Escritura, ele alçou o status de um homem sábio e santo; o que lhe valeu atrair em torno dele muitos estudiosos dos textos sagrados. Schmuel transmitiu ao seu filho Pinkhas (Pedro), o costume de ler o Tanakh, os 5 primeiros livros do Antigo Testamento, diariamente e é provável que Clarice e suas irmãs tenham ouvido do pai muito das histórias que povoam esses livros. Pedro deixou a Europa levando consigo, mesmo que tenha sido apena simbolicamente, a “pátria portátil dos judeus”, o Livro dos livros. De modo geral, pode-se dizer que a relação do povo judeu com o Deus da intolerável ausência se estruturou em torno Torá (Pentateuco) ou Revelação – um código falado e escrito de comunicação dos homens entre si e do homem com o divino. Esse livro e a tradição constituíram, ao longo dos séculos, a um só tempo, o eixo estruturante da religião, da ética e da política do povo judeu, bem como o espaço no qual os judeus desenvolveram uma práxis singular de interpretação que se revelou capaz de sustentar a transmissão do judaísmo e reconfigurações das  “judeidades” emergentes. 

Nômades, como as letras hebraicas que se aglomeram no branco de um pergaminho ancestral, os doutores da Lei e os comentadores do Texto ousaram dizer sempre mais do que no Livro aparecia manifesto, tornando-o, desde tempos imemoriais, um território que se prestou ao amplo acolhimento das subjetividades emergentes. Assim, vagando pelo mundo através dos séculos e das gerações, com letras e palavras transbordantes de sentidos, o povo judeu soube fazer da interpretação uma prática de deixar às letras a possibilidade de serem letras e de aproveitar os brancos do Texto como uma reserva de sentido sempre disponível para o leitor/intérprete. Esta incessantemente reencetada missão de ler as letras, multiplicar as combinações entre elas, reescrevendo-as num movimento contínuo de construções significantes singulares acerca da origem, do valor e do sentido da vida e da morte, acabou – conforme afirmaram algumas vezes Sigmund Freud e Jacques Lacan – por designar o judeu como aquele que sabe ler. E se é verdade que a religião começa onde se para de ler33, é forçoso dizer que há no judaísmo um ateísmo por se extrair: ele exige do intérprete da Escrituras, o compromisso de dessacralizá-la fazendo-a nascer de novo, recriando-a, inventando-a como no dia da criação.

Pode-se dizer que o talmudista é, por princípio, um “traidor” de toda e qualquer “leitura” imutável, isto é, religiosa – que impeça a produção de pensamentos. Ele se pergunta sobre o que lê e, por esta via, extrai dizeres outros, nunca os mesmos. Trata-se, como faz notar Henri Atlan, de garantir a lei antiidolátrica do segundo mandamento e o ateísmo da escritura. A luta contra a idolatria evita a ilusão da posse do sentido. O Texto é inconquistável e inapreensível. Dito de outra forma: “Os paradoxos da linguagem e de suas significações são de tal ordem que um discurso sobre Deus que não seja idólatra, que se abstenha de apreender ou conquistar seu Nome, é, inevitavelmente, um discurso ateu”.34 

Comporta a escrita de Clarice esse ateísmo marcado pela ausência de sentido?  

A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou busca-la _  e como não a acho. Mas é do buscar e do não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto de mãos vazias. Mas _ volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela não conseguiu.35 

Clarice expressa, nessa passagem da obra Paixão Segundo de G H, o fracasso da linguagem em nomear o inominável. Fracasso que paradoxalmente a reconcilia com a vida na palavra por vir, o outro que decidirá, o que “judeu”, “judaísmo” e “judeidade” terão significado. Mesmo porque a escrita de Clarice e advém da “terra de asilo interior”, nas palavras de Freud, que o sujeito contém em si mesmo.36 

Retomando, então, a ideia do filosofo Rozenzwaig de que a presença do judaísmo no livro de um autor só pode ser reconhecido como marcado pelo judaísmo, se as velhas palavras judias voltam para dizer o novo, e renovar o mundo, é possível reconhecer na escritura de Clarice a envergadura de uma autora que ao reescrever os traços da herança arcaica, valendo-se da Escritura que é marcada pela memoria de um povo em exílio, soube transformá-la numa ficção moderna. Nessa mesma linha  Sigmund Freud, ao retornar ao Antigo Testamento, para escrever O homem Moisés e o monoteísmo,  constrói uma “ficção teórica”, uma escrita que se assemelha a uma obra de imaginação sem desobedecer os critérios de cientificidade. E se Freud na leitura do Êxodos procedeu como um velho talmudista, isto é, multiplicou as combinações entre a letras desse livro, cortou palavras e frase e buscou nas margens e nos brancos dos textos dos historiadores e egiptólogos significantes que pudessem iluminar sua hipótese de Moisés ter sido um egípcio para sustentar a tese de que a identidade de um povo advém do Outro, do estrangeiro em relação ao si mesmo; Clarice Lispector em A hora da estrela, toma como referência os Livros dos Macabeus e transforma o herói, Judas Macabeu, numa anti-heroína nordestina destinada a passar despercebida porque “ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham”.37 Pode-se dizer que como Freud, Clarice se valeu da modalidade de leitura milenar do Texto, uma démarche interpretativa singular cujo percurso consiste em buscar o que se encontra fora do texto e assim ir além da linha da escrita. Diferentemente de uma exegese, a interpretação talmúdica implica em criação e transformação, jamais decifração pela operação de uma chave simbólica eu venha substituir um versículo por algo mais inteligível. Trata-se de um trabalho semelhante ao que em psicanálise se atribui ao “trabalho do sonho”: processo de elaboração onde a atividade de um pensamento sem qualidades não é nem pensar, nem calcular, nem, de um modo geral, julgar, mas unicamente transformar. Um trabalho por-vir, isto é, “profético, (…). E poético”, parodiando Derrida citado no início desse ensaio.  

Macabéa, a protagonista do livro A hora da estrela, é um nome que consta na tradição folclórica da literatura de cordel nordestina. Entretanto, a autora a associa aos Livros dos Macabeus, dois livros apócrifos da Bíblia hebraica porque escritos em grego, embora provavelmente o primeiro tenha sido originalmente escrito em hebraico. O tema dessas duas obras gira em torno da resistência à opressão do outro poderoso. Resumidamente, o primeiro volume narra a perseguição do rei grego, no ano de 175 a. C, aos judeus: proibiu-os de praticar rituais de sua fé, de se dedicarem à leitura da Torá e lhes  impôs a crença no deus Zeus Olímpico. Enquanto parte do povo se rendeu à conversão, Matatias, o velho sacerdote do Templo, e seus cinco filhos continuaram fiéis a lei de Moisés. Judas Macabeu, um dos filhos de Matatias se tornou herói, ao assumir a rebelião contra os gregos após a morte do pai.  Devolve ao povo submisso a permissão de seguir a lei de Moisés e o Templo de Jerusalém, confiscado pelos gregos adoradores do deus pagão. Mas como todo herói, o destino trágico se cumpre: passado alguns anos da vitória que deu origem a festa judaica de Chanuka (Festa das Luzes), Judas Macabeu é morto em combate com o exercito do novo rei que colocou o povo judeu, mais uma vez, no lugar do  diferente, o inimigo a ser destruído. 

O Texto demanda interpretação do que lá não está. Clarice, tomada pelas urgências sócio-políticas de seu tempo – a extrema injustiça social para os nordestinos, os excluídos do progresso brasileiro –, retorna as letras do pergaminho ancestral. Seguiu as letras da história contada nos Livros dos Macabeus, obedecendo ao processo de historicização do judaísmo, isto é, fazendo coexistir o passado com o presente como virtualidade. Sendo virtual, o passado apresenta-se como um conjunto de singularidades que nada designa nem significa, até que aconteça uma atualização significante que demande interpretação. Macabéa, a jovem mulher extremamente pobre que sai de Alagoas, em busca melhores condições de vida, para uma metrópole do sudeste. Como ela, outras Macabéas padecem com a miséria e abandono em terra estrangeira e, por conta disso, aceitam todo o sofrimento que lhe é imposto pelo outro, porque não conhecem outra realidade possível. “Nas ruas do Rio de Janeiro, [relata Rodrigo, o narrador do romance] peguei no ar o sentimento e perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu menino me criei no nordeste”.38  

Macabéa, observa Nelson Vieira em “A expressão judaica na obra de Clarice Lispector”, sobrevive resistindo como os filhos de Matatias na sua teimosia em persistir na obediência à lei de Moisés. Ao contrário de seu namorado, que também é nordestino, Olímpico de Jesus, uma alusão ao nome de Zeus Olímpico, Macabéa não se deixa seduzir pela corrupção capitalista que graça na antiga capital do Brasil. Ela é “firme em oposição à falsidade do mundo. Sua fé intuitiva e teimosia se opõem às almas perdidas que encontra nas ruas do Rio”.39 Uma outra personagem da narrativa, Dona Carlota, a cartomante meretriz que ludibria a ingênua Macabéa lhe prever um futuro brilhante: casaria com Hans, o estrangeiro rico de nome alemão, que é dono da Mercedes – o carro do chanceler do Terceiro porta, como lembra Pedro Gurgel Valente, filho de Clarice, no posfácio de A obra da estrela. É nesse ponto que a lógica ficcional de Clarice enlaça o sofrimento de dois povos, acostumados a receber o ódio do outro que se constitui como idêntico a si mesmo. O destino da moça anônima do nordeste não deixa dúvidas: ele é tão trágico quanto a de Judas Macabeu. O carro amarelo “enorme como um transatlântico” atropela, na calçada Macabéa, a judia-nordestina clariciana. 

Aí Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem pronunciado e claro: – Quanto ao futuro. Terá tido ela saudades do futuro? Macabeia morreu . Vencera o Príncipe das Trevas.40 

Dois meses antes de morrer, Clarice dá provas da impossibilidade de se dissociar os significantes  judeidade e brasilidade. A hora da estrela é uma homenagem prestada às duas culturas e, ao mesmo tempo, o  reconhecimento de que se a história que ela escreve não existe, passará a existir: “Esta história acontece em estado de emergência de calamidade pública”. E o que fazer? 

É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, às vezes penso, diz o narrador Rodrigo/Clarice da trama, que não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou em mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.41  

  1. Este ensaio foi publicado originalmente no livro Lispectator, organizado por Marco Antonio Coutinho Jorge e Tarcisio Greggio e editado pela 7 Letras. []
  2. Benjamin Moser, Entrevista Aspectos judaicos de Clarisse. Museublog, arte. Cultura. 24.09.2009. https://museujudaicorj.blogspot.com/2009/10/aspectos-judaicos-de-clarice-lispector.html (Acesso, 14 de fevereiro de 2024) []
  3. Berta Waldman, “Por  linhas  tortas:  o  judaísmo  em  Clarice  Lispector”, in.  Arquivo  Maaravi:  Revista  Digital  de  Estudos  Judaicos  da  UFMG.  Belo  Horizonte,  v.  5,  n.  8,  mar.  2011. p.1 []
  4.  Berta Waldman, Por linhas toras: o judaísmo em Clarice Lispctor. In. Arquivo Maariv: Reista Digital de estudos Judaicos da UFMG.  Belo. Horionte, v. 5 n.8. []
  5. Albert Memmi, O homem dominado. Lisboa: Seara Nova, 1975. p.43-44.[]
  6. Rodrigo Ielpo, “Judeidade e a criação da memória potencial em Georges Perec e Patrick Modiano. Scripta Uniandrade, v. 16, n3 (2018) p 326 – 342. Curitiba.  2018. []
  7. J. Derrida, “Abraham l’autre”. In: Cohen J. Zagury-Orly. Judéités p. 36.[]
  8. Idem, ibidem. 37.[]
  9. Citado por Nelson Vieira. A. expressão judaica na obra de Clarice Lispector. Remate dos males, Campinas.[]
  10.  Clarice Lispector, “Pertencer”, in A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994, p.110.[]
  11. Citado de Olga Borelli, Clarice Lispector: Esboço para um Possível Retrato. Rio  de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 111. Carta de 5.05.1944.[]
  12. Sobre o uso desses significantes ver Yudith Rosembaum, “O infamiliar” in  Clarice Lispector IMS, 2024. https://site.claricelispector.ims.com.br/2024/02/22/o-infamiliar/ []
  13. Apud,  Nadia B. Gotlib, Clarice Lispector: Uma vida que se Conta, 2009, p. 52.[]
  14. Carlos Drumond de Andrade, “Visão de Clarice Lispector”, in: Discurso de Primavera e Algumas Sombras.  Companhia das Letras, 2014, p. 77.[]
  15.  Max Weinreich, apud Marc-Alan Ouaknin e Dory Rotnemer, A bíblia do humor judaico, p.25-6.[]
  16.  Claire Varin, entrevista concedida ao jornalista Ubiratan Brasil. Jornal de Poesias. http://www.jornaldepoesia.jor.br/ubrasil1.html (acesso em 20.02.2024). []
  17.  Pedro Gurgel Valente.  Posfácio da obra A hora da Estrela. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 2019, p. 85.[]
  18.  Suzana Rotker, Isaac Choctan & Elisa Lerner, Los transgressores de la literatura venezuelana, p.21.[]
  19.  Maurice Blanchot, “L’indestructible”, in L’entretien infini. p.183.[]
  20.  Clarice Lispector. “As três experiências”.  Jornal do Brasil. 11 maio de 1968. https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5887/as-tres-experiencias []
  21.  J. Derrida, “Edmond Jabes et  la question du livre”. In: Ecriture e la différence. Paris:  Seuil, 1967, p. 112”[]
  22.  Expressão que Freud utiliza para designar o inconsciente.[]
  23.  Maurice Blanchot, op. cit., p.187. Sobre a questão da Escuta do Silêncio no Judaísmo  encontra-se mais aprofundada no  capítulo IV do meu livro Freud e a judeidade, a vocação do exílio. Rio de Janeiro: Zahar, 2000 (99-114) []
  24.  Edmond Jabés, “Judaïsme et écriture” in Marie Moscoici & Jean Michel-Rey (orgs). L ‘ecrit du temp. Paris: Minuit, 1984. p. 8. Tradução livre. []
  25.  O tema da leitura-escritura no judaísmo encontra-se bem mais ampliado no capítulo V, Interpretação: errância e nomadismo da letra, do meu livro Freud e a judeidade, op. Cit. 9[]
  26.  Goethe, Fausto, parte I, cena 1, apud S. Freud, “Tótem y Tabú”, AE, vol.13, p.159. [“Totem e Tabu”, in ESB, vol.13] []
  27.  Clarice Lispector, Um sopro de vida (Pulsações). Editora Nova Fronteira. 1978. 126[]
  28.  Ledo Ivo, Citado por Benjamim Moser, op. Cit.  p. 24[]
  29.  Berta Waldman. O Estrangeiro em Clarice Lispector. In: Entre passos e rastros. São Paulo: Persspetiva. 2002, p. 18.[]
  30.  Sobre a relação das semelhanças e diferenças do mito de Édipo com os mitos bíblicos, cf. Bernard D. Hercenberg, op. cit., p. 149-94.[]
  31.  Otto Lara Rezende citado por B. Moser, op.cit. p. 540.[]
  32.  Midrash e Talmud. Conjuntos  da produção literária do Texto bíblico.[]
  33.  J.-P. Winter, “Transmisión y Talmude”, Bulletin interne de l’EFP, v. II, juin 1979.[]
  34.  Henri Atlan, “Niveaux de signification et atheísme de l’écriture”, in La Bible au présent, p.86.[]
  35.  Clarice Lispector. A paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 176.[]
  36.  Lydia Flem, O homem Freud, o romance do inconsciente, p.105.[]
  37.  Clarice Lispector, idem, p. 13.[]
  38.  Clarice Lispector, A Hora da estrela. Rio de Janeiro: 2020, p. 10.[]
  39.  Nelson H, Vieira. In: Clarice Lispector: Remates de Males: Revista do Departamento de Teoria Literária. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1989, pp 207-209.[]
  40.  Clarice Lispector, idem, p. 77.[]
  41. Idem, p. 32.[]

Notas

Rosas, sempre, para Clarice

Colasanti, Marina. Rosas, sempre, para Clarice. IMS Clarice Lispector, 2025. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2025/05/29/rosas-sempre-para-clarice/. Acesso em: 03 abril 2026.

O dia em que conheci Clarice não foi o mesmo em que ela me conheceu. Eu, toda adoração, observando-a, ela, sem motivo algum para pousar o olhar em mim. 1

Saindo juntos da redação do Jornal do Brasil, o jornalista Yllen Kerr, grande amigo meu, disse que estava indo visitar Clarice e perguntou se eu queria ir. Queria muito, muitíssimo! Desde o primeiro número da revista Senhor, lia vorazmente seus contos, havia lido Laços de família em puro encantamento, e naquele mesmo ano tinha ido a uma noite de autógrafos dela. Sim, eu queria. E lá fomos, rumo ao Leme.

Ela não veio nos receber à porta. Ou estava acabando de se aprontar ou conservava hábitos de Itamaraty. A sala em penumbra, aceso somente um abajur ao lado do sofá. Foi nessa penumbra que ela fez sua entrada.

Achei-a deslumbrante, pareceu-me até mais alta do que realmente era. O rosto exótico e maquilado – nos anos a seguir nunca a veria sem maquilagem –, as maçãs altas conduzindo o olhar para o corte eslavo dos olhos. Estava vestida de escuro, em tom quente, usava um vestido ou uma malha de mangas compridas. Lembro-me das mangas compridas porque faziam sobressair as mãos elásticas, tão claras na semiescuridão, e as pulseiras gêmeas, escravas, de cobre martelado que usava nos dois pulsos.

Eu em silêncio respeitoso, a conversa entre Clarice e Yllen começou. Não parecia confortável, meio que emperrava, havia ocos, como se os dois dançassem coreografia não ensaiada. Clarice interrompia as frases deixando-as terminar em reticências, e seu interlocutor ficava em suspenso, sem saber se devia dar-lhe tempo para continuar ou se cabia-lhe engrenar a próxima fala.

Não demoramos muito. O tempo de uma visita convencional, não o tempo de dois amigos que se entregam despreocupados à conversa. Tomamos alguma coisa ou não tomamos nada, e saímos. Mas o encontro marcou-se em mim fundamente. Guardei a imagem dela naquela tarde como quem guarda um retrato, sem saber que essa imagem estava próxima, tão próxima a mudar.

Em setembro de 1966, aconteceu o incêndio no apartamento, ateado por Clarice ao adormecer fumando na cama. Incêndio que, sem querer pôr em risco os filhos, tentou apagar com as mãos e que teria efeitos desastrosos em sua saúde.

Assim que soube, mandei duas dúzias de rosas para o hospital, consciente de que, mesmo se as recebesse, não saberia quem as mandava. Sofri por ela enquanto nos chegava a ameaça de que lhe amputassem a mão direita. Revia as mãos pálidas sobre a roupa escura, emolduradas pelas pulseiras de cobre, não me parecia possível que isso acontecesse. Felizmente, não aconteceu.

Passado um ano, quando já havia feito várias operações na mão e na perna, de onde era retirado tecido para os enxertos, Clarice foi convidada por Alberto Dines, então editor-chefe do Jornal do Brasil, para escrever crônicas semanais para o Caderno B. Dines já havia convidado Clarice anteriormente, quando diretor do Diário da Noite, para escrever a coluna que Ilka Soares assinaria. 2 Dessa vez, entretanto, assinaria com o próprio nome e administraria o espaço como melhor lhe aprouvesse, da mesma forma que havia feito em Children’s Corner, na revista Senhor. Uma mudança que, ao longo de sete anos, daria grande impulso ao reconhecimento da sua escrita e do seu nome.

Quando ela finalmente veio à redação do JB, onde eu era subeditora, surpreendeu-me ver que havia aproveitado tantas intervenções para fazer um lifting, forma de manter intacta sua beleza e combater a deformação da mão. Seja pelo respeito que inspirava, seja por seu ar inegavelmente estrangeiro, embora ela se quisesse tão brasileira, seja por sua feminilidade, ficou subentendido que, a partir daquele dia, eu a atenderia, eu faria as comunicações necessárias, eu cuidaria dos seus textos. Começou aí a tessitura da nossa relação.

Infinitas vezes Clarice me recomendaria para não perder seus textos. Dizia não ter cópia porque “o carbono frrrranze”, e puxava o erre devido à língua presa – fenômeno desmentido pelo foniatra e escritor Pedro Bloch, que o atribuía à imitação infantil da fala dos pais. Muito certa, Clarice, na sua dificuldade com o carbono. A mão direita queimada não lhe permitia encaixá-lo a contento entre as duas folhas, única forma de obter cópias na era pré-computador. Mas a frase acabou virando seu apelido. Quando ela ligava para a redação, quem atendesse chamava: “Marina, pra você, é o carbono frrranze!”, e eu ia, encantada por cuidar dela.

Eram telefonemas meramente profissionais, ou não. Várias vezes me pediu para instruir os revisores a não mudar sua pontuação: “Minha pontuação é minha respiração”, dizia. E uma vez ligou para perguntar se eu sabia onde se compravam mocassins bonitos.

Cedo, passou a mandar as crônicas por uma funcionária, encarregada de fazer, a cada vez, a mesma recomendação, que eu não perdesse os textos, porque Clarice não tinha cópia. Para que se convencesse da total segurança, tive de conduzi-la atrás da mesa do editor e mostrar-lhe a caixa onde eram recebidos os textos já revisados – embora houvesse tão pouco a revisar –, prontos para descerem à oficina.

Eram, de fato, preciosos. Também nisso Clarice tinha razão. Lendo seus próximos livros, quantas vezes reconheci textos que conhecia tão bem, de que me sentia íntima. Tudo o que escrevia, fosse no papel pautado do jornal, fosse anotado em guardanapo ou em entrada de cinema, era água da mesma fonte e em algum momento encontraria seu lugar.

Nunca nos encontramos fora da redação.

Até que um novo fator veio estreitar nossos laços e imprimiu outro cunho à relação.

Em 1971, Affonso e eu nos casamos. Affonso conhecia Clarice desde 1963, quando, em função de um ensaio sobre A maçã no escuro escrito quando ainda estudante, fora convidado a apresentá-la em sua noite de autógrafos em Belo Horizonte.

Passamos a frequentar a casa dela, a mesma sala aonde eu havia ido para nosso primeiro encontro, agora bem iluminada. Nossas conversas fluíam fáceis, em plena intimidade, ao contrário daquela que eu guardava na memória. Falávamos de tudo e de nada, do que ela estava fazendo, dos amigos, da vida da cidade, até de comida. Conversas despreocupadas, nada intelectuais, que nos levavam a rir com frequência. Lembro que havia sempre um ou outro livro esquecido em cima de poltrona ou mesa, embora nas entrevistas ela se esquivasse de dar opiniões literárias dizendo que não estava lendo nada.

Outra presença havia-se agregado, Ulisses, o cão. Em várias ocasiões Clarice declarou que seu nome não era referente nem a Homero nem a Joyce, e no depoimento do MIS [Museu da Imagem e do Som] disse que o havia nomeado a partir de um estudante de Filosofia apaixonado por ela quando ainda casada, na Suíça. Embora tenha virado estátua, 3 Ulisses não era nem simpático nem bonito. Tinha atitudes antissociais, não admitia carícias de visitantes, rosnava. Mas há que reconhecer sua fidelidade à dona.

Em 1973, logo após Alberto Dines ser demitido do Jornal do Brasil, Clarice também o foi. Nascimento Brito nunca havia gostado de suas crônicas. Talvez por isso, não houve encontro marcado, nenhum telefonema, nenhum ademane. Foi dispensada por um bilhete, forma extremamente grosseira, sobretudo considerando seu prestígio como escritora.

Fiel a Alberto Dines, eu também fui demitida.

E, no mesmo ano, ao publicar A vida íntima de Laura, Clarice o dedicou, entre outras crianças, a nossa filha Fabiana.

Deve ter sido por essa época que aconteceu o episódio do jantar. Affonso e eu gostávamos de receber os amigos e o fazíamos com frequência. Um dia, para minha grande surpresa, Nélida me traz um recado, Clarice estava magoada porque nunca a havíamos convidado. Respondi que o convite só não havia sido feito porque imaginávamos que Clarice, refratária a esse tipo de acontecimento, não o desejasse. Imediatamente prontifiquei-me para oferecer-lhe um jantar.

– Ela janta muito cedo… acrescentou Nélida, como se fosse um impedimento.

– Problema nenhum, faço o jantar à hora que ela quiser.

A hora, ficou estabelecido para os amigos comuns que convidei, seria 18h30. Realmente, cedo demais para cariocas. Ninguém se atrase, por favor, recomendei. Ninguém se atrasou. Clarice foi a última a chegar. E que bonita estava! Devia ser inverno, porque por cima da roupa vestia uma espécie de capote preto e branco, zebrado, que lembro ter elogiado. E que sorridente! Exalava felicidade, por sentir-se bonita, por ter-se permitido estar ali.

Eu, ocupada, porque nesses jantares era a cozinheira-mor, subindo e descendo escada, não flagrei o momento em que o sorriso se apagou. Subi entre os aperitivos disposta a também tomar um gole de vinho, e ela veio ao meu encontro já sem a luz com que havia chegado, para dizer que estava com muita dor de cabeça, queria ir embora.

O jantar seria logo servido, mas percebi num estalo que algum encanto havia se partido e ela não esperaria. Discretamente chamei Affonso e pedi que levasse Clarice para casa, estava com dor de cabeça. Sem entender, ele ofereceu aspirina, disse que a dor logo passaria. Fiz um sinal significativo, e os dois saíram. Clarice não se despediu de ninguém. Os amigos, todos íntimos, ficaram esperando a volta de Affonso e o jantar.

Ela havia vindo em busca de leveza, tomar um drinque e rir como os outros, ser despreocupada por algumas horas. Mas, em algum momento, produzira-se um desencaixe, ela não era como os outros, e, pelo menos naquela noite, a leveza lhe era vetada. Melhor, então, voltar para casa, onde não precisava ser como ninguém, onde podia ser ela mesma.

Um pouco antes ou um pouco depois disso, contamos a Clarice que havíamos ido a uma cartomante e estávamos encantados com suas previsões – que mais adiante se concretizariam. Foi como ligá-la na tomada! De imediato pôs-se toda elétrica, queria porque queria que a levássemos. Quanto mais cedo, melhor.

O segredo mais denso, aquilo que não se pode provar e de que os mais sensatos desconfiam, era seu pleno território.

A cartomante, de nome Nadir, morava no Méier. Dias depois, consulta marcada, lá fomos os três no Fusca de Affonso, costeando a via férrea e vendo o trem passar. Conversamos muito na ida, uma certa excitação pelo mergulho no inesperado ia conosco.

A casa tinha um avarandado com vasos de antúrios, o piso, daqueles azulejos estampados de antigamente. Houve um hiato de apresentações, mínima conversa, o cafezinho já estava pronto na garrafa térmica. E as duas entraram. Demoraram o tempo necessário para vasculhar o futuro ditado pelas cartas. Afinal a porta se abriu. Clarice trazia semblante pensativo.

E assim se manteve na viagem de volta. O clima no Fusca havia-se tornado diferente, agora o mistério tomava carona conosco. Clarice não nos contou nem vírgula do que Nadir havia previsto. Mas é certo que gostou, porque continuou a interrogar suas cartas até o fim da vida, e fez de Nadir sua personagem em A hora da estrela.

Em 1973, Affonso tornou-se diretor do Departamento de Letras da PUC. E em 1975 convidou Clarice para o II Encontro Nacional de Professores de Literatura na PUC-Rio. Há fotos do auditório nesse encontro, Clarice ao centro, Nélida [Piñon] e eu de cada lado, as três compenetradas. O que não está na foto é a reação dela, relatada mais tarde por Nélida, e por ela mesma num telefonema de Affonso.

As discussões da mesa eram eminentemente teóricas, um duelo de conhecimentos e citações estava em curso entre dois doutos em literatura. No intervalo que se seguiu ao cruzar de espadas, Clarice se levanta e se vai. Segundo o que Nélida me contou, e que Clarice repetiu quase com as mesmas palavras a Affonso, as apresentações da mesa resultavam incompreensíveis para ela e haviam-lhe dado uma fome tremenda. Iria para casa comer galinha assada. Foi o que fez. 4

Dois anos se passaram, e em abril estávamos juntos novamente, dessa vez em Brasília. Ela havia ido receber o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra, e Affonso receberia outro prêmio. 5 Lembro que me pareceu muito diferente da mulher ainda sólida que havia matado a incompreensão teórica comendo galinha. Sentada a meu lado na área ajardinada do hotel estava uma senhora frágil, necessitando de amparo e solicitando à acompanhante o xale branco para proteger-se do frio inexistente. Impressionou-me sua delicadeza física, como se qualquer sopro a pudesse derrubar ou ferir.

Na hora de receber o prêmio, disse a célebre frase: “Eu não mereço este prêmio. Este é um prêmio para profissionais e eu não sou uma profissional. Profissional escreve todos os dias, porque precisa. Eu escrevo quando quero, porque me dá prazer”. Modesta e altiva a um só tempo, a frase não correspondia à verdade. Clarice precisava mais da escrita do que muitos profissionais, precisava dela para se encontrar, precisava dela como do ar que respirava, precisava dela para viver. E, quando achava que a tinha perdido, ligava em desespero para os amigos.

Em outubro de 1976, convidada por João Salgueiro, então diretor do MIS, a dar um depoimento, concordou. Mas pediu que Affonso e eu fôssemos, junto com João, seus entrevistadores. Tinha pavor a situações pomposas, a perguntas pretensamente inteligentes, e sabia que conosco estaria livre de ambas.

Por alguma razão que agora não lembro, não fomos buscá-la em casa, marcamos encontro na Praça XV, diante do MIS. Vi-a chegar alegre, recuperada. E elegante, vestia um casaco de camurça ou que parecia camurça. Trocamos dois minutos de conversa sem que ela nos fizesse qualquer recomendação sobre o que perguntar ou não perguntar, e fomos caminhando até o Museu.

O depoimento durou cerca de duas horas. 6 Começamos com a biografia, ela lembrando de Recife e falando da pobreza familiar, da doença da mãe, da infância. Depois fomos pulando, um tema puxando o outro. Clarice, muito à vontade, falou de seus romances, do seu processo de escrita, de solidão, se disse “uma tímida arrojada”, falou de sua intimidade com galinhas, concordou quando a comparei a felinos, contou outra vez a história que havia vivido das pombas brancas, pediu cigarro e Coca-Cola, perdeu o fio do pensamento mais de uma vez, não por esquecimento, mas por estar solta, confiante.

Quando saímos do MIS, levávamos os três alma lavada, havia sido uma tarde memorável.

Um ano depois, fomos ao nosso último encontro. Como havia sido no primeiro, só eu a olhei. Dessa vez, porque ela estava de olhos fechados, sedada, morrendo lentamente no Hospital da Lagoa. Pareceu-me uma passarinha, debaixo do lençol, embora o inchaço. Ficamos só alguns minutos, o tempo de algumas perguntas aos enfermeiros. E de fazer uma despedida da qual ela já não podia participar.

Rio de Janeiro, agosto de 2020.

  1. Depoimento enviado a Nádia Battella Gotlib em 11 de agosto de 2020 e publicado no livro Clarice na memória dos outros, em 2024. Agradecemos à editora Autêntica a autorização para reproduzi-lo no site de Clarice Lispector.[]
  2. A coluna “Só para mulheres” assinada por Ilka Soares e escrita, na verdade, por Clarice Lispector, no jornal Diário da Noite, durou exatamente 11 meses, pois foi publicada de 19 de abril de 1960 a 29 de março de 1961, num total de 287 colaborações semanais.[]
  3. Refere-se à escultura em bronze com réplica de Clarice Lispector e seu cão Ulisses instalada na ponta da praia do Leme, no Rio de Janeiro, criada por Edgar Duvivier e inaugurada em 15 de maio de 2016.[]
  4. Clarice Lispector compareceu ao II Encontro Nacional de Professores de Literatura, que aconteceu de 30 de julho a 3 de agosto de 1975, no auditório do Rio Data Centro, RDC, evento coordenado por Affonso Romano de Sant’Anna, então diretor do Departamento de Letras e Artes, hoje Departamento de Letras da PUC-RJ. Clarice Lispector, sentada entre Nélida Piñon e Marina Colasanti, saiu abruptamente do auditório por não suportar mais ouvir os palestrantes Luiz Costa Lima e José Guilherme Merquior discutirem questões de teoria literária[]
  5. Clarice Lispector recebeu o Prêmio Vladimir Murtinho em 23 de abril de 1976, por ocasião do Décimo Encontro de Escritores, realizado na Escola Parque de Brasília, localizada nas quadras 307/308 Sul.[]
  6. A entrevista concedida por Clarice Lispector ao MIS em 20 de outubro de 1976 teve uma primeira publicação em 1991: FUNDAÇÃO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM. Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Fundação Museu da Imagem e do Som, MIS-RJ, 1991. Coleção Depoimentos 7, entrevista concedida a Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti e João Salgueiro; foi publicada também em: LISPECTOR, Clarice. Outros escritos. Organização de Teresa Montero e Lícia Manzo. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. p. 135-171; e em: SANT’ANNA; COLASANTI. Com Clarice, p. 201-250. Em Com Clarice, os autores relatam, com detalhes, não só alguns dos episódios escritos especialmente para serem aqui publicados, mas também outros, relacionados com as lembranças dos tempos de convivência com Clarice Lispector, além de uma crônica de Marina Colasanti e três artigos de Affonso Romano de Sant’Anna sobre a escritora.[]

Notas

Clarice, patroa

Roncador, Sônia. Clarice, patroa. IMS Clarice Lispector, 2025. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2025/04/01/clarice-patroa/. Acesso em: 03 abril 2026.

O almoço estava bem servido, inteiramente longe da idéia de cozinha: antes da chegada das convidadas, haviam sido retirados todos os andaimes. (LISPECTOR, 1984, p. 283)

I

Em agosto de 1967, Clarice Lispector (1920-1977) aceitaria a proposta do colega e jornalista Alberto Dines, “sabendo-a necessitada de trabalho” (“Clarice jornalista”, p. 8), para escrever crônicas sobre assuntos variados para uma coluna semanal no Jornal do Brasil. 1 O jornalismo já lhe havia servido como meio oportuno (às vezes o único) para a promoção e publicação de parte de sua obra ficcional por quase duas décadas. Além disso, segundo seus biógrafos, a atividade jornalística lhe garantiu apoio financeiro, sobretudo nos anos seguintes ao seu retorno definitivo ao Brasil, após quinze anos no exílio em matrimônio com um diplomata. Contudo, a “carreira paralela” como cronista e a participação no negócio lucrativo das colunas assinadas por celebridades representou uma fonte de stress moral para a autora – ao mesmo tempo preocupada com sua reputação intelectual e com sua forma ou “estilo” de escrever ficção que, a seu ver, o exercício da crônica poderia corromper. Em uma de suas primeiras crônicas para o Jornal do Brasil, “Amor imorredouro” (9 de setembro de 1967), observa-se, sobretudo, o desconforto da autora em “escrever para ganhar dinheiro” (A descoberta do mundo, p. 20), o que comprometeria sua visão diletante da literatura e sobretudo o mito da escritora mulher não profissional, o qual muitas intelectuais de sua geração por uma razão ou outra terminaram por reforçar. Tais fatores, pois, reforçariam uma espécie de “retórica de autodesqualificação” como cronista em várias de suas contribuições ao longo de seus seis anos nesse jornal (1967-73), além da necessidade de separar sua “verdadeira” vocação literária do “circunstancial” ofício de cronista.

Neste texto sobre as ex-empregadas domésticas de Lispector que frequentaram assiduamente as “conversinhas” ou “impressões leves” na sua coluna assinada (seus termos), os conflitos de Lispector como cronista ganhariam uma nuance temática especialmente reveladora de sua posicionalidade enquanto mulher branca de classe média, ao mesmo tempo consciente do papel de sua classe patronal na preservação da cultura de servidão doméstica que tem persistente e profundamente configurado o modus operandi do serviço doméstico remunerado no Brasil. Como argumentam as sociólogas Raka Ray e Seemin Qayum (2009): “[A]queles que vivem numa determinada cultura da servidão a aceitam como a ordem natural das coisas, a maneira de ser do mundo e da casa […] a servidão se normaliza de tal modo que se torna virtualmente impossível imaginar a vida sem ela, e as práticas, pensamentos e sentimentos das práticas se organizam segunda ela” (Cultures of servitude, p. 4). Como demonstro neste texto, Lispector se posiciona criticamente à cultura da servidão estruturante da vida familiar da classe média brasileira; ao mesmo tempo, ela se utiliza dessas narrativas pessoais sobre suas relações intersubjetivas com ex-empregadas domésticas como meio de revelar seu lugar social incômodo por usufruir de privilégios moralmente incompatíveis à posição de intelectual politicamente engajada com a qual ela e muitos escritores de sua geração se identificavam. Em algumas dessas crônicas, como veremos, Lispector tenta compensar tais conflitos associando-se a uma ética do cuidado como forma de relação com suas empregadas. Contudo, esse gesto afetivo jamais se materializa em ações concretas destinadas a melhorar as condições degradantes de suas empregadas, desse modo revelando uma verdade expressa em outras de suas crônicas sobre domésticas: os conflitos podem ser atenuados, mas jamais resolvidos.

II

O cronista latino-americano tem sido estudado na sua função mediadora nos processos de formação, problematização e consolidação de práticas e identidades sociais nos espaços urbanos, especialmente a partir de seu interesse em “comenta[r] a forma como vivemos, os costumes e valores morais no contrato social das grandes cidades”. (“Lispector, cronista”, p. 98). Tendo a crônica no Brasil se estabelecido como um “gênero de escritor”, mas sem perder a autoridade epistemológica do jornalismo, o cronista é igualmente reconhecido por “sobressair-[se] no registro do cotidiano em toda a sua urgência, na sensibilidade à fascinante diversidade da vida, na construção de cenas completas em vez de, secamente, recontar as notícias (“Lispector, cronista”, p. 98). No caso particular das crônicas de Lispector, interessa-me em particular a “construção de cenas completas” das relações cotidianas intersociais/raciais no espaço doméstico urbano e burguês. O conjunto de suas crônicas reeditadas na coletânea A descoberta do mundo (1984) revela que, dentre suas experiências da diversidade sociocultural no contexto urbano carioca, as que se registraram com maior frequência em sua coluna semanal foram suas relações com distintas ex-empregadas domésticas (pelo menos dez crônicas da referida coletânea dedicam-se ao tema).

A frequente alusão às empregadas domésticas no ambiente urbano de suas crônicas demonstra o que é uma realidade para várias famílias de classe média no país: incorporada ao ambiente íntimo da casa na condição de um “outro domesticado” (CLIFFORD, 1988), a empregada doméstica constitui a relação mais duradoura, e pessoal, que um membro da classe média se permite estabelecer com a pobreza. O fato de que Lispector se valeu do espaço de sua coluna aos sábados para produzir sua imagem pública como intelectual brasileira perante as tensões e traumas sociais não resolvidos certamente teve um impacto no repertório das personagens domésticas selecionadas para essas crônicas. Num sentido sua coluna assinada lhe serviu para negociar e justificar sua fama de escritora introspectiva e formalmente experimental, num período da história cultural quando escritores se sentiam compelidos a produzir textos com temáticas políticas explícitas _ em decorrência, como sabemos, do regime militar autoritário que se instalou no país por 21 anos. Por outro lado, como procuro demonstrar, a autora enfrentou o desafio evitado por outros escritores de sua geração e classe social: o de exemplificar, através de suas crônicas pessoais sobre ex-empregadas domésticas, as contradições inerentes à sua autopromoção como intelectual socialmente responsável frente a sua posição de autoridade e privilégios sócio raciais.

Em uma crônica de sua coletânea A legião estrangeira (1962), “Literatura e justiça” – uma resposta às acusações recebidas nesses anos pelo descompromisso social e político de sua literatura –, Lispector argumenta que o fato de não “saber como [s]e aproximar de um modo literário […] da ‘coisa social’” não refletia, no seu caso, a falta dos sentimentos “de justiça”, obrigação e responsabilidade social. “Desde que me conheço,” escreve a autora, “o fato social teve em mim importância maior do que qualquer outro: em Recife, os mocambos foram a primeira verdade para mim” (Legião, p.149). Não é novo o argumento de que Lispector, ao contrário de sua própria autodefesa, na verdade soube aproximar-se “literariamente” do fato social, embora esse tema tenha sido mais frequente e relevante em sua obra literária na década de 70. Em outra crônica publicada na sua coluna no Jornal do Brasil, “O que eu queria ter sido” (2 de novembro de 1968), Lispector uma vez mais associaria o impacto do drama social dos pobres às suas incursões infantis pela periferia de Recife, como também desassociaria sua literatura de seu sentimento interno de justiça social. Nessa segunda crônica, porém, ela introduz a figura mediadora de uma empregada doméstica, sem a qual suas idas aos mocambos não se teriam realizado: “Em Recife, eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir” (A descoberta do mundo, p. 217). Como revelam ambas as crônicas, a consciência ética adquirida na infância (o que lhe rendera na família o apelido de “a protetora dos animais”, p. 217) seguiria compelindo-a a uma “ação social” na vida adulta – compulsão esta transformada em um senso de responsabilidade (e, como veremos, obrigação maternal) que sua atividade como escritora, segundo ela, não lhe permitia aliviar: “no entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco” (Descoberta, p. 218). 2

Transitando entre dois mundos socialmente opostos, a doméstica emerge em muitas circunstâncias históricas e subjetivas como uma ameaça à ordem familiar e social da classe patronal. 3 Nas crônicas de Lispector, a doméstica atua como faca de dois gumes: ela é a figura intermediária _ o “outro domesticado” _ que conduz a autora a uma revelação social traumática, embora edificante (função esta que Lispector soube tão bem explorar na figura da empregada Janair, no romance A paixão segundo G. H.). Por outro lado, conquanto ela mesma seja uma mulher de origens social e cultural distintas da autora, a doméstica é também aquela que injeta no mundo doméstico “protegido” o drama da exploração social. Além disso, como argumenta Lucia Villares, a figura da empregada doméstica igualmente força a autora a se confrontar com o problema da diferença e hierarquia raciais; ou seja, “a se colocar numa posição de privilégios em que sua branquidade se torna visível” (“Welcoming”, p. 80).

Em uma das várias crônicas em que Lispector alude às empregadas domésticas,“Dies Irae”(14 deoutubrode 1967), elaescreve:“Eterempregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade” (Descoberta, p. 33). O tom “irado” dessa passagem revela a diferença no tratamento dado às domésticas nas colunas “femininas” de sua autoria (1952/1959-61) e aquele predominante alguns anos mais tarde na coluna semanal do Jornal do Brasil. 4 Em ambos os contextos, a autora enfoca as dificuldades inerentes à relação patroa-empregada, ou os desencontros domésticos entre mulheres de duas classes, e geralmente raças distintas, embora apresente razões opostas para tais conflitos: ao contrário de suas colunas para mulheres, nessas crônicas tardias, Lispector associa a dificuldade da relação não aos defeitos de personalidade e serviços da empregada, mas, precisamente, à sua condição servil.

Em outra crônica no Jornal do Brasil, “Por detrás da devoção” (2 de dezembro de 1967), Lispector problematiza a visão idealizada da “devoção”, ou servilismo, como expressão de amor, gratidão e lealdade da classe trabalhadora; pode-se, como ela mesma argumenta, ser devota “odiando”. Na crônica em questão, Lispector se refere especificamente às personagens domésticas da peça As criadas, de Jean Genet, que ela então acabara de assistir. “Fiquei toda alterada”, ressalta a autora, revelando a seus leitores o trauma dessa experiência: “Vi como as empregadas se sentem por dentro, vi como a devoção que às vezes recebemos delas é cheia de um ódio mortal” (Descoberta, p. 54). Segundo Lispector, “a escravidão aos donos é arcaica demais para poder ser vencida” e, por isso, “às vezes o ódio não é declarado, toma exatamente a forma de uma devoção e de uma humildade especiais”. 5 Tal reflexão a faz pensar, por exemplo, no “ódio não declarado” de uma ex-empregada doméstica, a acima referida argentina Maria Del Carmen: “Pseudamente me adorava. Nas piores horas de uma mulher – saindo do banho com uma toalha enrolada na cabeça – ela me dizia: como usted é linda. Bajulava-me demais” (Descoberta, p. 54-5). 6

Contudo, sem diminuir o valor da narrativa do ódio social e as formas censuradas que esse sentimento pode tomar (pseudo adorações, excessivas bajulações), concordo com Marta Peixoto (2002) que a autora “reserva[ria] para a sua ficção – especialmente A paixão segundo G.H. – uma visão mais crítica dessa relação, carregada de emoções negativas” (“Fatos”, p. 111). Talvez por atenção às “convenções” do gênero da crônica (para ela, “impressões leves”, ou narrativas de entretenimento), e sobretudo para se livrar de possíveis constrangimentos que o papel de patroa lhe reservava, Lispector elabora na sua coluna semanal distintas estratégias para “atenuar diferenças e ressaltar semelhanças inesperadas” com suas (ex-)empregadas (“Fatos”, p. 113). Aceitando a sugestão bem-humorada da irmã Tania Kaufmann de que “cada um tem a empregada que merece” (Lispector, Descoberta, p. 51), a autora presenteia os sábados de seus leitores com alguns fatos divertidos sobre sua cozinheira vidente, a ex-empregada “que fazia análise, juro” (Descoberta, p. 55), ou “uma outra, que foi comigo para os Estados Unidos, por lá ficou depois que vim embora, para casar-se com um engenheiro inglês” (Descoberta, p. 55). Além disso, segundo Peixoto (2002), “o retrato lírico e suave” de algumas de suas empregadas – que “aceita diferenças de experiência e valores e perdoa roubos discretos” (“Fatos”, p. 115) – igualmente revela o tratamento predominante da empregada doméstica nas crônicas de Lispector para o Jornal do Brasil: a escritora fala de “culpa, tensões e estranhamento” (“Fatos”, p. 115) derivados de suas inúmeras relações com empregadas, embora procure superá-los por meio do humor ou do lirismo.

Para “atenuar” as diferenças sociais trazidas para o seu mundo doméstico por uma “criada”, ela tende a ressaltar certas excentricidades da personalidade de suas empregadas que desviam o foco da relação de exploração para áreas menos constrangedoras desse entrosamento intersocial/racial diário. Contudo, se por um lado ela liberta suas empregadas de certos estereótipos negativos (alguns deles utilizados em suas colunas para mulheres), por outro, ela termina por fixá-las numa nova taxionomia de personalidades e manias. Tipos como a cozinheira cômica, empregadas com vocação artística e um senso agudo de psicologia humana, ou mesmo as “inconscientes” (por surtos psicóticos ou breves “ausências mentais”) terminam por se integrar mais ao universo ficcional de suas personagens que ao constrangedor espaço doméstico das diferenças sociais. O investimento de Lispector para “atenuar” tais diferenças e “ressaltar semelhanças inesperadas”, porém, nem sempre lhe parece um projeto possível de se realizar. Em uma passagem de seu manuscrito “Objeto gritante”, Lispector, por exemplo, antecipa o susto de incompreensão que sua empregada “sertaneja”, Severina, sentiria quando pela primeira vez diante do mar: “É capaz de sentir-se mal. Porque o mar não é compreensível. É sentido e é visto. Estou me pondo na pele desta empregada que se chama Severina. E eu sendo ela fico toda assustada. Devo ter visto uma primeira vez o mar. Só que não me lembro…” (“Objeto gritante”, p. 71). 7 Como se sabe, o mar constitui um importante motivo na obra de Lispector; na sua escrita, um simples ato de entrar no mar pode converter-se em ritual solene. Dentre outros fatores, o mar exerceu um verdadeiro fascínio na autora por estimular suas reflexões sobre as possibilidades de expansão máxima de si mesma e de verdadeiros contatos com existências não humanas. Na passagem acima citada, Lispector projeta no encontro inédito de sua empregada com o mar uma reação semelhante a de suas personagens literárias, e a dela própria, para em seguida desistir dessa projeção: “Mandarei embora Severina: ela é oca demais. Não tive coragem de ir levá-la a ver o mar: temia sentir por ela o que ela não sentisse. É nordestina e é oca de tanto sofrimento”. (“Objeto gritante”, p. 74).

É, portanto, dos relatos sobre as empregadas “surpreendentemente” talentosas, perceptivas e sagazes que a autora cria o panorama típico das domésticas que frequentam as suas crônicas. Por um lado, Lispector ressalta o sentido e efeito poéticos de frases ditas pelas domésticas em suas interações diárias, como é o caso, por exemplo, de sua empregada Rosa, em “A italiana” (4 de abril de 1970; anteriormente publicada em A legião estrangeira como “Uma italiana na Suiça”): “não sei mesmo porque gosto mais do outono do que das outras estações, acho que é porque no outono as coisas morrem tão facilmente […]. Também diz: ‘A senhora alguma vez já chorou como uma boba e sem saber por quê? Pois eu já!’ – e cai na gargalhada” (Descoberta, p. 432). 8 Em “Conversa puxa conversa à toa” (16 de maio de 1970), Lispector, ademais, surpreende sua cozinheira “cantando uma melodia linda, sem palavras, uma espécie de cantilena extremamente harmoniosa. Perguntei-lhe de quem era a canção. Respondeu: é bobagem minha mesmo”. (Descoberta, p. 444). Contudo, tal qual sucede com outros projetos de valorização estética da expressão popular, nessas crônicas, Lispector tem que se servir de sua autoridade artística para agregar às palavras “poéticas”, ou melodias “harmoniosas” de suas empregadas, um valor simbólico alheio à intenção das mesmas. Como ela mesma admite, com respeito a tal cozinheira cuja “boca sabe cantar”, “ela [a empregada] não sabia que era criativa” (Descoberta, p. 444).

Em uma de suas crônicas mais interessantes sobre o tema das domésticas, “O lanche” (7 de março de 1970; publicada em A legião estrangeira com o título “O chá”), Lispector igualmente ressalta o impacto poético (embora involuntário) de várias frases soltas, por ela atribuídas às empregadas que tivera ao longo da vida. Nessa crônica, a autora imagina-se anfitriã de um chá oferecido “a todas as empregadas que já tive na vida” – “quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas” (Descoberta, p. 423). À parte o tom irônico da comparação, a narração desse imaginado encontro social não se propõe a retratar realisticamente esse “quase chá de senhoras”. Em primeiro lugar, o cenário imaginado para o chá/lanche seria a Rua do Lavradio, por onde mais tarde transitaria sua personagem Macabéa, de A hora da estrela (1977). Além disso, ela mistura elementos de um cenário urbano periférico (zona portuária carioca) com “um certo clima de teatro do absurdo” (Arêas, “Peças”, p. 563): à princípio “sentadas, de mãos cruzadas no colo […] e mudas” (Descoberta, p. 423), as domésticas, “rediviva[s], morta- viva[s]” passam a “recitar” frases, outrora ditas de um modo espontâneo e que, pelo efeito de humor, beleza, banalidade, revelação ou mesmo desconforto ficaram retidas na memória da autora: “Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro” (Descoberta, p. 423).

Lispector, por exemplo, volta a “se lembrar” do que lhe dissera a acima mencionada empregada italiana, Rosa, ao ouvir o comentário de um estranho na rua sobre a queda simultânea das últimas folhas de outono e a primeira neve: “‘É a chuva de ouro e de prata.’ Fingi que não ouvi porque se não tomo cuidado os homens fazem de mim o que querem” (Descoberta, p. 424). Às vezes, porém, confessa que uma única frase banal, como “Gosto de filme de caçada”, “foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira” (Descoberta, p. 424). É provável, por outro lado, que do convívio cotidiano com suas empregadas domésticas, a autora tenha aprendido que na banalidade de certas frases encontram-se duras verdades, tais como “Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso” (Descoberta, p. 424). Observa-se em uma outra frase “recitada” por uma de suas ex-domésticas a revelação de que o amor maternal pode-se manifestar em forma de um desejo violento, nem sempre reprimido (tema de seu famoso conto “A legião estrangeira”): “Era um miúdo tão bonito que até me vinha a vontade de fazer-lhe mal” (Descoberta, p. 424). Mas é da frase recitada pela “mais antiga de todas” que Lispector parece tirar a lição mais profunda – transformada em perdão – dessa “crueldade de amor”, ou “ternura amarga”, para ela um produto da humilhante condição servil da empregada doméstica:

Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo. É cheia de vontades, ela quer isso, ela não quer aquilo. A lordeza é branca. (Descoberta, p.424)

O efeito estético de um “certo clima de teatro do absurdo”, assim como a ênfase na performance da recitação das frases, demonstram que, se por um lado a autora se propõe a “dar voz” às empregadas por meio da citação de frases como as acima citadas, por outro, introduz tais frases de forma descontextualizada – o que intensifica sua força poética, mas dilui sua função prática e, em alguns casos, política. Além disso, limitada pela memória, Lispector recupera de seu convívio com várias domésticas somente aquelas frases que lograriam diminuir a incômoda e culposa distância social. Num sentido, ela “ressuscita” por meio desse curioso chá de criadas fantasmais os fragmentos (verbais) desse convívio que constituem o quadro geral das domésticas que a autora haveria gostado de ter, e de “merecer”. A singularidade das empregadas domésticas de Lispector não passou desapercebida do escritor Paulo Mendes Campos, em cuja crônica “Minhas empregadas”, comenta, com certo ciúme, sobre as “sutilezas” (p. 186) ou “certas finuras de reações psicológicas” das domésticas da amiga, quando ele, ao contrário, via-se “bastante fatalizado a ter empregadas um pouco, como se diz, sôbre a débil mental” (Campos, “Minhas empregadas”, p. 185). Segundo Campos, “a falar frequentemente coisas que lembram as personagens”, muitas domésticas de Lispector terminam por “imita[r]-lhe a arte” (“Minhas empregadas”, p. 185). O último parágrafo de “O lanche”, na verdade um longo collage de partes das frases recitadas nesse pseudo “chá de senhoras”, pode-se aplicar ao comentário de Campos: por um lado, Lispector ressalta, por meio da fala de suas domésticas, certos aspectos invisíveis de suas “condições psicológicas”; por outro, ela manipula a fala da doméstica (por seleção, composição, cortes, descontextualização) de forma a enfatizar muito mais suas próprias preferências estéticas e temáticas do que as possíveis tensões que essa fala certamente geraria em seu contexto real:

– Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que não tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, é a chuva de ouro e de prata. Sim. (Descoberta, p. 424)

Em suas crônicas semanais sobre as empregadas domésticas, Lispector, pois, reconhece as tensões desse convívio doméstico intersocial/ racial, embora tomada de constrangimento e culpa, ela tente dissolver tais tensões por meio da narração de situações bem humoradas. Além disso, a autora valoriza os potenciais perceptivo e criativo das domésticas como meio de desviar para os aspectos dessa relação diária que pudessem aliviar a constrangedora desigualdade social, e condição servil das mesmas. Contudo, ela às vezes se ressente de não poder realizar esse gesto “redentor”, como é o caso da acima mencionada doméstica Severina, a nordestina “oca”, a qual, talvez por reforçar (em vez de diminuir) sua culpa, ela termine por demitir: “Quero empregada toda viva embora me dê mais trabalho”, justifica a autora. “Não posso ter coisa morta em casa” (“Objeto gritante”, p. 75).

III

Várias crônicas de Lispector revelam, porém, que “empregada toda viva” pode ser igualmente problemático, não somente por lhe “dar mais trabalho”, mas também por desrespeitar os protocolos de comportamento servil e as fronteiras sociais que a autora, embora culpada, não se interessa em romper. Por exemplo, na crônica “A mineira calada” (25 de novembro de 1967), a empregada Aninha parece superar-se de seu estado “oco”, semimorto, por meio de uma inusitada interpelação à autora/patroa; nesse caso, um pedido a Lispector para que esta lhe emprestasse um de seus livros. A sequência de sustos, hesitações, fingimentos e, finalmente, recusas por parte da autora revela que a mesma tampouco deseja substituir uma relação de exploração social (não obstante o constrangimento que esta lhe impingia) por um contrato social menos “hierárquico” entre autor e leitor: “Já que eu não queria lhe dar livro meu para ler, pois não desejava atmosfera de literatura em casa, fingi que esqueci” (Descoberta, p. 53).

No início da crônica, patroa e empregada executam silenciosamente as atividades domésticas que a um só tempo as definem na organização hierárquica do serviço doméstico e as separam física e socialmente: “Um dia de manhã estava [a empregada] arrumando um canto da sala, e eu bordando no outro canto”. (Descoberta, p. 51). O pedido acima referido da empregada, embora feito em voz “abafada”, vem, contudo, perturbar não somente o confortável silêncio daquela manhã, como também trazer à tona a tão constrangedora diferença social: “Fiquei atrapalhada”, revela a autora. “Fui franca: disse-lhe que ela não ia gostar de meus livros porque eles eram um pouco complicados” (Descoberta, p. 51). O uso do humor ao final da crônica revela, repito, que o reconhecimento da autora das tensões e desencontros inerentes ao seu dia-a-dia com as domésticas não se realiza sem que ela, ao mesmo tempo, tente atenuar (mas sem resolver) tais tensões: “Foi então que, continuando a arrumar, e com voz ainda mais abafada, respondeu: ‘Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar” (Descoberta, p. 51). Lispector reservaria a narração da continuação desse breve interlúdio com sua empregada Aninha para a já citada crônica “Por detrás da devoção”, publicada no sábado seguinte à “A mineira calada”. Para compensar a recusa em atender o pedido de sua empregada, “pois não desejava atmosfera de literatura em casa”, a cronista, “em troca, de[u]-lhe de presente um livro policial que [ela] havia traduzido” (Descoberta, p. 53). Porém, a despeito dos preconceitos da autora, a crônica revela que as preferências literárias da empregada Aninha não pareciam incluir um tipo de literatura que Lispector julgava mais acessível: ‘Acabei de ler’, diz Aninha, referindo-se ao livro policial traduzido por Lispector. ‘Gostei, mas achei um pouco pueril. Eu gostava era de ler um livro seu’. É renitente a mineira. E usou mesmo a palavra ‘pueril’ (Descoberta, p. 53). É possível, sem dúvida, relacionar essas passagens sobre os gostos literários de Aninha às críticas negativas que Lispector recebeu sobre o hermetismo de sua literatura; em outras palavras, a autora pode haver-se valido das respostas, inventadas ou não, de uma doméstica para revidar com ironia a opinião então corrente entre leitores e alguns críticos de que seus livros eram excessivamente obscuros e antipopulares. Contudo, sua recusa em compartilhar sua produção literária com uma doméstica revela, por outro lado, que a autora, embora ressentida dos ataques críticos, tampouco parecia interessada em se promover como escritora lida e apreciada por membros de distintas classes sociais. 9

A empregada Aninha seria tema de mais duas crônicas para sua coluna no Jornal do Brasil: “Das doçuras de Deus” e “De outras doçuras de Deus” (16 de dezembro de 1967). Mas, ao contrário das crônicas anteriores sobre essa “mineira calada” que gostava de ler textos complicados, aqui o humor e a ironia são substituídos pelo lirismo. Lispector elegeria o mesmo tom lírico para uma outra crônica sobre (ex-) empregadas domésticas, “Como uma corça” (27 de janeiro de 1968). Em ambas as crônicas, a mudança ou substituição de tom constitui, a meu ver, a materialização de um sentimento maternal, o qual a autora reservaria somente para poucas domésticas, em particular às que se associam ao tipo “inconsciente” acima mencionado. Em “Como uma corça”, a “inconsciência” da empregada em questão, de nome Eremita, associa-se aos seus momentos de “repouso” ou “ausência” mental: “porque tinha ausências”, explica a cronista, “o rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse ao seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar” (Descoberta, p. 85). Em “Das doçuras de Deus”, como demonstro abaixo, a “ausência mental” da empregada Aninha adquire um aspecto patológico, embora ao mesmo tempo “doce” e “áspero”.

É válido, por um lado, associar o interesse especial de Lispector por suas domésticas “inconscientes” à sua longa trajetória de exploração e valorização de modos de experiências irracionais, ou nos termos da narradora de Água viva, o que se experimenta quando corajosamente se liberta dos limites impostos pelo “raciocínio” para adquirir, “atrás do pensamento”, a visão paradoxal do informe: “mas agora quero o plasma – quero alimentar-me diretamente da placenta” (Lispector, Água viva, p. 9). No contexto de suas crônicas sobre empregadas domésticas, por outro lado, essa experiência inspira um interesse particular por se apresentar como possibilidade de redenção da condição servil desse grupo social. Talvez seja essa a razão pela qual, ao contrário das expectativas de sua classe patronal, a cronista, em “Como uma corça”, mostra-se mais interessada no quase-nada produtivo das “ausências”, ou “repousos” da empregada Eremita do que em seus serviços. Além disso, mesmo quando reintegrada à ordem dos afazeres domésticos capitalizados (“lavar a roupa”, “enxugar o chão”, “estender lençóis”), Eremita mantém-se acima de sua condição de criada, posto que tais tarefas convertem- se nesse texto em simulacro de um ritual primitivo de adoração “a outros deuses”. Em confluência a outras crônicas, Lispector descreve os momentos ausentes de Eremita, rebatizada de “a infante misteriosa”, como perigosa descida de si para si mesma, ou melhor, para a “profundeza” e “escuridão” (Descoberta, p. 85) de si mesma (“Sim, havia profundeza nela”).

Na crônica “Estado de graça – trecho” (6 de abril de 1968), essa descida constitui uma “abertura para o paraíso” (Descoberta, p. 121); aqui, ela é um “atalho para a floresta” (Descoberta, p. 85). Segundo a cronista, regressada da “floresta”, Eremita punha-se a executar subversivamente suas obrigações, pois que ao aparentar (simular?) obediência à patroa, na verdade “servi[a] muito mais remotamente, e a outros deuses”: “Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento” (Descoberta, p. 86). “Como uma corça” é, nesse sentido, uma de suas representações mais transgressoras da ordem social, onde se instala a relação hierárquica patroa-empregada; ao mesmo tempo, ironicamente, esse texto constitui um dos tipos mais confortáveis de empregada doméstica em suas crônicas, onde até mesmo os signos sociais associados a Eremita – a “fome”, “má-criação de empregada mesmo”, “medo” e “roubos” – são naturalizados, ou desprovidos de um sentido político- ideológico, para servirem à imagem misteriosa e insubjugável da moça: “Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. ‘Eu tive medo’, dizia com naturalidade. ‘Me deu fome!’ dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê”. (Descoberta, p. 84).

É somente na crônica “Das doçuras de Deus” que Lispector, ao contrário, revela as frustrações, e falhas, implicadas na tentativa de compor uma imagem empoderada, e redimida de culpa, de suas empregadas. Ao início de “Das doçuras de Deus”, Lispector se dirige aos seus leitores, em tom quase acusatório, para apontar-lhes a indiferença, e esquecimento, à sua empregada Aninha, a despeito de que apenas duas semanas haviam-se passado desde a publicação de “Por detrás da devoção”: “Vocês já se esqueceram de minha empregada Aninha, a mineira calada, a que queria ler um livro meu mesmo que fosse complicado porque não gostava de ‘água com açúcar’” (Descoberta, p. 60). Chama-me a atenção a ambivalência dessa passagem de Lispector, que denuncia o esquecimento de seus leitores (reflexo, por certo, de uma cultura dominante de indiferença às domésticas), reconhecendo-lhes, por outro lado, a admiração e fidelidade enquanto leitores constantes de suas crônicas; tal passagem revela que Lispector, já passados alguns meses desde sua primeira crônica no Jornal do Brasil, pressupunha haver conquistado um público de leitores fiéis, que acompanhava regularmente os textos de sua coluna aos sábados. Ao mesmo tempo, causava-lhe certo constrangimento beneficiar- se de um sistema social em que escritores recebiam o carinho e a lealdade, de um público, que por sua vez era incapaz de tratar da mesma maneira as suas empregadas. Além disso, a autora denuncia o esquecimento dos leitores, que contrasta com suas qualidades de patroa afetuosa e o lirismo dominante nesse texto: “O que eu não disse talvez foi que, para ela existir como pessoa, dependia muito de se gostar dela. Vocês a esqueceram. Eu nunca a esquecerei” (Descoberta, p. 60).

A cronista “nunca se esqueceria” de uma manhã em que Aninha retornara à casa, de uma suposta ida ao mercado, com o dinheiro ainda amassado em uma das mãos, e na outra o saco de compras cheio de tampinhas de garrafa e pedaços de papel sujo, para “enfeitar [s]eu quarto”. Examinada por um médico residente do Instituto Pinel, a moça foi prontamente diagnosticada como vítima de um surto psiquiátrico e levada para internação, não sem a intervenção de algumas amizades influentes da autora. A maneira singular como a patologia de Aninha é descrita revela que, não obstante o afeto e carinho da patroa, fora preciso que a empregada enlouquecesse para efetivamente “poder existir como pessoa”. Em primeiro lugar, Aninha (que a autora sem saber o motivo insistia em chamá-la “Aparecida”) “estava um pouco mais ‘aparecida’, como se tivesse dado um passo à frente” (Descoberta, p. 60). Além disso, ela adquirira uma “expressão pueril e límpida”: “doçura maior nunca vi”, reforça a autora (Descoberta, p. 61). O breve diálogo entre Lispector e o médico psiquiatra, “quem vim a saber ser o acadêmico Artur” (Descoberta, p. 62), no entanto, sequestra a autora de seu mundo de “expressões pueris” e “doçuras” para a realidade social daquela que somente para ela “estava um pouco mais aparecida”: Aninha, na verdade, não passava para os demais de uma criada. Ao inteirar-se da identidade da autora, o psiquiatra residente – ele mesmo um leitor de Lispector – estava “mais emocionado comigo do que com Aninha” (Descoberta, p. 62). Repete-se, portanto, agora no nível da história, a mesma sensação de desconforto que às vezes a admiração (neste caso, de seus leitores) pode causar, sobretudo quando esta se apoia na injusta hierarquia social: “E ele acrescentou simpático, efusivo, mais emocionado comigo do que com Aninha: ‘Pois tenho muito prazer em conhecê-la pessoalmente.’ E eu, boba e mecanicamente: ‘Também tenho’” (Descoberta, p. 62). Por outro lado, como argumenta Debra Castillo (2007), evidencia-se nessa troca desequilibrada de efusões e simpatias (por parte do médico) e respostas mecânicas e abaladas (de Lispector) a própria posição social instável da autora, condicionada pelos “pressupostos de classe e sexo” (Castillo, “Lispector, cronista”, p. 105). De fato, a pergunta “A senhora é escritora?” – primeiramente feita pela empregada Aninha e, em seguida, pelo médico residente – gera duas respostas distintas, dependendo da posição social ocupada por Lispector: “autoritária no primeiro caso, confusa e subordinada no segundo” (“Lispector, cronista”, p. 105).

Além de lhe dar a “expressão pueril e límpida” de uma pessoa, ainda nos termos de Lispector, “brandamente desperta” (Descoberta, p. 62), a “doçura doida” de Aninha era, por assim dizer, contagiante: “Também eu sentia uma doçura em mim, que não sei explicar. Sei, sim. Era de tanto amor por Aninha” (Descoberta, p. 61); ou ainda: “A casa estava toda impregnada de uma doçura doida como só a desaparecida podia deixar” (Descoberta, p. 62). Mas essa não é a primeira vez em suas crônicas que a autora ressalta o componente “contagiante” da “doçura”: “A doçura contagia: também me aquieto”, escreve Lispector em “Corças negras” (5 de abril de 1969; publicada em A legião estrangeira como “África”) quando “cercada de pretas moças e esgalhadas” (Descoberta, p. 271), em sua breve passagem pela Libéria. Nessa crônica, Lispector descreve uma série de tentativas frustradas de comunicação com os moradores das “vilas de Tallah, Kebbe e Sasstown, dentro da Libéria” (Descoberta, p. 270), onde um sinal de adeus (“já que eles gostam tanto de dar adeus”) pode ser respondido com “gestos obscenos” (Descoberta, p. 270), uma frase longuíssima em que “não reconheço um só r ou s, apenas variações na escala do l” (Descoberta, p. 271) é resumida pelo intérprete com um brevíssimo “She likes you”, e onde até mesmo o inglês mal assimilado pelos nativos soava como “um dialeto local” (Descoberta, p. 270). Pois, para contrastar com esses lapsos de linguagem e gestos, ou precisamente no momento em que a autora, “sem jeito”, tenta mostrar o uso de seu lenço de cabeça a um grupo indiferente de pretas moças, ela se contagia da “doçura”, cuja única manifestação concreta consistia, assim como no caso da empregada “doida e mansa”, em certa expressão no rosto: “Nos rostos opacos as listas pintadas me olham. A doçura contagia…” (Descoberta, p. 270). O estado de doçura é tão misterioso, quanto frequente nas crônicas e ficção de Lispector. Não se está aqui, obviamente, diante da “doçura” subalterna idealizada pela classe patronal (sinônimo de devoção absoluta, como é o caso do mito da mãe-preta), embora ela esteja geralmente associada na obra de Lispector aos que estão em posição de subalternidade (os animais, em “Estado de graça – trecho”; uma camponesa, em “Alegria mansa – trecho”; os bobos, em “Das vantagens de ser bobo”). A doçura, nesse caso, é o estado crucial (utópico?) para o contato, literalmente o tato, entre mulheres de condições socioculturais distintas, pois que prescinde do desejo da “compreensão” e da linguagem: “Uma delas então se adianta no seu pé leve, e como se cumprisse um ritual – eles se dão inteiramente à forma-pega nos meus cabelos, alisa- os, experimenta-os, concentrada. Todas assistem. Não me mexo, para não assustá-las”. (Descoberta, p. 271).

Na crônica “Das doçuras de Deus”, Lispector igualmente narra seu “ritual” de contato com uma doméstica: aqui fora preciso que a empregada “aparecesse” em sua mansa loucura, ou contagiante doçura e, não mais, através da perturbadora vontade de ler os livros da patroa. Contudo, para tal estado de “doçura”, ou de “tanto amor”, as reações de Lispector que seguem a partida de sua empregada Aninha são um tanto quanto “ásperas”: “ela não gostava de ‘água com açúcar’ e nem o era”, escreve a autora, dando-se finalmente conta de um sentido, ou efeito, menos irônico para tal expressão- cliché. “O mundo não é. Fiquei sabendo de novo na noite em que asperamente fumei. Ah! Com que aspereza fumei. A cólera às vezes me tomava, ou então o espanto, ou a resignação” (Descoberta, p. 62). Segundo Castillo, tais reações resultam da experiência de autoconsciência, ou revelação, na qual a empregada Aninha “serve de espelho para Lispector, expondo a feiura de seu preconceito social” (“Lispector, cronista”, p. 104). A meu ver, no entanto, em vez de uma atenção narcisística voltada a si mesma, onde o outro atua somente como “espelho”, tais reações “ásperas” revelam, ao contrário, um “conflitivo senso de obrigação maternal” (“Fatos”, p. 109), mais consistente com outras crônicas sociais da autora. De um modo geral, seus encontros com a realidade precária de sujeitos que circulam nos espaços imediatos de suas crônicas são narrados como experiências traumáticas de uma retomada de consciência das feridas sociais não resolvidas: “o mundo não é [‘água com açúcar’]. Fiquei de novo sabendo…”. (Descoberta, p. 62).

Por outro lado, não importa quão traumática seja essa visão da precariedade, Lispector igualmente sente/expressa uma compulsão à “ação social”, que em alguns textos ela define como uma incumbência a “tomar conta do mundo”. Na crônica “Eu tomo conta do mundo” (4 de março de 1970), ela escreve:

Antes de dormir, tomo conta do mundo em forma de sonho e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro o céu parece azul-marinho intenso. Tomo conta do menino que tem uns nove anos de idade e que está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem […] Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. Por exemplo: obriga-me a me lembrar do rosto terrivelmente inexpressivo da mulher que vi na rua. Com os olhos tomo conta dos favelados encosta acima. Hão de perguntar-me por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida. E sou responsável por tudo o que existe. (Descoberta, p. 421).

Se “tomar conta de” significa “encarregar-se de” ou “responsabilizar- se por” algo ou alguém, essa expressão pode igualmente ser lida como “cuidar de” e “proteger” o outro cuja capacidade de agência é percebida como nula ou precária. Lispector sente-se então interpelada a responder maternalmente à visão do menino mal nutrido e tubérculo, ou à difícil lembrança de um rosto anônimo e “terrivelmente inexpressivo” de mulher. Em outras palavras, ela adota um modo de “pensar maternal” (nos termos de Sara Ruddick) 10, quando fala desses sujeitos precários anônimos e “dos favelados encosta acima”, para justificar sua tarefa contínua e exaustiva de “tomar conta do mundo” e de sentir-se “responsável por tudo o que existe”. Deixo fora da discussão a impossibilidade de tamanha incumbência e, certamente, as implicações maternalistas de seu papel de “protetora dos pobres e animais”, para ressaltar o fato de que semelhante atitude nos remete à forma sui generis de engajamento social baseado em uma “ética do cuidado”. 11 Por outro lado, como argumenta Marta Peixoto (2002), a compulsão maternal em Lispector a “tomar conta do mundo” “resulta ser não mais que uma observação cuidadosa das superfícies visíveis do mundo e, assim, ela constitui [um ato] completamente autocentrado, sem afetar, para o bem ou para o mal, os objetos do cuidado, incluindo os despossuídos” (“Fatos”, p. 109). Na crônica em questão, Lispector tenta dar à empregada Aninha um lugar melhor no mundo, onde mesmo sua “feiura” (“Esqueci de dizer que Aninha era muito feia”, p. 60), ou sua “falta de gosto” em se vestir, “era mais uma doçura sua” (Descoberta, p. 62). Porém, sua “ação” maternal limita-se a registrar as doçuras de Aninha, mesmo assim para um público que, ela bem o sabia, iria esquecê-la em pouco tempo: “quem a quereria, por Deus? A resposta é: por Deus (Descoberta, p. 62).

IV

Atuando nas crônicas de Lispector como mediadora entre dois mundos socialmente opostos e, por outro lado, como signo de alteridade sócio racial no universo familiar da cronista, a doméstica age, portanto, sobre a auto constituição do sujeito ético de maneira ambivalente: ela é o pretexto para as incursões, traumáticas mas moralmente edificantes, da cronista pelas zonas urbanas periféricas, embora igualmente atue nessas crônicas como fonte de culpa e constrangimento. Lispector reconhece seus conflitos e as tensões inerentes à relação patroa-empregada, mas não se dispõe a responder à demanda que a colocação desses conflitos produz. Daí, talvez, porque tais conflitos e tensões se manifestam como um estado de atenção (versus “ação social”). Por outro lado, não obstante suas oscilações entre “ver” e “não ver” (“Fatos”, p. 119) os conflitos gerados por essa relação afetivo-trabalhista de exploração social, a cronista propõe algo original na história da literatura brasileira. Em primeiro lugar, ela introduz o trauma e a culpa de classe, deflagrados pelo encontro com a pobreza. Como argumenta Jean Franco (2002), “embora aparentemente motivada pelo desejo modernista de representar e controlar [campos culturais de alto risco], os encontros de Lispector com a classe baixa é invariavelmente devastador” (Franco, “Seduction of margins”, p. 204). Além disso, dos desencontros sociais no seu universo familiar doméstico, Lispector extrai um aspecto – o olhar imaginário da doméstica sobre a patroa, ou o seu “ressentimento censurado, – que por motivos óbvios desafia a apropriação mitificada da doméstica como símbolo de confraternização inter-racial (a mãe preta, a mulata sedutora).

Tais reflexões se desdobram em sua narrativa dos anos 70 em uma série de questionamentos do poder do intelectual, e da literatura, de intervenção no estado de coisas no mundo. Por certo, suas indagações de algum modo se integram à “cultura da derrota” (FRANCO, 2003), característica da literatura brasileira pós-utópica, ou pós-revolucionária desses anos; nos termos de Renato Franco, uma literatura forçada a “narrar os impasses do escritor que não sabia decidir se era mais necessário escrever ou fazer política, constituindo assim um tipo de romance desiludido tanto com as possibilidades de transformação revolucionária da sociedade como com sua própria condição” (“Literatura e catástrofe”, p. 358). A seu próprio modo, Lispector chegaria nesses anos a semelhantes impasses. Por exemplo, em A hora da estrela (1977), o narrador se dispõe “a contar as fracas aventuras” (p.15) da nordestina “retirante” Macabéa, embora não espere superar, por meio da mediação literária, a distância social entre si e sua personagem: “[e] ste livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta” (p.17).

Os vários testemunhos de empregadas domésticas, que emergem a partir dos anos 80 no Brasil, são um sinal de que, por um motivo ou outro, o “silêncio” ou a “pergunta” não atendiam às novas pressões políticas impostas pela emergência dos movimentos sociais populares. O “silêncio” não servia tampouco como resposta para as autoras domésticas emergentes que viam suas práticas culturais como um exercício inédito de cidadania. Portanto, não obstante o enfretamento das contradições entre sua posicionalidade como patroa e sua oposição à cultura da servidão doméstica, Lispector de modo geral se aproxima a outros escritores canônicos brasileiros. Suas crônicas sobre domésticas parecem estar mais a serviço da construção de sua imagem pública do que da luta interpretativa para revisar os estereótipos que produziram/produzem estigma e injustiça contra as trabalhadoras domésticas na sociedade brasileira moderna.

  1. Este ensaio foi escrito originalmente para o livro O cuidado em cena: Desafios políticos, teóricos e práticos, de 2018, editado pela UDESC, de Florianópolis. Agradecemos a Marlene Tamanini e Francisco Gabriel Heidemann a liberação dos direitos de publicação[]
  2. Vale ressaltar o fato de que seu senso de responsabilidade social e a atitude condescendente de “protetora dos animais” termina por reforçar certa ideologia maternalista, que, segundo Judith Rollins, tende a definir as relações entre patroas e suas empregadas domésticas.[]
  3. A empregada doméstica como signo de mediação entre mundos opostos (casa/rua; sala de visita/fundos da casa; etc.) aparece frequentemente na literatura, sobretudo nas memórias de infância. Consultar o estudo de Leonore Davidoff sobre a doméstica nas memórias infantis do período britânico vitoriano “Class and Gender in Victorian England” (In: Worlds Between: Historical Perspectives on Gender and Class. Cambridge: Polity Press, 1995); consultar também a análise sobre a doméstica na configuração do desejo do infante Walter Benjamin em Peter Stallybrass & Allon White, “Below Stairs: the Maid and the Family Romance” (In: The Politics and Poetics of Transgression. Ithaca: Cornell University Press, 1986). Em Lispector, um dos exemplos mais interessantes da doméstica na sua função de mediadora entre o universo burguês e o da miséria aparece em uma passagem, ainda inédita, de seu manuscrito “Objeto gritante” (sobre a passagem em questão, ver meu ensaio “Nunca fomos tão engajadas: Style and Political Engagement in Contemporary Brazilian Women’s Fiction”. In: Anne J. Cruz et al. (ed.). Disciplines on the Line: Feminist Research on Spanish, Latin American, and U.S. Latina Women. Newark, DE: Juan de la Cuesta Press, 2003).[]
  4. Sua produção pouco conhecida como colunista de assuntos “para mulheres” em alguns jornais cariocas foi parcialmente publicada após o exaustivo trabalho de Aparecida Maria Nunes, que selecionou e editou suas crônicas femininas em três coletâneas: Correio feminino (2006), Só para mulheres: conselhos, receitas e segredos (2002), e Clarice na cabeceira: jornalismo (2012), todas pulicadas pela Rocco editora.[]
  5. Sua referência à escravidão doméstica constitui uma das raras passagens em suas crônicas em que raça é tratada como fator relevante na estruturação das relações entre patroas e empregadas.[]
  6. Como revela Vilma Arêas, em “Peças avulsas”, a visão do “ódio censurado” da empregada doméstica aparece em sua literatura a partir da leitura pessoal de um artigo de jornal, “Un ‘prolétariat’ en Tablier Blanc”, assinado por Elvire de Brissac, e publicado no Le Monde no dia 14 de março de 1963. Segundo a matéria em questão, as “condições psicológicas” desse grupo social, ou os sentimentos que constituem sua relação com os patrões, são precisamente o ressentimento reprimido, a humilhação e a alienação.[]
  7. LISPECTOR, Clarice. “Objeto gritante”. Arquivo de Clarice Lispector. In: Arquivo- Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, 1971.[]
  8. Como a autora explica nessa crônica, trata-se de uma empregada imigrante da Itália durante seus anos em Berna, na Suíça.[]
  9. Lispector mencionaria uma vez mais o uso por uma doméstica de vocábulos eruditos, sofisticados, ou seja, “próprios” da classe patronal, para narrar uma situação de “enigma” social. Na crônica em questão, “Enigma” (26 de abril de 1969), ela encontra casualmente no elevador de seu prédio uma mulher que “falava como dona-de-casa, seu rosto era o de dona- de-casa” (Descoberta, p. 282), porém, entrara em “sua” casa “pela porta de serviço” e ademais “estava uniformizada”. No entanto, por se tratar de empregada alheia, esse estremecimento de fronteiras sociais não a “atrapalha”; o humor final dessa crônica aparece mais por obediência às suas “convenções” genéricas, do que por uma necessidade da autora: “E – juro – acrescentou o seguinte: ‘A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive’. E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto” (Descoberta, p. 282). []
  10. RUDDICK, Sara. Maternal Thinking: Toward a Politics of Peace. 2 ed. Boston: Beacon Press, 1995.[]
  11. Apesar das controvérsias em torno de sua proposta de desassociar o “trabalho” da maternidade da figura da mãe biológica, além de uma visão um tanto quanto burguesa desse trabalho maternal, o livro de Sara Ruddick, Maternal Thinking (primeira edição, 1989) inaugurou um debate importante sobre as implicações éticas dos cuidados maternais. Segundo Peta Bowden, em Caring: Gender-Sensitive Ethics (Nova York, London: Routledge, 1997), “Ruddick tenta ‘identificar algumas das atitudes metafísicas específicas, capacidades cognitivas e conceitos de virtude (…) inspirados pelas demandas dos filhos [adotivos, biológicos ou de criação]’ (MT, p. 61), com o objetivo de valorizar os ideais de uma razão forjada pela responsabilidade e pelo amor, em detrimento da distância emocional, da objetividade e da impessoalidade. Seu argumento central é o de que as práticas que emanam das respostas maternais à ‘promessa de nascimento’ têm o potencial de gerar um corpo de prioridades, atitudes, virtudes e crenças que formam uma ética do cuidado e uma política pacifista” (tradução minha; Bowden, Caring, p. 24-5). []

Notas

Referências

ARÊAS, Vilma. “Peças avulsas.” In: O mestre. São Paulo: Green Forest do Brasil Editora, 1997. p. 560-569.

BOWDEN, Peta. Caring: Gender-Sensitive Ethics. New York; London: Routledge, 1997.

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CASTILLO, Debra. “Lispector, cronista.” In: Clarice Lispector: Novos aportes críticos. Ed. Cristina Ferreira Pinto Bailey et alii. Pittsburgh: Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana/Universidade de Pittsburgh, 2007. p. 95-108.

CLIFFORD, James. me Predicament of Culture: Twentieth-Century Ethnography, Literature, and Art. Cambridge, MA; London: Harvard University Press, 1988.

DAVIDOFF, Leonore. “Class and Gender in Victorian England.” In: . Worlds Between: Historical Perspectives on Gender and Class. Cambridge, UK: Polity Press, 1995.

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LISPECTOR, Clarice. Água Viva: Ficção. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.

———. Correio feminino. Comp. Aparecida Maria Nunes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

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———. Só para mulheres. Comp. Aparecida Maria Nunes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

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“Em nome de meu pai”

, "Em nome de meu pai". IMS Clarice Lispector, 2025. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br/2025/02/13/em-nome-de-meu-pai/. Acesso em: 03 abril 2026.

Clarice Lispector escreveu deliberadamente textos políticos. Para citar alguns, “Carta ao Ministro da Educação”, em que defende o acesso de estudantes às vagas na universidade pública; “A matança de seres humanos: os índios”, no qual repudia o assassinato de indígenas para a exploração de recursos naturais e advoga pela demarcação de seus territórios; “Mineirinho”, em que censura a ação da polícia ao assassinar um criminoso com treze tiros. Clarice também participou de algumas reuniões contra a ditadura e esteve presente em manifestações, incluindo a Passeata dos Cem Mil, registradas em fotografias onde aparece em meio à multidão em frente à Câmara dos Vereadores, na Cinelândia, Rio de Janeiro, ou ao lado de Carlos Scliar, Glauce Rocha, Oscar Niemeyer, Milton Nascimento, entre outras figuras públicas da cultura. 

Apesar disso, foi acusada de alienada pela patrulha do Pasquim, tabloide formado por homens ilustrados da zona sul carioca, mais especificamente pelo cartunista Henfil. A querela teve repercussão negativa e o cartunista, com raciocínio caricaturesco, se defendeu: “Eu a coloquei no Cemitério dos Mortos-Vivos porque ela se coloca dentro de uma redoma de Pequeno Príncipe, para ficar num mundo de flores e de passarinhos, enquanto Cristo está sendo pregado na cruz. Num momento como o de hoje, só tenho uma palavra a dizer de uma pessoa que continua falando de flores: é alienada”. O enterro da escritora promovido pelo cartunista em sua coluna chamada “Cemitério dos Mortos-Vivos” aconteceu em 1972, portanto, poucos anos depois dos textos políticos publicados por Clarice durante o AI-5 e da Passeata dos Cem Mil. Teresa Montero mostra na biografia de Clarice, À procura da própria coisa, que a escritora era fichada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem do governo ditatorial. 

Mas fato é que a ligação de Clarice com a política não se dá na superfície da vida pública, tampouco nos textos que abordam diretamente a questão. Isso se deve a uma compreensão da escritora sobre a fratura entre arte e política, abordada em dois textos irmãos, “Literatura e justiça” e “O que eu queria ter sido”, nos quais constata com lucidez desconcertante a inutilidade de sua literatura como instrumento político. No primeiro, ela diz:

[…] minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer.

Clarice diz que gostaria de se “aproximar de um modo ‘literário’ (isto é, transformado na veemência da arte) da ‘coisa social’”. Dissocia portanto duas dimensões, para ela inconciliáveis: a arte e o social. Diz desejar que sua literatura pudesse alcançar uma expressão – uma “veemência” – tal que a aproximasse da verdade com que sentiu a “coisa social”, anterior, inclusive, à verdade com que sentiu a arte. Declara o fracasso de sua literatura como instrumento político, que julga inócuo para a produção de mudanças efetivas na realidade social; mas vacila também quanto à força estético-formal de sua literatura no trato com o social, pois, segundo ela, a expressão de sua escrita está aquém à da “coisa social”. Em outras palavras, teria desejado provocar no leitor um arrebatamento semelhante ao que sentiu diante da injustiça flagrante de famílias miseráveis vivendo em barracos de madeira flutuando precariamente sobre gravetos no mangue de sua cidade, o Recife; mas declara-se incapaz de dar forma a esse sentimento. Uma vez apartadas a literatura e a “coisa social”, confessa sentir-se envergonhada por não fazer nada. Aqui, não fala mais de literatura e não aborda mais o desejo de uma escrita veemente, mas o desejo de ação política. 

No segundo texto, intitulado “O que eu gostaria de ter sido”, Clarice aborda novamente o sentimento de injustiça que a assaltou quando visitou os mocambos de Recife e como, diante de tamanha injustiça, assumia consigo o compromisso de defender os direitos das pessoas – “o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir.” Observa ainda nesse texto que quando menina é como se tivesse diante de si dois caminhos a seguir, duas vocações, e questiona-se: “Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha?” 

Importante notar que em ambos os textos, a palavra luta aparece reiteradamente. Ela diz “beleza profunda da luta”, em que curiosamente o atributo da beleza, tão confrontado quanto afeito à obra de arte, é transposto para qualificar a luta e não a literatura – mais um indício da co-moção de Clarice tanto pela “coisa social” como pela arte. E ela termina o texto mostrando-se inconformada com a ineficácia da literatura no campo das transformações sociais: “o que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. […] Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.” 

Tornam-se manifestos os dois espantos da menina Clarice: a verdade da “coisa social” e a verdade da arte. Duas verdades como dois caminhos divergentes a seguir: um coletivo, outro individual; um exterior, outro interior; um concreto, outro abstrato; um regido pelo consciente, outro pelo inconsciente; um político, outro artístico; um da ação, outro da imaginação; um real, outro ficcional. Duas verdades que criam uma tensão sem trégua em sua obra, cujo ponto máximo será a história – decididamente “exterior e explícita” – de Macabéa, em A hora da estrela, publicada por Clarice pouco antes de morrer. 

A luta, cujo germe é a revolta, será o guia do sentimento de justiça em Clarice. Antes de escolher a verdade da arte e se tornar escritora, entre os dois caminhos que a comoviam, seguiu o da luta e ingressou na Faculdade Nacional de Direito; ela diz em entrevista: “minha ideia era estudar advocacia para reformar as penitenciárias”. Durante a graduação, publicou, na revista da faculdade, um ensaio chamado “Observações sobre o direito de punir”. Nele, traça uma gênese do surgimento do direito, cuja conclusão será a de que a lei nasce da revolta e garante institucionalmente sua perpetuação: 

De início, não existiam direitos, mas poderes. Desde que o homem pôde vingar a ofensa a ele dirigida e verificou que tal vingança o satisfazia e atemorizava a reincidência, só deixou de exercer sua força perante uma força maior. […] Os fracos uniram-se; e é então que começa propriamente o plano […] os fracos, os primeiros ladinos e sofistas, os primeiros inteligentes da história da humanidade, procuraram submeter aquelas relações até então naturais, biológicas e necessárias ao domínio do pensamento. Surgiu, como defesa, a ideia de que apesar de não terem força, tinham direitos. […] E no espírito do homem foi se formando a correspondente daquela revolta.

O direito, em forma de lei, é assim o “correspondente daquela revolta” original dos mais fracos contra os mais fortes. A revolta, como o próprio prefixo da palavra sugere, está no início e no fim do direito, não cessa de voltar, revoltar, é matéria-prima e obra em progresso – acender o fogo no fogo, para, uma vez conquistado, não deixar que se apague. Cabe observar na história contada por Clarice a ocorrência de uma mudança significativa entre o ponto um, quando a revolta é individual (ou transindividual), o fermento do direito, e o ponto dois, quando é fixada na forma impessoal da lei, garantidora do direito à luta, que passa então a ser política. Entre uma e outra, muda-se o status da revolta, de individual para coletiva. 

No entanto, pondera Clarice, o capricho dos juízes pode se infiltrar na aplicação impessoal da lei, tornando-a disfuncional. É aqui que a cobra morde o rabo. Porque, se a lei é impessoal, a aplicação da lei, que está em poder de pessoas designadas para tal, não o é. Sendo assim, a revolta – poderíamos chamar também com Thoreau de “desobediência civil” – é a força motriz da justiça, isto é, renova, numa dinâmica que vai do individual ao coletivo e do coletivo ao individual, sucessivamente, a saúde de um sistema político. Tal dimensão individual da revolta – contra uma justiça personalista que oprime, pune, mantém privilégios de certos estratos sociais, em suma, elimina a possibilidade de luta – está entranhada, como veremos, na obra de Clarice. 

*

Vejamos a revolta individual (ou sua aniquilação) em duas personagens de Clarice insuspeitadamente parecidas. A primeira, Joana, do romance de estreia, Perto do coração selvagem, escrito quando a autora tinha 20 anos, e a segunda, Macabéa, de A hora da estrela, último livro publicado em vida. Entre o primeiro e o segundo livro, se passou toda a vida adulta da autora e, com ela, um certo desengano vai ganhando espaço. 

Em Perto do coração selvagem, a personagem Joana, após a morte do pai, passa a viver com a tia. Certo dia, quando a acompanhava no mercado, ao sair da loja, coloca um livro debaixo do braço e sai sem pagar. A tia empalidece e na sequência travam o seguinte diálogo: 

– Você sabe o que fez?
– Sei… Eu roubei o livro.
– Você acha que se pode roubar?
– Bem… talvez não.
– Por que então…?
– Eu posso.
– Você?! – gritou a tia.
– Sim, roubei porque quis. Só roubarei quando quiser. Não faz mal nenhum.
– Deus me ajude, quando faz mal, Joana?
– Quando a gente rouba e tem medo. Eu não estou contente nem triste.
A mulher olhou-a desamparada:
– Minha filha, você é quase uma mocinha, pouco falta para ser gente… Daqui a dias terá que abaixar o vestido… Eu lhe imploro: prometa que não faz mais isso, prometa, prometa em nome do pai.
Joana olhou-a com curiosidade:
– Mas se eu estou dizendo que posso tudo, que… – Eram inúteis as explicações. – Sim, prometo. Em nome de meu pai.

A revolta aqui é um experimento juvenil, mero exercício petulante de desobediência, mas gostaria de guardar dela a potência, uma vez que o poder de dizer não à lei equivale a dizer sim a si mesmo – uma autoafirmação. Nesse sentido, veremos mais à frente o quanto Joana é diferente de Macabéa, embora ambas compartilhem algumas semelhanças de personalidade. 

Aproveito um detalhe do diálogo citado acima para fazer uma breve digressão e tratar da importância do pai de Clarice para sua noção de justiça ligada ao valor da pessoa humana. 

Proveniente da doutrina cristã, a fórmula “em nome do pai”, que aparece no texto, por coincidência, serviu ao psicanalista Jacques Lacan para forjar sua metáfora da lei – “o nome do pai”, cujo som, em francês, le nom du père, soa também como “o não do pai”. Para o psicanalista francês, é esse não dos adultos que instaura na criança o supereu com o qual seu eu terá que negociar durante a vida social. No diálogo criado por Clarice, o supereu, encarnado na figura da tia, seguidora das convenções, diz que não se pode roubar, mas o eu indômito de Joana discorda e rouba porque pode e não tem medo. Uma vez constatado pela menina que a tia nunca entenderia seus argumentos, cinicamente acata sua súplica e promete não roubar mais, “em nome de meu pai”. O pai morto de Joana, ao contrário da tia, não representou para a personagem a figura impositiva da lei; quando era vivo, Joana, ao recitar-lhe versinhos, recebia como resposta sins: “lindas, pequena, lindas. Como é que se faz uma poesia tão bonita?”. Desse modo, quando promete não mais roubar em “nome de meu pai”, embora pareça ceder ao pedido da tia, negaceia e mantém-se leal à filiação paterna, no avesso da metáfora lacaniana, ou seja, singularizando a figura de seu pai. 

O pai de Clarice foi um imigrante ucraniano, com pendor para as artes, a matemática e as coisas do espírito, mas, quando jovem, por ser judeu, foi rejeitado nas universidades onde pretendeu estudar. Após uma viagem de imigração que durou meses – Clarice nasceu em trânsito, numa vila chamada Chechelnyk –, tendo sofrido no caminho ataques violentos de grupos antissemitas, quando chegou ao Brasil, trabalhou em uma fábrica de sabão e como mascate. Conforme Clarice escreveu na crônica “Persona”, o maior elogio atribuído por seu pai a alguém era dizer que ele ou ela eram “uma pessoa”; “até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas.” Pedro Lispector morreu quando Clarice tinha 18 anos. Em carta ao amigo Fernando Sabino, confidenciou que certa vez o pai lhe havia dito: “se eu escrevesse, escreveria um livro sobre um homem que viu que se tinha perdido”; e ela arremata: “não posso pensar nisso sem que sinta uma dor física insuportável”. 

Uma existência que não foi o que se desejou ser devido às contingências da vida, no caso, ser judeu, na Ucrânia, em tempos de perseguição a seu povo, para alguém como Clarice, que perscruta a “matéria vida” com tanta acuidade, que dedicou toda sua literatura a tentar se aproximar de seu mistério, essa é a maior injustiça: um ser humano impedido, pelas condições sociais e materiais, de ser o que se quer. Essa visão de Clarice coincide com a de outra judia, Hannah Arendt, que persegue o valor da singularidade do ser humano a partir da ideia de natalidade (ideia, aliás, alçada à importância filosófica pelo cristianismo). Assim diz Arendt em A condição humana

[…] o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de natalidade.

O que condições sociais e materiais adversas podem reprimir é justamente a ação de uma pessoa, ação necessariamente política, isto é, o florescimento da revolta e da possibilidade de luta. No caso de uma sociedade injusta, o não da lei caprichosa é um não à ação política dos desassistidos. Macabéa, por exemplo, personagem de A hora da estrela, teve a vida assaltada pela máquina do sistema econômico e político. Vamos relembrar sua história, narrada por outro personagem, Rodrigo S.M. (na verdade Clarice Lispector); é assim, com seu nome próprio entre parênteses que a escritora apresenta seu personagem-autor-narrador, confundindo-se com ele.

Rodrigo S.M. é um intelectual de classe média ou classe média alta (embora diga que não pertence a classe nenhuma) e conta a história de uma nordestina (como ele) cujo “sentimento de perdição no rosto” pegou no ar de relance em uma rua do Rio de Janeiro. Faz questão de frisar que ela é uma criação ficcional sua, ainda que se pareça com tantas nordestinas reais “que andam por aí aos montes”. Desde aí já há uma intenção da escritora de embaralhar ficção e realidade, dizendo uma coisa e desmentindo-a logo a seguir. Macabéa é uma personagem perturbadora. Ela é sonhadora, poética, sensual; no entanto, essas qualidades, nela, não germinam. Como Clarice disse em entrevista, Macabéa tem “uma inocência pisada”. O narrador, a certa altura, diz que a personagem “tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha”. Maltratada pelo autor, ainda que este oscile entre o ódio e o amor por sua criação, Macabéa é massacrada pela cidade grande e humilhada pelas pessoas próximas. A nada reage. 

Joana, de Perto do coração selvagem, também é sonhadora, poética e sensual. É como se a matéria de que as duas foram feitas fosse a mesma – expressa na pujante “vida interior” –, mas, em Joana, essa matéria original tenha sido “passível de aperfeiçoamento”, cujo fruto será uma mulher reflexiva, confiante e ativa; assim termina o livro de estreia de Clarice, com Joana pensando sobre si, após desilusões na vida: “nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo”. O tema do aperfeiçoamento e do aprendizado perpassa muitos livros de Clarice; e, para ela, isso significa a autodescoberta do mal, da desobediência, da insubmissão, da afirmação dos desejos. Em outras palavras, a revolta contra a lei. 

Já em Macabéa, é como se esse mesma matéria de que foram feitas tenha se atrofiado – como seus “ovários murchos como um cogumelo cozido” – e produzido o fruto disforme “do cruzamento de ‘o quê’ com ‘o quê’.” Macabéa, ao fim do livro, após uma curta vida de autômata, é atropelada: “e enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a – e neste mesmo instante em algum único lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em gargalhada de relincho”. Não é por acaso que o cavalo aparece no fim tanto do primeiro como do último livro. Joana toma emprestada as qualidades de vigor e beleza do cavalo novo, enquanto – o mesmo cavalo? – ri de escárnio da morte de Macabéa; lhe é negado como figura redentora, de renascimento. E por que Macabéa e Joana, embora feitas da mesma matéria, se tornam uma o avesso da outra?  

A primeira frase de A hora da estrela é: “o mundo começou com um sim”. Esse foi o primeiro “sim” de Macabéa, seu nascimento. Afinal, foi concebida. Com esse sim da natalidade, a personagem traz o germe da “capacidade de iniciar algo novo, de agir”, usando as palavras de Hannah Arendt. Mas – e aí está a consternação do livro – Macabéa, entre o primeiro sim, o do nascimento, e o segundo, o de sua morte, foi cravejada – como o foi o criminoso Mineirinho por treze balas – por nãos: não tinha pai, não tinha mãe, não era bonita, não era inteligente, não era atraente, não era amada. Ao contrário, só recebia destratos da tia, da amiga do trabalho Glória, do namorado Olímpico e da cidade grande e impessoal. Macabéa foi assinalada pela insígnia do não. 

O que a escrita de Clarice faz em A hora da estrela é instalar uma inexorabilidade quanto ao destino de Macabéa, fundada na desigualdade imobilizante da sociedade brasileira, de matriz escravocrata e atravessada por um sistema econômico desigual e massacrante para os mais pobres. Macabéa não tem “o direito ao grito” – esse é um dos títulos possíveis para o livro, dentre os treze que lista Clarice. Uma vida nascida do sim, contudo espoliada por nãos. Qualquer desejo de Macabéa, desde sempre, foi repreendido e dele se fez escárnio. Mesmo os que se permitia alimentar não eram dela, mas ouvidos nas propagandas do rádio, do cinema, das vitrines das lojas. Ou seja, o que poderia ter de mais vital, seus desejos, mesmo deles foi alienada pelo mercado; “como uma cadela vadia era teleguiada”, joguete de uma lógica que a desindividualizava, tornando-a mais uma na massa servil – “nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”.  

Clarice, em seu texto impiedoso e sarcástico, emula a opressão do sistema e seus nãos, retirando inclusive frases do senso comum das madames, como por exemplo: “ela quis mais porque é mesmo uma verdade que quando se dá a mão, essa gentinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com fome de tudo. E quer mas sem direito algum, pois não é?”. Sua escrita, em A hora da estrela, procura exacerbar um discurso que já existe difuso em certos estratos da sociedade, deflagrando, a partir de sua superexposição, e sem juízo de valor, o sadismo, a opressão e o racismo das classes médias e altas. 

Exceção feita ao entrelugar ocupado por Rodrigo S.M., que, apesar de se identificar e se compadecer da vida daquela miserável, não abre mão de seu conforto e tampouco nada poderá fazer para salvá-la. Ele passa grande parte do livro sem saber como será o fim de Macabéa, se ela morrerá ou não, preocupado em fazê-la viver, mas sem ter as rédeas de seu destino. No texto, a realidade fala mais alto que a ficção. O criador ter de matar sua criatura é o atestado da impotência de uma classe média apática, mas também a confissão do crime de classe, uma vez que não fazer nada (ou “apenas escrever não é fazer”) corresponde a se tornar cúmplice da necropolítica; não matou, mas deixou matar. Um dos títulos alternativos de A hora da estrela é precisamente A culpa é minha

Enquanto a luta política é, para as pessoas injustiçadas, uma exigência, porque dela dependem a vida e a morte, para a classe média intelectual, representada por Rodrigo S.M., é uma escolha (entre a luta ou o pagamento do serviço privado de segurança, de educação, de saúde etc.) da qual Clarice diz se envergonhar de nada fazer. A vergonha por não fazer nada em “Literatura e justiça”, se torna culpa em A hora da estrela. Culpa, mas também identificação com Macabéa; ele é capaz de na mesma página dizer consternado que acaba de “morrer com a moça” e, supreendentemente, perceber que não estava tão morto assim, pois se despede do leitor com as seguintes palavras: 

E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.

A novela se inicia com um sim e acaba com um sim. O sim final reúne em único termo dois sentidos opostos: a morte apoteótica de Macabéa, atropelada por um carro de luxo, e a vida do narrador intelectual, expressa no gozo hedonista do carpe diem: “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”. 

*

Em 2023, a escritora Conceição Evaristo publicou o livro Macabéa: Flor de Mulungu, composto por um conto e ilustrações (de Luciana Nabuco), no qual a narradora, identificando-se com a personagem, salva sua vida: “Macabéa ia se parir. Flor de Mulungu tinha a potência da vida. Força motriz de um povo que resilientemente vai emoldurando o seu grito”. A palavra grito aqui faz ressoar um dos títulos alternativos, como já vimos, da novela de Clarice, neste caso, negado à Macabéa, e agora reivindicado por Evaristo. A escolha da autora mineira nos devolve a questão colocada no início deste texto: a relação entre literatura e política. 

Salvar ou não a vida de uma personagem na ficção, está claro, não é o mesmo que salvá-la na vida real. Mas a intenção de Evaristo parece sugerir algo mais: que a rasura da história original, contada por Rodrigo S.M., autor que, embora movido por um desejo ávido e um tanto frustrado de identificação com a personagem, vive no conforto burguês de sua casa, pudesse, pela apropriação da voz narrativa, promover efeitos de realidade. Quanto a isso, é exemplar o título de um de seus mais comentados contos, “A gente combinamos de não morrer”, publicado no livro Olhos d’água. Também Macabéa, Flor de Mulungu é parte de um projeto de escrita que de certa forma desdiz as formulações de Clarice em “Literatura e justiça”, ou seja, é marcado pela porosidade entre ficção e realidade, individualidade e coletividade, pólos que coexistem no conceito de escrevivência. Cito Evaristo: 

Escrevivência pode ser como se o sujeito da escrita estivesse escrevendo a si próprio, sendo ele a realidade ficcional, a própria inventiva de sua escrita, e muitas vezes o é. Mas, ao escrever a si próprio, seu gesto se amplia e, sem sair de si, colhe vidas, histórias do entorno. E por isso é uma escrita que não se esgota em si, mas, aprofunda, amplia, abarca a história de uma coletividade.

A escrita de Clarice Lispector na voz de Rodrigo S.M. parte de um lugar diverso. Há também porosidade entre ficção e realidade, mas as duas dimensões se embaralham no texto e, supostamente, dali não saem. Mas é o trânsito entre o individual e o coletivo, ou entre a obra e seu impacto no leitor, que marca, para Clarice, o impedimento da literatura como instrumento político, pois a escritora escreve a partir de um lugar isolado, sem lastro de pertença a uma coletividade, esta substituída pela ideia do consumidor-cidadão, peça da engrenagem do sistema econômico capitalista e da democracia minimalista. Uma vez que a luta só pode ser coletiva, a sensação de impotência do narrador é inevitável. 

Evaristo, ao contrário, escreve a partir da experiência de alguém que teve a sociedade e o aparato estatal e policial contra ela: é negra, viveu em favela, foi empregada doméstica. Assim como a maior parte da população afrodiaspórica brasileira, socializou-se em modos de vida herdados da ascendência africana, em enclaves de resistência contracoloniais fundados em laços de pertencimento afetivo e político, levados a cabo, por exemplo, nos quilombos, terreiros e favelas (chamadas não por acaso de comunidades). Assim, salvar Macabéa na ficção guarda relação com a afirmação de sua própria existência e de tantas mulheres negras escritoras, que hoje, como resultado de uma luta empreendida ao longo de muitas décadas, gozam de uma abertura mais sistemática no mercado editorial para contar sobre si próprias histórias antes expropriadas por escritores das classes dominantes. 

A apropriação da narração sobre si teve um marco paradigmático na literatura brasileira, com a publicação, em 1960, do livro Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, traduzido para 14 idiomas. Há uma foto em que Carolina e Clarice aparecem lado a lado. Na ocasião, autografavam seus respectivos livros em um evento literário. Carolina teria dito a Clarice que ela escrevia de forma elegante, e Clarice, que Carolina escrevia com verdade. De algum modo, a verdade para Clarice pode ser traduzida por seu próprio desejo de escrever com a veemência da “coisa social”. Tal veemência pode ser entendida como escrita pregnante de realidade; feita de palavras, a um só tempo, extraídas da matéria do chão, das coisas, dos corpos, com toda sua aspereza, como se nelas trouxessem estilhaços de vida capazes de ferir o leitor, e encantadas, capazes de fazer ressoar a propriedade física de seus sons na caixa toráxica, (re)criando o concreto do mundo, isto é, dando forma estética à revolta, à “beleza da luta”. É como Clarice quando diz que o natural é sobrenatural, que é “inteiramente mágico o fato de uma escura e seca semente conter em si uma planta verde brilhante.” Ou como canta Chico César na canção “Béradêro”, palavras que “são sons, são sons de sim, são sons, são sons de sim, são sons…” Palavras são sementes que podem germinar.

Mas se Carolina em sua época foi uma desbravadora solitária, representante do valor de exceção da mulher negra e pobre que conseguiu escrever a contrapelo da cidade, hoje, o fato de Evaristo e outras mulheres negras, assim como escritores e escritoras de representatividades silenciadas historicamente, poderem escrever, isso se deve menos à própria literatura do que à luta dos movimentos sociais negros por políticas públicas de Estado que criassem condições para singularidades artísticas florescerem no seio da coletividade. Políticas públicas postas em prática em anos mais ou menos recentes, de todo modo, mais de trinta anos após a publicação de A hora da estrela. O que nos mostra que tais mudanças, ainda que sofram demasiada resistência das classes dominantes, acontecem como indispensáveis suturas na malha social brasileira. Para listar algumas: bolsa família, cotas raciais nas universidades públicas, Prouni, criação de institutos federais, aumento substancial do número de universidades federais e a lei 10.639/03, que regulamenta o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio. Essas políticas tiveram e têm impacto efetivo na vida das pessoas; são elas que efetivamente salvam Macabéas, dentro e fora da ficção, como parece ter sido o desejo, fora de alcance, do intelectual Rodrigo S.M.. 

Desse modo, o fato de Evaristo poder salvar a vida de sua Macabéa é a evidência, agora sim, de um escrever que é como fazer, pois o ato da escrita ou de se fazer ouvir literariamente foi conquistado no bojo da revolta coletiva e individual, da potência transformadora da natalidade, propulsora de sins, e dela é inseparável. Mas podemos também pensar na própria vida de Clarice, aos 18 anos, imigrante, pobre e orfã, vendo-se na imagem de seu pai, “um homem que viu que se tinha perdido”, impedido de ser o que desejou ser pelo estigma de ser judeu. Afinal, ela poderia ter se tornado Macabéa. Ainda podemos ouvir ressoar as palavras de Rodrigo S.M. (na verdade Clarice Lispector): “quando penso que eu podia ter nascido ela [Macabéa] — e por que não? — estremeço. E parece-me covarde fuga de eu não ser, sinto culpa como disse num dos títulos”. A pergunta não é retórica: como não associar a “laranjada aguada e pão amanhecido”, que Tânia, irmã de Clarice, disse ter sido a refeição da família nos dias de maior pobreza, com “o cachorro quente e refrigerante”, base da alimentação de Macabéa? 

Clarice escreveu sua história na idade madura (tinha 56 anos), período em que ainda se ressentia da acusação de ser uma escritora alienada. Já distante da pobreza da infância, vivendo em seu apartamento de classe média alta no Leme e tendo apenas a escrita como instrumento de ação no mundo, sentia-se impotente politicamente. A tentativa malograda do autor de salvar Macabéa parece ser resultado da descrença niilista da escritora na possibilidade de atingir a alteridade radical que almejava no contexto de uma sociedade rachada por extrema injustiça. Sozinha com sua escrita, e a partir da compreensão de que a luta política se faz coletivamente, não viu saída ética outra para sua literatura senão matar sua personagem — “a palavra não pode ser enfeitada e artisticamente vã, tem que ser apenas ela”. 

Se Clarice, como vimos no texto “O que eu queria ter sido”, tendo desejado ser uma lutadora, julga que “é pouco, é muito pouco” ser alguém “que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima”, na mesma chave, como bem discorda José Miguel Wisnik, no podcast Clarice Lispector: visões do esplendor, é preciso entender que

essa escritora tão interiorizante, tão voltada para questões que a gente diria da subjetividade, na verdade, faz o que a literatura faz quando é potente, que é na mesma dimensão do subjetivo ter uma sondagem ontológica do mundo onde o social aparece com toda a força.

Clarice, de algum modo, fez usufruto em sua escrita do direito ao grito, cuja expressividade tem origem na veemência da realidade, aquela mesma de que se queixou não ter alcançado, mas que A hora da estrela, tal o desconcerto, a crueldade e a carga de indignação que suscita, dá testemunho contrário. A arte pode não ser ação, mas é objeto com potencial político quando através de um aprendizado ético do leitor logra ações consequentes e prenhes de efeitos de realidade. No mais, para Clarice, a verdadeira criadora de Macabéa, “qualquer gato, qualquer cachorro vale mais do que a literatura”. 

Notas